Por tudo o que vimos até agora, sabemos que a predestinação é certa em Deus, mas é uma incógnita para o ser humano. No entanto, sabemos, por revelação divina, que a salvação não vai falhar pelo lado de Deus, uma vez que ele não teria se abalado a nos entregar eu filho único para a nossa salvação se ele não quisesse ardentemente que nos salvássemos. Da parte de Deus, pois, está tudo pronto. De nossa parte, porém,  temos que fazer as obras que ele nos preparou para que, pela sua graça maravilhosa, viéssemos a merecer a salvação, certos de que podemos perdê-la se não fizermos a nossa parte, embora, de qualquer jeito Deus já saiba – e tenha predestinado – tudo o que vai acontecer. O que significa isto? Que precisamos temer uma exclusão arbitrária, ou que Deus pode ter predestinado alguém para o inferno? Nada disso. Isto significa apenas que ele já fez a parte dele. E espera que façamos a nossa, para que não venhamos a nos perder por culpa nossa. Fazer o que temos que fazer, e, principalmente, rezar. Mas, se Deus já sabe tudo e já ordenou tudo, rezar para que?

A questão controvertida, aqui, envolve a harmonização entre a oração, por um lado, e a eternidade e unilateralidade da predestinação, por outro. Vale dizer, se Deus decide, por um ato estritamente livre e incondicionado de vontade, e a partir da eternidade, que alguém está predestinado, de que valeria rezar pela salvação, sua ou de outra pessoa? De fato, mesmo a reprovação eterna é antevista por Deus e preparada na sua providência maravilhosa, desde a eternidade. O debate, então, instala-se a partir do confronto entre um fatalismo resignado e indiferentista, por um lado, e a necessidade muito humana de rezar, por outro. Por que rezar, se tudo já está definido? Que diferença faz?

Eis a hipótese controvertida adotada aqui por São Tomás para desencadear o debate: parece que rezar não adianta nada, quanto à predestinação.

São Tomás recolhe três argumentos objetores, que buscam confirmar esta hipótese inicial polêmica. O primeiro argumento vai direto ao ponto: se a oração é um ato humano, histórico, datado e localizado no tempo, como poderia influir com a predestinação, que é eterna? Desta aparente incompatibilidade entre a oração, que é contingente e histórica, e o ato de predestinação que decorre da vontade divina, eterna e imutável, o argumento conclui que não há possibilidade de que as orações exerçam qualquer influência sobre a predestinação. A conclusão fatalista é a de que, neste campo, elas são inúteis.

E segundo argumento também parte da dificuldade em conciliar toda a majestade onipotente de Deus com a aparente insignificância da oração. Se Deus é perfeito, onisciente e onipotente, o que adiantaria rezar pela salvação de alguém? Que sentido teria esta oração? Seria um conselho a Deus, ou mesmo uma tentativa de ajudá-lo ou influenciá-lo neste assunto, a ele que não precisa do conselho nem da ajuda de ninguém (Rm 11, 34)? Assim, o argumento conclui que a predestinação não poderia sofrer nenhuma influência da oração dos fiéis.

O terceiro argumento parte da ideia de que, se algum evento pode ser ajudado de algum modo, isto significa que ele também poderia ser, pelo mesmo modo, impedido. Mas a predestinação, sendo uma deliberação eficaz, eterna e imutável de Deus, não pode ser impedida de modo algum. Logo, conclui o argumento, também não pode ser ajudada. As orações dos fiéis, nesta matéria, seriam inúteis e desnecessárias, portanto.

