No artigo anterior, ficou bem estabelecido o princípio de que a expressão “livro da vida” é apenas metafórica, e diz respeito ao registro, no coração de Deus, da eleição de seus amados. É preciso, pois, prestar mais atenção na realidade significada nesta metáfora do que na própria metáfora. Toda metáfora tem limites sérios, e, neste caso, seus limites decorrem inclusive do fato de que ela trata de uma realidade que está além da possibilidade de conhecimento direto, experimental, ou seja, não há possibilidade, para nós, de chegar a conhecer o que é viver em Deus, salvo se ele próprio nos convidar a vivê-lo. Ainda assim, este será muito mais um conhecimento existencial, efetivo, concreto, uma caminhada, do que propriamente uma ciência. Conhecer a vida gloriosa só é possível vivendo-a. E viver só é possível como um dom. Ninguém pode merecê-la ou conquistá-la.

Por isto, precisamos ficar atentos para que a linguagem não nos aprisione, ou seja, para que não venhamos a confundir os limites do nosso conhecimento om os limites do próprio objeto do qual falamos. É o caso das noções de graça e de glória. Ambas implicam e significam uma certa participação na vida divina, e, portanto, em si mesmas, tratam da mesma coisa. Aquele que recebe a graça e a vive, de certo modo, já está gozando, ainda que limitadamente, daquilo que receberá definitivamente na glória. Há, aí, uma “posse antecipada daquilo que não se vê”, usando as palavras de Hb 11, 1. Estamos, aqui, no campo do coração de Deus, e de uma vida partilhada, ainda que num sentido bem superficial e provisório.

Posto isto, podemos perguntar, agora, se estamos já, de algum modo, no interior do próprio “livro da Vida”, quando falamos desta certa “posse provisória” da amizade de Deus já nesta vida. Vimos, no artigo anterior, que esta expressão, usada pela Bíblia para se referir à memória da salvação em Deus, é uma metáfora muito rica, com, pelo menos, três sentidos; o sentido principal é a memória eterna, em Deus, dos seus eleitos para a vida eterna de amizade com ele. Os sentidos secundários, relacionados com este, são, por um lado, as Escrituras, como registro da revelação do caminho até a vida eterna, e, por outro, a rememoração de toda a nossa vida, naquilo que ela teve de sucesso e de fracasso, de conquista e de derrota, a partir do nosso desnudamento perante Deus. São Tomás chega a dizer que os três sentidos não são excludentes entre si, senão complementares, como seria chamado de “livro militar” tanto aquele que registra o nome dos convocados, como aquele que coleciona as normas e instruções militares, bem como aquele que narra os feitos e conquistas do exército.

Neste segundo artigo, porém, a hipótese controvertida é a de que a expressão “Livro da Vida” não diz respeito somente à vida gloriosa dos predestinados. Note-se que esta hipótese controvertida parece muito em sintonia com a resposta da primeira objeção colocada no artigo anterior. De fato, ali São Tomás já havia dito que, sendo uma expressão metafórica, a expressão “Livro da Vida” pode ter mais de um sentido. Agora, a hipótese controvertida, que normalmente é uma hipótese claramente polêmica e em aparente desconformidade com a razão e a revelação, desta vez parece bastante razoável e mesmo em conformidade com o que foi anteriormente estabelecido sobre o tema. Não parece nada polêmica. Mas, como veremos, o objetivo dela é exatamente o de clarear. Os artigos da Suma não são jogos de carta marcada, nas quais São Tomás adota uma hipótese controvertida claramente falsa e nos faz acreditar nela por argumentos errôneos, mas fortes, que ele recolhe em debates com pessoas inteligentes mas equivocadas, e que ele depois submete à demolição pela sua erudição enorme e sua fé ortodoxa inabalável.

