No texto anterior, vimos a hipótese controvertida, que deu origem ao debate que agora acompanhamos, de que Deus não haveria estabelecido de antemão um número fixo de predestinados, e que, portanto, este número estaria sujeito a mudanças com o decorrer da história. Deus não estabeleceria de antemão, segundo esta hipótese, quantas pessoas se salvariam.
Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
Deus está no controle, diz São Tomás, com seu poder amorosíssimo. Ele não somente conhece o número certo daqueles que se salvarão, como foi ele quem o fixou. Deus nunca poderia ser surpreendido por suas criaturas; como diz o Papa Francisco, ele sempre nos “primeireia”, ou seja, ele sempre nos antecede em tudo. Principalmente no estabelecimento da amizade conosco. É Deus quem nos cria, nos guia e nos salva, é ele quem tem a primazia, é ele quem cuida de cada um e de todos, é ele quem nos busca primeiro, mesmo quando possa parecer que fomos nós que o encontramos.
São Tomás vai nos explicar que há várias posições sobre o tema. Há quem diga, por exemplo, que Deus fixa o número apenas formalmente, quer dizer, sem especificar quem seriam concretamente as pessoas que o preencheriam. Seria como se Deus fixasse a “lotação” do céu, mas sem fazer uma lista de convidados. Mas admitir isto, diz São Tomás, vai contra a ideia da própria predestinação, e deixa a salvação totalmente na mão dos seres humanos. Se admitimos que a salvação não é alcançável pelos seres humanos como uma recompensa, uma conquista pelo esforço, então ela necessariamente tem que decorrer da predestinação de Deus, que não somente prevê quantos serão, mas também quais serão os convidados ao banquete eterno da salvação.
Admitir, ademais, que Deus apenas estabelece uma espécie de “lotação máxima” no céu nos deixaria no paradoxo de pensar que esta lotação, uma vez que a determinação dos eventuais “salvos” decorreria apenas dos esforços humanos, poderia não ser alcançada nunca – caso as pessoas não alcançassem o “desempenho” necessário para entrar no céu – ou, pior ainda, poderia resultar que as vagas acabassem antes que todos os esforçados bonzinhos fossem admitidos, resultando que, embora tendo conquistado o “direito” à salvação (segundo esta lógica), eles ficariam de fora da salvação por falta de vagas. A ideia é, portanto, absurda: nem o céu se conquista como um direito resultante do mero esforço humano, nem pode acontecer de acabarem as respectivas vagas ali. “Na casa do Pai há muitas moradas”, declara Jesus (Jo 14, 2). Pode acontecer (e acontece sempre) de Deus não encontrar lugar no coração do ser humano. Mas jamais acontecerá aos amados de Deus que não encontrem lugar no coração divino.
É por isto que São Tomás faz questão de relembrar que Deus não apenas sabe quantos se salvarão e quem são, como quem soubesse de antemão quantos pingos de chuva cairão de uma tempestade e quantos grãos de areia há numa praia. Isto é apenas dispor antecipadamente de certa informação, que pode vir a ser calculada, talvez, por um supercomputador, no futuro. Deus determina, por sua vontade maravilhosa, quantos e quem são os predestinados. Porque é ele quem os salva.
E São Tomás vai contar uma pequena história, para nos explicar que há uma diferença entre aquilo que é essencial e aquilo que é acidental para a própria razão de ser do universo, que é a de produzir os filhos de Deus que gozarão de sua companhia para a eternidade. Ele procura, então, analogia com aquilo que se faz quando se quer construir uma casa: o número de cômodos que a casa terá é uma definição essencial, porque é parte da própria razão de ser da casa que ela tenha tantos ou quantos cômodos. Mas não é da própria razão de ser da casa que ela tenha tantos e quantos tijolos nesta ou naquela parede. Assim, embora possa e deva calcular quantos tijolos serão usados, não é o construtor que determina seu número, mas a necessidade dada pela quantidade de cômodos que foi estabelecida previamente por ele. Assim, a rigor, poderíamos dizer que a quantidade de cômodos é “predestinada” pelo construtor, mas a quantidade de tijolos é apenas conhecida por ele, e é estabelecida em razão da sua decisão anterior quanto aos cômodos.
Do mesmo modo, diz São Tomás, a criação foi preordenada por Deus quanto às suas partes essenciais (Lembramos o salmo 146 (146-146), 4, quando fala que Deus “fixa o número de todas as estrelas e chama a cada uma por seu nome”), mas não quanto àquilo que é acidental. O essencial seriam, na visão aristotélica do universo físico que São Tomás tem, todas as coisas incorruptíveis, isto é, as forças e os corpos supralunares (que Aristóteles tinha como incorruptíveis, mas que sabemos hoje que não o são) e os seres espirituais, como o ser humano, que se destinam à eternidade. Com as descobertas da física contemporânea, sabemos que mesmo os corpos celestes são corruptíveis, e por isto podemos pedir licença a São Tomás para tirar daí uma importante conclusão teológica: Deus criou todas as coisas materiais para o bem de seus filhos humanos. Este número, portanto, dos que são salvos, está para o universo como o número dos cômodos está para o material de construção, no exemplo de São Tomás: em função dele todos os outros são determinados. Assim, o número dos bois, dos mosquitos e mesmo dos corpos celestes não são determinados por decisão meramente potestativa de Deus, como o é o número final dos remidos; mas é em função das necessidades destes que aqueles se fixam.