Na verdade, poder-se-ia mesmo dizer que os argumentos objetores colecionados aqui objetam profundamente contra o próprio poder, em tese, da oração de petição em qualquer situação. A prevalecer esta ideia, rezar para pedir qualquer coisa a Deus seria simplesmente contraditório e desarrazoado, porque a vontade de Deus, sendo eterna e imutável, seria também inexorável. É por isto que, como argumento contrário, São Tomás recolhe uma passagem bíblica (Gn 25, 21), que pode ser usada como revelação autorizada para defender incondicionalmente a oração de petição; o trecho diz o seguinte: “Isaac implorou ao Senhor por sua mulher, porque ela era estéril; o Senhor o ouviu e sua mulher Rebeca ficou grávida.” Portanto, a oração de Isaac foi ouvida por Deus e causou efeitos, e em razão dela nasceu Jacó, que estava predestinado a ser um grande patriarca do Povo de Deus. A oração, portanto, de acordo com a Palavra revelada, teve real influência no curso dos fatos relativos à predestinação, conclui o argumento sed contra.

São Tomás passará a dar sua resposta sintetizadora. E ele começa alertando que sempre houve enormes dificuldades de compreensão, nesta matéria da relação entre a oração, por um lado, e a inexorabilidade da vontade divina, por outro. E estas incompreensões não são privilégio do cristianismo; há incompreensões sobre a natureza e o poder da oração, quanto à salvação, nas mais diversas religiões.

Dentre os cristãos, já na época de São Tomás havia os que acreditavam que a predestinação era dupla e inexorável, ou seja, quem Deus predestinara a ir para o céu infalivelmente se salva, e quem ele predestinara a ir para o inverno também necessariamente se perde, e não haveria nada que se pudesse fazer quanto a isto. Restaria ao ser humano viver sua vida sem se preocupar muito com isto. Mas isto, diz São Tomás, contraria frontalmente as Escrituras, que nos exortam, desde as primeiras páginas, a viver uma vida de oração e boas obras – que seriam inúteis se esta visão da inexorabilidade fosse verdadeira. O que ocorre de fato, como foi debatido no artigo anterior, é que Deus quer nos envolver em nossa própria salvação. O que fazemos tem, portanto, repercussão na salvação.

Mas atenção, diz Tomás. Isto não significa que possamos mudar a própria predestinação pela força das orações. Nisto acreditavam, diz São Tomás, os antigos egípcios, que, em sua religião, faziam orações e sacrifícios para mudar o próprio destino. Acreditavam que, por força de suas orações e de seus sacrifícios, conseguiriam alterar, e até mesmo impedir, que a vontade de Deus se realizasse. Não se trata disso, diz São Tomás. A vontade de Deus sempre se realiza. Mas ela inclui, em sua realização, a nossa colaboração. O que Deus quer, acontece e não pode ser mudado. Mas ele quer que rezemos. “Deus, que te criou sem ti, não quer te salvar sem ti”, diz Santo Agostinho.

Como conciliar, então, a inexorabilidade da vontade de Deus, por um lado, com a necessidade de “orar sem cessar” (1Tes 5, 17)? São Tomás fará uma distinção, aqui, que esclarece bem os fatos.

Há duas formas de encarar a predestinação, diz São Tomás; a maneira absoluta e aquela relativa a nós. Seria, diríamos, uma maneira de olhar “a partir do ponto de vista de Deus”, e outra de olhar a partir do nosso próprio ponto de vista.

Olhando do ponto de vista de Deus, é claro que as nossas orações não podem influenciar, de modo absoluto, a predestinação. Ela é uma decisão tomada por Deus a partir da eternidade, e sem condicionamentos. Assim, ser predestinado por Deus é algo que as orações não podem conseguir.

