Vimos, na primeira parte deste debate, como São Tomás propõe, para provocar o debate, e hipótese controvertida de que o sentido próprio da expressão “livro da vida” não é a vida gloriosa dos eleitos junto a Deus. Ele ajunta três argumentos no sentido da hipótese inicial, ou seja, que defendem que o sentido próprio da expressão “livro da vida” não é referir-se à vida dos predestinados na glória de Deus, e um argumento sed contra, e passa agora a dar sua resposta sintetizadora.
Para começar, São Tomás lembra que a própria definição de “livro da vida” envolve a inscrição, no coração de Deus, do conhecimento dos predestinados à vida da glória eterna. E a primeira observação de São Tomás, aqui, é a de que a eleição dos predestinados não diz respeito à vida humana biológica, porque ninguém elege alguém para aquilo que já lhe cabe por natureza. Não faria sentido falar num registro da vida biológica das pessoas, portanto.
A segunda observação de São Tomás é a de que, em qualquer eleição, aquilo para o que se é eleito exerce o papel de causa final. É fácil entender isto se imaginarmos uma eleição política, nos dias de hoje. Ninguém se elege presidente para andar de carro oficial, ou morar no palácio do Governo, mas para governar o país. Do mesmo modo, na eleição para a vida eterna, a causa final, o “para que” da eleição, é a salvação para a vida sobrenatural com Deus, ou seja, a vida eterna na glória. Se este é o “para que” da predestinação, então é isto que deve estar inscrito no metafórico “livro da vida”. Assim, o sentido próprio da expressão “livro da vida”, aquele sentido que precede e regula todos os outros usos analógicos, é o de registro, no coração de Deus, da eleição para a vida eterna, ou seja, da predestinação de alguém para a salvação.
Agora, na resposta aos argumentos objetores iniciais, São Tomás enriquecerá sua resposta sintetizadora, esclarecendo bem qual é o conteúdo daquilo que estaria registrado no livro da vida.
O primeiro argumento objetor era aquele que dizia que, uma vez que Deus conhece a vida gloriosa dos predestinados pelo conhecimento que tem de sua própria vida gloriosa, então o significado próprio da expressão “livro da vida” deveria ser a vida gloriosa de Deus, e não a dos predestinados. O segundo argumento objetor, que será respondido simultaneamente, diz que também a vida natural do ser humano é um dom de Deus, e portanto deveria ser significado próprio da expressão “Livro da Vida”, junto com a vida gloriosa dos predestinados à salvação.
De uma só vez São Tomás vai responder que não tem sentido falar num “livro da vida”, num sentido de um registro especial para aquilo que envolve escolha, eleição, para significar aquilo que é natural nos seres. De fato, tanto a vida divina é natural em Deus, quanto a vida biológica é natural em nós. Assim, não teria sentido dizer que alguém foi eleito para “ser humano”, quer dizer, eleição envolve uma situação especial qualquer. Assim, como Deus não pode ser eleito para a glória, porque a glória é natural nele, e como nós não somos, a rigor, eleitos para a vida biológica, que é natural em nós, somente há sentido em falar propriamente num “livro da vida”, num registro de uma relação de amizade eterna entre um ser humano e Deus, quando significamos principalmente esta eleição de alguém para ser amigo de Deus e compartilhar eternamente a sua glória. Assim, São Tomás responde a primeira e a segunda objeções de uma tacada só.
O terceiro argumento objetor trata daquela situação em que alguém é eleito para a graça e, por um mistério do mal, consistente no abuso do livre arbítrio, acaba escolhendo abandonar a amizade com Deus e viver o deliberadamente o pecado mortal, morrendo em perdição. E o argumento cita o caso de Judas Iscariotes, que, embora eleito para ser apóstolo e caminhar com Jesus, escolhe deliberadamente dar ouvido ao Diabo. Estaria ele inscrito no Livro da Vida? Há uma inscrição para aqueles a quem Deus concede a graça, mas que escolhem deliberadamente repudiá-la e perder a glória? Eles não seriam, também, eleitos para a graça de alguma maneira e, portanto, não teriam vivido, ao menos por algum tempo, na amizade de Deus? Se a expressão “livro da vida” significa a eleição para a amizade divina, diz o argumento, deveria, pois, incluir em seu sentido principal também aqueles que foram eleitos para a raça mas escolheram rejeitar a glória, porque 1. Foram eleitos por Deus. 2. Viveram ao menos um pouco em sua amizade.
São Tomás vai responder que a graça não é um fim em si mesmo, mas é algo que conduz ao fim, é um meio para a vida eterna na amizade de Deus. Assim, a rigor, não se poderia dizer propriamente que alguém foi eleito para a graça, senão na medida que a graça o conduziu à glória. No entanto, não se pode negar que a graça desperdiçada não represente algum grau de encontro com Deus, o que é também um dom de Deus que veio a ser rejeitado por seu destinatário.
Assim, diz São Tomás, aqueles eleitos para a graça não estão inscritos de um modo absoluto, próprio, no “livro da vida”. Poderíamos, no entanto, dizer que eles estão inscritos “de algum modo” (secundum quid), já que não se pode negar, que, uma vez que a graça é um dom, e que a sua concessão por Deus implica uma eleição, podemos dizer que aqueles que a recebem estão, diz São Tomás, inscritos de algum modo, de um modo relativo, precário, no livro da vida, no sentido de que a eleição para a graça implica já alguma amizade com Deus e uma certa ordenação à vida eterna, ainda que potencial e ainda que venha a ser desperdiçada pelo mau uso do livre arbítrio. Esta conclusão é importantíssima, e servirá de fundamento para a resposta ao próximo artigo, no qual veremos que existe a possibilidade de que esta inscrição relativa venha a ser confirmada de modo definitivo, ou mesmo riscada. Mas estamos nos adiantando aqui.
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