Vimos que efetivamente existe, na Palavra revelada, a menção expressa à possibilidade de sermos riscados do livro da vida. E São Tomás nos mostrará agora como é que isto pode dar-se.

A primeira coisa que São Tomás coloca é que seria muito fácil defender que tudo se passa no plano do conhecimento humano. Aqueles a quem vemos viver na graça de Deus, viver na santidade, estariam, segundo se manifesta para nós, inscritos no livro da vida. Quando, no entanto, tomássemos conhecimento de que esta mesma pessoa, tendo vivido algum tempo na graça e na santidade, passou a viver uma vida de desprezo a Deus, de desobediência ostensiva aos seus santos mandamentos, de rebeldia e contumácia, nós o consideraríamos como “riscado do livro da vida”. Assim, não se trataria de ser efetivamente riscado no coração de Deus, mas apenas de que a nossa opinião sobre ele mudasse, sem que a própria situação da inscrição viesse a mudar.

Mas há algo para além disto, diz São Tomás. Há uma promessa, no Livro do Apocalipse, de que aqueles que vencerem “não serão apagados do livro da vida” (Ap 3, 5). Ora, diz São Tomás, as Escrituras não fariam uma promessa de “manter os vencedores no livro da vida” se não houvesse a possibilidade de ser efetivamente riscado de lá. Não se trata apenas de algo que ocorre segundo a visão humana (como São Tomás descreveu acima), mas de uma promessa real. Pode-se efetivamente ser riscado do livro da vida, e São Tomás explicará como isto pode acontecer. E devemos lê-lo com muito cuidado, porque, se ele não for muito bem compreendido aqui, parecerá que ele está contradizendo o quanto já estabeleceu, na questão 23, sobre a imutabilidade e a infalibilidade da predestinação. Ele parece dizer o contrário aqui. Mas não é isto. Vamos lê-lo cuidadosamente.

Lembremos que, no artigo 5º da questão 23, São Tomás nos disse que Deus pode ordenar a salvação de tal modo a conceder-nos a graça para que venhamos, como causa segunda da nossa salvação, a merecer a glória. Este é um “merecimento” real, mas de pura graça, já que Deus é sua causa primeira. (Ele pode também eventualmente não fazê-lo, concedendo incondicionalmente a graça da conversão final, por exemplo, no momento extremo da morte, a alguém que viveu toda a vida em desacordo com ele, levando-o para o céu sem nenhum merecimento de sua parte). É por isto que São Tomás fará aqui uma distinção, entre aqueles que são salvos incondicionalmente por Deus, sem qualquer merecimento de sua parte (que São Tomás chama de “aqueles salvos pela ordenação da predestinação divina, que nunca falha”), e aqueles a quem Deus ordena a salvação concedendo a graça para que, como causas segundas, mereçam a glória.

Neste último caso, Deus, na sua misericórdia infinita, já sabe e já elegeu, de modo misterioso e infalível, aqueles que se salvarão, embora ele queira que eles, recebendo a graça, vivam-na de modo a merecer a glória. Estes, como aqueles que serão salvos sem nenhum merecimento, estão indelevelmente inscritos no livro da vida. Os que foram salvos sem merecimento, porém, estão inscritos de maneira absoluta, incondicional, enquanto estes estão inscritos como que condicionalmente, já que a sua salvação tem como causa segunda o merecimento, a resposta da liberdade à graça. No entanto, como já vimos também quando estudamos a providência divina, Deus não viola a natureza de suas causas; o que ele quer, ocorre infalivelmente, mas ocorre por causas necessárias se tem causas necessárias, e ocorre por causas contingentes quando naturalmente tem causas contingentes (I, 22, 4). Assim, os que se salvam por merecimento salvam-se necessariamente por meios contingentes, e por isto sua inscrição é também contingente, embora necessariamente será confirmada.

Mas ocorre que, em sua misericórdia infinita, Deus não deixa de preordenar tudo quanto é necessário à salvação daqueles que, embora venham a receber a sua graça, não farão dela, em razão do seu deliberado abuso do livre arbítrio, o uso que seria necessário para que realmente fossem causa segunda da própria salvação. Não a merecerão, embora haja, com relação a eles, toda a providência, toda a graça e todas as oportunidades para que venham a merecê-la. Preferirão, misteriosamente, o mal, a falha, o fracasso. Terão a oportunidade de descobrir, talvez no juízo final, que Deus lhes tinha preparado amorosamente o caminho para a glória, e eles livremente o rejeitaram. A predestinação de Deus, de algum modo para nós misterioso, já o sabia, e não os tinha eleito para a salvação. Mas a sua misericórdia não lhes deixou faltar a graça da qual eles preferiram desdenhar. Na sua providência, preparou-lhes o caminho de santidade, que é o próprio Jesus, que, no entanto, eles deliberadamente rejeitaram em algum momento. Seja por terem repelido a Sua Igreja (“não se podem salvar aqueles que, não ignorando que Deus, por Jesus Cristo, fundou a Igreja Católica como necessária, se recusam a entrar nela ou a nela perseverar”, Catecismo, § 846), seja porque, não conhecendo a Igreja (ou não sabendo, sem culpa própria, que pertencer a ela é necessário para a salvação) não procuraram Deus com um coração sincero e não se esforçaram, sob o influxo da graça, por cumprir a sua vontade conhecida através do que a consciência lhes dita (Catecismo, § 847).

