Em algumas passagens bíblicas, um certo “Livro da Vida” é mencionado. São Tomás resgatará a menção feita no Livro do Eclesiástico, 24, 32 [23], na tradução da Vulgata, mas a ocorrência está relacionada especialmente ao livro do Apocalipse, ou Revelações, no qual tem diversas menções (por exemplo, 3, 5; 20, 12; 21, 27). Há registros ainda em Fil. 4, 3. O que será este Livro da Vida? Será literalmente uma espécie de registro contábil no céu? Será a inscrição de alguém no número dos salvos? Será a Lei dada a Moisés, cujo seguimento leva à vida (Dt 30, 15-20)? Neste caso, não se confundiria com a própria predestinação?

Esta é a hipótese controvertida que São Tomás adota para provocar o debate, agora: parece que o Livro da Vida não é a mesma coisa que a predestinação. Ele coleciona três argumentos que negam ideia de que o “Livro da Vida” é só uma maneira de se referir à predestinação.

O primeiro argumento traz exatamente o versículo do Eclesiástico que já mencionamos. O versículo, na tradução atual, diz que “tudo isto é o Livro da Aliança do Deus Altíssimo, a lei que Moisés promulgou”. A edição da Vulgata, que São Tomás usava, falava expressamente em “Livro da Vida”, e a Glosa (o comentário que era aceito na época de São Tomás) expressamente completava que o versículo estava falando das Escrituras, do Novo e do Velho Testamentos. Logo, o argumento conclui que o Livro da Vida é a Bíblia, e não a memória da predestinação.

O segundo argumento objetor cita Agostinho, quando afirma que o Livro da Vida é “uma certa força divina, que rememorará a cada um as suas boas e más obras”. E o argumento prossegue, dizendo que se o livro da vida é uma força de Deus, então ele se define como um atributo do poder de Deus, não como aspecto da predestinação. Assim, o argumento conclui que o Livro da Vida não é o mesmo que a predestinação.

O terceiro argumento objetor afirma que a reprovação é o oposto da predestinação. Assim, se houvesse um “Livro da Vida” relacionado à predestinação, teria que haver um “livro da morte” relacionado à reprovação. Assim, uma vez que um não existe, o outro também não deve existir.

Como argumento sed contra, São Tomás anota que o Salmo 69 (68), 29, registra, quanto aos maus: “sejam riscados do Livro da Vida”. E que a Glosa acrescenta, interpretando, que o Livro da Vida “é o conhecimento de Deus, pelo qual predestinou à vida os que conheceu de antemão”.

Neste ponto São Tomás passa a nos dar sua resposta sintetizadora. Ele afirma, desde logo, que a expressão “Livro da Vida” é metafórica, um modo de falar sobre a definitividade da eleição divina. De fato, os predestinados são como que inscritos de maneira perpétua no coração de Deus. Assim, fala-se num “Livro” que manteria este registro, por analogia com o caso dos humanos: para nós, os livros guardam de maneira perpétua os nossos registros de memória. Assim, quando alguém nasce, ou se casa, ou mesmo se associa a um clube ou a uma empresa, esta memória é registrada num livro em algum cartório, ou mesmo em alguma paróquia, para servir de memória perpétua para aquele fato. Assim, mesmo que todos os envolvidos venham a falecer, aquele registro em livro guarda a memória daquele fato para sempre. Assim, quando falamos da eleição divina, que não precisa de uma inscrição física num livro para ser lembrada eterna e permanentemente por Deus, falamos metaforicamente que os eleitos estão como que registrados, inscritos nos livros de Deus, permanentemente anotados nos alfarrábios do céu, de onde jamais será retirado. Assim, esta eleição e esta memória eterna de Deus são mencionadas, nas Escrituras, metaforicamente, como “Livro da Vida”. Trata-se de um modo humano de nos referirmos à própria memória de Deus, da qual nada escapa e da qual nada some ou muda. Esta metáfora da permanência indelével da memória, chamada analogicamente de “livro”, também é usada nas escrituras para referir-se ao nosso coração, quando guarda os mandamentos de Deus de modo permanente. O Livro dos Provérbios menciona, neste caso, que devemos guardar os ensinamentos de Deus “na tábua do nosso coração” (3, 1-3) – porque os registros mais preciosos, na antiguidade, tanto os contábeis quanto os cartorários, não eram feitos em papiros ou mesmo em pergaminho, mas em tábuas. Assim, a expressão “Livro da Vida” designa simplesmente o registro eterno dos eleitos no coração de Deus, como está, por exemplo, em 2Tim 2, 19: “O sólido fundamento colocado por Deus permanece, marcado pelo selo desta palavra: ‘o Senhor conhece os que lhe pertencem’.”

Após, portanto, explicar esta linda metáfora bíblica sobre a permanência dos seus amados no coração de Deus, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais. Ele responderá de um só fôlego ao primeiro argumento objetor, que toma uma citação do Livro do Eclesiástico para afirmar que a expressão “Livro da Vida” designa simplesmente a Bíblia, e não a inscrição permanente, no coração de Deus, dos predestinados, e ao segundo argumento objetor, que afirma que a metáfora se aplica ao poder divino de nos fazer rememorar nossas próprias boas e más obras. E os responde admitindo que uma metáfora pode não ser unívoca. De fato, além de significar a própria predestinação, no que ela tem de permanente, inscrevendo os eleitos no coração de Deus, a expressão também pode ser utilizada para referir-se àquilo que nos leva até a vida eterna em Deus; tanto àquilo que guarda a Palavra de Deus para nós, ou seja, pode-se chamar a Bíblia de “Livro da Vida”, como também o registro permanente daquilo que fazemos, no caminho para chegar até ele; pode-se, pois, chamar de “Livro da Vida” a rememoração do nosso próprio caminhar até Deus, a partir da memória que Deus guarda para nós quanto ao que somos e fazemos. Analogicamente, diz São Tomás, podemos chamar de “Livro Militar” tanto aquele livro que guarda o nome de todos os alistados no exército quanto aqueles que guardam as instruções militares ou o relato dos seus feitos em guerra.

A terceira objeção diz que, se admitíssemos um “Livro da Vida”, seríamos forçados a admitir um “Livro da Morte”, incompatível com a misericórdia divina. São Tomás ensina que ninguém conserva registro dos não querem se incorporar no número dos registrados. Assim, por exemplo, o clube tem o registro dos sócios, mas não o dos não-sócios. A amizade com Deus pode ser rejeitada e perdida. E Deus respeita a liberdade dos que o preferem. O fato de que não haja um “livro da morte” deve ser motivo de grande alegria: ninguém está excluído de antemão do banquete dos céus, salvo se, convidado, não quiser vir. Deus escolhe os seus, mas não rejeita ninguém de antemão; somos nós que nos excluímos. Ele o permite.

Por fim, São Tomás responderá ao argumento sed contra, o que é bem raro de acontecer na Suma. Aqui, ele simplesmente faz uma precisão: o Livro da Vida é a própria predestinação, vista por nós sob uma razão diferente. Quando falamos simplesmente de “predestinação”, estamos ressaltando o aspecto da providência divina em nosso caminhar. Quando falamos em “Livro da Vida”, estamos nos referindo à mesma predestinação, sob o enfoque de sua permanência, como memória eterna, no coração de Deus.