Mas precisamos lembrar que rezar já é uma atividade para a qual precisamos da graça divina. Mesmo quando rezamos para pedir a graça, nós o fazemos porque Deus nos concede a graça de fazê-lo. Assim, ao ordenar, pela sua providência maravilhosa, a nossa salvação, ele inclui nela as nossas orações, as orações dos outros por nós e as nossas orações pelos outros, e nos concede a graça necessária para que tudo isto ocorra. Estas, ou seja, a nossa oração e nossas obras, são, ensina São Tomás, causas segundas da nossa salvação, cuja ocorrência foi não somente prevista, mas também preordenada por Deus para que pudéssemos realmente colaborar com ele na ordem da salvação. É por isto que devemos nos esforçar para realizar as boas obras e as orações que Deus preparou para que fizéssemos, porque elas serão causas reais, embora secundárias, da nossa salvação, e a graça para que as façamos já estão ordenadas, em sua providência, por Deus. Recusar-se a colaborar com a própria salvação, e com a dos outros, é de certa forma escolher não salvar-se, e perder-se por culpa própria. Assim, diante do fato de que Deus ordenou a salvação de tal modo que não quer dispensar a nossa própria colaboração, e diante do fato de que não sabemos de antemão quem está predestinado ou não, e da realidade de que, se não rezamos ou não fazemos as boas obras que ele nos reservou estamos escolhendo a perdição por culpa nossa, é melhor confiar que Deus já preordenou o nosso caminho e trabalhar pela nossa salvação com temor e tremor (Fil 2, 12). Ou, como dizia aquele ditado atribuído a Santo Inácio de Loyola, “rezai como se tudo dependesse de Deus, trabalhai como se tudo dependesse de nós”. É o velho mote “ora et labora”, dos beneditinos, parafraseado. Em todo caso, orar e trabalhar, na ordem da salvação, também são realidades nas quais Deus nos procede e prepara de antemão sua graça para que façamos. Deus nos concede que sejamos causas verdadeiras da salvação, embora segundas. E São Tomás conclui com uma citação de 2 Pd 1, 10: “procurai com mais diligência consolidar a vossa vocação e eleição”.

Tendo colocado assim sua síntese, São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira objeção diz que, se a predestinação é eterna e a oração, histórica e temporal, uma não poderia influir na outra. São Tomás explica que não é bem assim. De fato, falando de modo absoluto, a oração não poderia influir na predestinação, mas a predestinação pode influir na oração, e colocá-la como concausa secundária da obtenção dos seus efeitos. Ou seja, a predestinação pode incluir a previsão de que nós rezaremos pela nossa própria salvação e pela dos outros, como concausa secundária e real para que esta salvação venha a se concretizar.

A segunda objeção diz que a oração não pode influenciar Deus, porque ele não precisa de ajuda nem de conselho; logo, rezar pela salvação seria, além de inútil, despropositado. São Tomás faz aqui mais uma distinção maravilhosa. De fato, diz ele, Deus não precisa nem de nossa ajuda, nem de nosso conselho. Ele, a rigor, nem precisa de nós. Mas ele nos quer. E na sua generosidade infinita ele nos delega o poder de participar da sua providência, delegando-nos a possibilidade de nos envolvermos com sua obra e sermos reais cooperadores dela. Assim, quando aceitamos nossos encargos, tornamo-nos cooperadores reais da providência de Deus, por pura generosidade sua. Não somos concorrentes de Deus, mas cooperadores naquilo que ele próprio permite, quer e chama. E isto não por falta de poder divino, mas por excesso (se podemos dizer assim) de sua generosidade maravilhosa, que delega às criaturas poder causal real, embora inteiramente dependente dele próprio como causa primeira.

A terceira objeção diz que, se admitimos que Deus pode ser ajudado, então teríamos que admitir que ele pode ser impedido também, no sentido de que, se admitirmos que alguma criatura poderia colaborar com os efeitos predeterminados por Deus, teríamos que admitir que ela também os pudesse impedir – por isto, seria mais seguro dizer que não se pode impedir a providência, mas também não se pode ajudá-la, diz o argumento.

São Tomás diz que Deus não se torna menos Deus por delegar às suas criaturas o poder de ajudá-lo. Ele continua sendo a causa primeira de tudo o que acontece, e as causas segundas somente podem intervir na medida de sua permissão. A sua delegação para a nossa cooperação não o enfraquece de modo algum. Assim, ele nos delega apenas a colaboração, nunca o impedimento. Podemos colaborar com ele, mas jamais impedi-lo de fazer o que ele quer, ou permitir o que ele permite. A delegação é de colaboração, não de estorvo. Deus continua no controle. Que imenso consolo e que plataforma segura para a nossa esperança!

Encerramos aqui os debates sobre a predestinação da questão 23. Na próxima questão estudaremos a belíssima metáfora salvífica do “Livro da Vida”.