Dentre estes, e dentre aqueles que foram preordenados a salvar-se pela graça de merecer a glória, há aqueles que vivem momentaneamente na graça (e assim estão condicionalmente inscritos no livro), decaem da graça por terem cometido pecado mortal (e assim deixam de viver em amizade com Deus, sendo riscados do livro) e mesmo aqueles que, pelo sacramento da reconciliação, recebem a absolvição, ou mesmo os que, embora vivendo em pecado mortal, recebem a misericórdia da salvação na hora da morte por caminhos que só Deus conhece (§ 848) e voltam a ser inscritos no livro. O pecado original em nós leva-nos, mesmo aqueles que vivem a busca intensa pela santidade, sob a graça, a cair e levantar-se, ou seja, a momentos de intensa amizade com Deus e momentos de afastamento e queda, e neste sentido a promessa do Apocalipse pode ser lida como a garantia de que aos que persistirem (e persistir já é um dom da graça) não lhes faltará a providência para assistir seus esforços. É uma promessa maravilhosa: nunca nos falta, a nenhum de nós (mesmo ao maior pecador) a graça imerecida do primeiro chamado à santidade, nem a graça ordinária para a caminhada da fé, nem a graça extraordinária da reconversão, nem sequer a graça da misericórdia por vias desconhecidas para os pecadores renitentes na hora da sua morte. Que alguém venha a deliberar pela própria perdição, num contexto assim, é algo que nós, vivos, jamais conseguiremos saber, por um lado, e cuja mera possibilidade teórica de que possa vir a acontecer deveria nos assombrar profundamente, por outro. Deveríamos sempre rezar assim: “Senhor, eu sei que a tua graça jamais faltará. Faze com que a minha vontade de salvação jamais falte também!”.

Neste sentido, portanto, alguém pode ser riscado verdadeiramente do livro da vida, e pode ser verdadeiramente reinscrito. Embora, no coração mesmo de Deus, o amor por ele nunca mude. É o que veremos nas respostas aos argumentos objetores, abaixo.

O primeiro argumento objetor lembrava, com Santo Agostinho, que o coração de Deus não pode mudar, nem a sua ciência; assim, não se poderia imaginar, diz o argumento, a possibilidade de que alguém fosse efetivamente riscado do livro da vida. São Tomás responde que a expressão metafórica “ser riscado do livro da vida” não se refere ao conhecimento de Deus, nem ao seu amor ou à sua eleição, que são eternos e imutáveis. Refere-se, no entanto, à luta da vida cotidiana do ser humano, na sua relação com Deus e com a própria salvação, que são, como o próprio ser humano, contingentes e mutáveis.

Este é exatamente o conteúdo da segunda objeção. Se a expressão “livro da vida” significa propriamente a inscrição da predestinação no coração de Deus, então ela não pode sofrer alteração, porque Deus não muda. São Tomás admite que Deus não muda. Mas nós mudamos, e nossa caminhada até a salvação é, ordinariamente, errática e tortuosa. Esta mudança em nós, diz São Tomás, não escapa da presciência divina, nem da sua providência, mas causa efeitos reais, previstos e respeitados por Deus, no caminho de cada um até a eternidade. Deus, na sua presciência, prevê e inclui na sua providência a nossa errática contingência, e é isto que a expressão “riscar-se do livro da vida” quer dizer. Deus não muda, e prevê e provê imutavelmente sobre a nossa própria mutabilidade.

Isto responde à terceira objeção, aquela que diz que, se riscar-se, como exclusão, se opõe a inscrever-se, como inclusão. Assim, a objeção diz que não poderia haver uma exclusão, como desfazimento da inclusão, porque não poderia haver a reinclusão, como desfazimento da exclusão. São Tomás diz que nada impede que se fale em exclusão e reinclusão, quer do ponto de vista do conhecimento humano (quando vemos alguém abandonar a fé e a ela retornar depois), quer como uma efetiva queda da graça que afasta momentaneamente da amizade com Deus, seguida pelo arrependimento eficaz que, pelo sacramento da reconciliação, faz o pecador retornar ao caminho da vida eterna. Estas mudanças não significam qualquer mudança em Deus, porque Deus já as conhecia e já as considerava em suas decisões maravilhosas e em sua providência misericordiosa. Mas efetivamente significam mudanças em nós, quanto à nossa amizade com ele.