De tudo o que estudamos até aqui sobre predestinação, temos que admitir que se trata de um mistério que sempre vai nos desafiar, e que jamais será esgotado. A síntese que Deus faz da nossa liberdade com a sua é simplesmente maravilhosa demais para que a possamos esgotar – é um saber maravilhoso, que nos ultrapassa. É alto demais, não podemos atingi-lo (Sl 139 (138), 6).

De fato, vê-se aqui que a amizade com Deus não está sujeita ao unilateralismo fatalista de uma predestinação absoluta e exclusiva, da parte de Deus. Do mesmo modo que, quando estudamos a questão anterior, vimos, no artigo 5, que Deus pode ordenar a predestinação de uma maneira tal que, concedida a graça, venhamos a merecer a glória, podemos imaginar que a síntese que ele faz entre graça, glória e merecimento esteja maravilhosamente aberta à liberdade humana, ainda que a sua causa primeira seja sempre e exclusivamente a vontade de Deus. E com isto podemos admitir que Deus sempre concede a graça a quem busca a salvação, já que ele nunca predestina à perdição.

Não podemos esquecer que somente o poder divino pode conciliar, por um lado, o fato de que a eleição e a predestinação são incondicionais, em Deus, e infalíveis, no sentido de que aqueles que são predestinados realmente se salvam, e, por outro, o fato de que somos causas segundas da nossa própria salvação, adquirindo real merecimento pela graça que ele nos concede, e podendo desperdiçá-la realmente, e merecer a condenação eterna. O fato de que ele elege desde a eternidade, apenas por sua bondade infinita e por sua misericórdia inesgotável, e de modo infalível, seus amigos, não exclui o fato de que, na sua eleição, ele sintetiza maravilhosamente a liberdade humana com a sua providência misericordiosa, e, embora querendo e providenciando a salvação de todos, permite que nem todos aproveitem da sua graça abundantemente derramada. Deus não quer robôs, quer amigos sinceros e dignos.

Isto tampouco exclui a possibilidade de que Deus conceda a glória incondicionalmente para aqueles que, a nossos olhos, não deveriam merecê-la, porque ele não está preso a nenhum “regime de merecimento” para escolher seus amigos. O dom da amizade de Deus é imerecido, e ele pode dar a graça do arrependimento e da reconciliação incondicional, no último momento, mesmo àqueles que, aos nossos olhos, parecem ter morrido em situação de perdição total. Penso, aqui, no caso do bom ladrão, a quem Jesus prometeu, no último minuto, o paraíso (Lc 23, 46), ou daquela fala tão forte de Jesus, que declara que os publicanos e as prostitutas nos precederão no Reino de Deus (Mt 21, 31). Deus pode colocar alguns sob a condição do merecimento, enquanto resgata incondicionalmente outros de uma vida totalmente fracassada aos olhos humanos. A sua providência permanecerá sempre misteriosa para nós, e as tentativas de harmonizar, sob um sistema, o livre arbítrio humano e a predestinação sempre permanecerão como esforços teológicos incompletos e, de certo modo, patéticos. O Magistério sempre lutará para preservar, neste embate, a liberdade incondicional de Deus em sua eleição, por um lado, e a necessidade de nossa colaboração, com o risco real de perdermos, por culpa nossa a salvação, por outro. Mas terá sempre muito cuidado, e sempre teve, quando precisa avaliar a ortodoxia dos sistemas teológicos. A Igreja sabe que está diante de um mistério, aqui, e não procurará jamais dominá-lo, senão apenas livrar-nos dos erros nocivos que conduzem sempre a uma atitude humana ruim perante Deus, seja por excesso de presunção na própria salvação, seja pelo desespero, seja por quietismo, seja por puritanismo. Trata-se de equilibrar, aqui, um saudável temor de Deus com um esforço confiante na graça.

O debate proposto agora envolve exatamente isto: a conciliação entre a infalibilidade da eleição por Deus para a vida eterna em amizade com ele, por um lado, e a liberdade humana, sempre sujeita à radical escolha pelo fracasso mais completo, por outro. Pode alguém frustrar os planos salvíficos de Deus para si mesmo? Podemos excluir-nos do coração de Deus, podemos alterar o que ali foi inscrito? Alguém poderia ser riscado do livro da vida? É esta a hipótese controvertida proposta por São Tomás agora: parece que ninguém poderia ser riscado do livro da vida. E ele traz três argumentos objetores, em suporte desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento cita Agostinho, para quem “o livro da vida é a presciência de Deus, que não pode enganar-se”. E o argumento raciocina assim: se nada pode escapar à presciência de Deus, e se a sua predestinação não pode falhar, então, conclui o argumento, ninguém poderia ser riscado do livro da vida.

O segundo argumento parte da ideia de que a expressão “livro da vida” se refere, propriamente, a inscrição no coração de Deus. Mas se o coração de Deus é eterno e imutável, tal como o próprio Deus o é, então tudo o que nele existir deve seguir seu modo de ser, ou seja, deve ser eterno e imutável. Logo, conclui o argumento, não seria possível riscar alguém do livro da vida.

O terceiro argumento diz que ser riscado significa ser excluído, assim como ser inscrito significa ser incluído. São, pois, expressões opostas entre si. Ora, diz o argumento, ninguém pode ser reinscrito no livro. Logo, conclui o argumento, ninguém poderia dele ser riscado.

Como argumento sed contra, ou seja, como evidência de que ser riscado do livro da vida é possível, São Tomás coleciona o Salmo 69 (68), 29: “Sejam riscados do livro da vida, e com os justos não sejam inscritos!

Colocados os termos do debate, São Tomás passará à sua resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.