Pelo menos na minha leitura a Suma não é simplória assim; ela não é uma grande obra de apologética, no sentido de uma “exibição constrangedora de força ortodoxa” para convencer os desviados e humilhar os hereges. Para mim, ela soa muito mais como uma tentativa honesta de buscar a verdade lá onde ela está, mesmo no discordante, no polemista, no aparente adversário. Esta parece ser a intenção aqui – debater honestamente para que saiamos todos mais sábios ao final do debate. Extrair da polêmica, dialeticamente, o que há de verdade em cada posição, de modo a tornar mais segura a caminhada até Deus, e afastar os exageros e mesmo os radicalismos tanto dos que seguiram seus próprios erros tentadores, quando dos que se refugiaram numa falsa ortodoxia aparentemente segura, mas apenas oca e estéril, porque resistente ao debate e à partilha – vale dizer, ao crescimento.

Assim, a hipótese controvertida é importantíssima. Se a expressão “Livro da Vida” é metafórica, e portanto muito mais poética do que propriamente técnica, em que sentido podemos identificar nela um sentido próprio, central, que sirva de referência aos demais sentidos, derivados e analógicos? Neste caso, a hipótese controvertida poderia ser lida assim: o sentido próprio, central, da metáfora “Livro da Vida” não é a vida gloriosa em Deus dos eleitos. Lendo assim, entendemos a importância deste artigo, no sentido de determinar o conteúdo principal da metáfora da qual estamos tratando.

O primeiro argumento objetor diz que o sentido principal da expressão “Livro da Vida” não pode ser a vida gloriosa dos eleitos em Deus, porque Deus conhece tudo a partir de si mesmo, e conhece a vida dos outros a partir da sua própria vida. Assim, diz o argumento, a expressão “Livro da Vida” deveria ter como sentido próprio não a vida gloriosa dos eleitos, mas a vida maravilhosa de Deus, em cuja participação a vida gloriosa dos eleitos se realiza.

O segundo argumento objetor lembra que, se a vida sobrenatural da glória, para os eleitos, vem de Deus, é inegável que a vida natural que gozamos sobre a terra também é um dom que recebemos dele. Assim, se a expressão ‘Livro da Vida” tem como sentido principal a vida que recebemos de Deus, diz o argumento, ela tem que incluir também a nossa vida natural, com igual peso. E portanto seu sentido próprio, conclui o argumento, não pode ser apenas a vida gloriosa dos eleitos.

Por fim, o terceiro argumento lembra que existem pessoas que são eleitas para a vida da graça, mas eventualmente renunciam deliberadamente a alcançar a glória, ao morrer em estado de renúncia plena, consciente e deliberada de Deus. E cita, neste sentido, o caso de Judas Escariotes, (emblemático dos que, tendo conhecido Jesus, deliberadamente escolheram traí-lo) de quem Jesus diz, no Evangelho de João (6, 71): “Não vos escolhi, eu, os doze? No entanto, um de vós é um diabo!”. Mas se o “livro da vida” é o registro da eleição divina, diz o argumento, então deve incluir também aqueles que, tendo sido eleitos para a graça, preferiram excluir-se da glória; seu sentido principal, portanto, segundo este argumento, seria o de “livro de eleição para alguma participação na vida”, e não simplesmente o registro dos eleitos para a vida na glória divina, porque há também uma eleição para a graça que não resulta na glória, mas não deixa de ser, lembra o argumento, uma eleição divina.

O argumento sed contra quer restringir o sentido da expressão “livro da vida” para excluir qualquer relação com outra coisa que não seja a eleição dos predestinados para a glória. De fato, partindo do debate feito no artigo anterior, ele assume que o sentido exclusivo desta expressão só diz respeito à vida da graça quando ela se ordena efetivamente para a vida da glória na eternidade; o argumento diz que aqueles que, embora tendo sido eleitos para a graça, não chegaram à glória (por escolha própria) não estavam verdadeiramente predestinados; logo, não se poderia dizer deles que estivessem realmente inscritos no “livro da vida”, já que nunca estiveram predestinados à vida eterna em Deus.

Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.