E quanto aos que se perdem? Este número, diz São Tomás, também não foi arbitrado por Deus como um ato de pura vontade, como o dos predestinados. Ele é preordenado por Deus em razão do bem dos seus eleitos, e portanto é também um número derivado. Assim, afirma São Tomás, este número é estabelecido para o bem dos eleitos, o que é uma forma surpreendente de pensar, aos nossos olhos de hoje em dia. Imaginar que o número dos reprovados decorre do bem que sua existência, suas escolhas, seu agir, e o agir de Deus para com eles, resultará para os salvos, é muito estranho, e pode nos fazer pensar em duas coisas: na citação bíblica implícita que São Tomás faz aqui (“tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus, Rom 8, 28). Mesmo todo o mal que decorre da miséria e do pecado humanos, diz Tomás, recebem a permissão divina apenas e tão somente na medida que concorrem para o bem de seus amados. Tão difícil de acreditar, mas tão plena de alegria, esta colocação.
E que número será este? Não adianta tentar especular, diz São Tomás. Uns dizem que equivale ao número de anjos caídos na rebelião de Lúcifer, que seriam repostos pelos seres humanos predestinados à salvação. Outros, que equivale ao número dos anjos que não caíram, outros ainda que serão tantos quanto o número total dos anjos. Hoje acrescentaríamos aí aqueles que especulam com números bíblicos (como os do Apocalipse 7, 4, numa interpretação bem forçada, porque o próprio texto, mais adiante, fala de uma “multidão incalculável” no versículo 9). isto não foi objeto de revelação, diz Tomás. Somente Deus sabe o número dos eleitos. Mas podemos estar certos de duas coisas: 1) Ele está no controle. 2) Ele não muda de ideia. Que maravilhosa fonte de esperança.
Tendo sintetizado maravilhosamente a sua resposta, na qual a salvação dos eleitos torna-se a própria razão de dimensionamento da criação, São Tomás passa, então a responder às objeções iniciais. A primeira objeção cita o Deuteronômio 1, 11, para garantir que o número dos predestinados pode ser aumentado. São Tomás explica que esta é uma interpretação errônea; o texto bíblico, no local citado, fala apenas de uma promessa para que seja aumentado o número dos convertidos (ou, na linguagem da época de São Tomás, dos que são conhecidos previamente por Deus como “justos na vida presente”, mas não necessariamente predestinados à glória eterna). É uma experiência humana de todos os tempos o fato de que o número de convertidos, aqui na vida terrena, de fato varia. Mas isto não nos revela absolutamente nada a respeito do número total dos predestinados, que, nós, humanos, só conheceremos no juízo final.
A segunda objeção diz que o número dos predestinados não poderia ser fixado por um mero ato de vontade de Deus, porque tudo o que ele faz tem uma razão. E daí conclui que ele tem que variar, talvez em função dos esforços humanos, ou do pecado humano, ou de qualquer outra medida que forneça uma razão para a sua grandeza.
São Tomás responderá que é próprio da parte ter proporção com o bem do todo. Assim, uma vez que o bem último do universo é a salvação dos filhos de Deus, esta é a razão pela qual todos os outros números são fixados – inclusive o número das estrelas, o número de espécies e de indivíduos, tudo existe em função e para o bem daqueles que foram preeleitos para o amor de Deus.
Por fim, resta a terceira objeção , que diz que, se o número dos predestinados fosse predeterminado de modo fixo, ele contradiria a noção natural de que o bem se encontra mais difundido do que o mal na natureza, já que a Bíblia diz que são poucos os que se salvam.
São Tomás vai dizer que, de fato, o bem ordinário, proporcionado ao estado comum da natureza, supera a falha, o logro, o defeito e o mal, mas não assim com o bem extraordinário. De fato, são incontáveis as pessoas, diz São Tomás, que têm prudência apenas suficiente para administrar a própria vida e sobreviver, mas pouquíssimos são aqueles que têm a sabedoria profunda sobre aquilo que pode ser conhecido humanamente. Este bem especial, elevado, profundo, é raro, portanto.
Quanto à salvação, ele é um bem inalcançável pelas forças da natureza, mormente após a queda dos nossos primeiros pais, que renunciaram à sua beatitude original, que os tornava, de certo modo, conaturais com a graça. A salvação é puro dom de Deus. Assim, aqui refulge de modo mais excelente a misericórdia infinita do Senhor, que, por cima dos muitos que seguem o seu curso natural, eleva os seus escolhidos à salvação, fazendo, aliás, desta salvação, por puro dom de seu amor e de sua misericórdia, a própria razão e medida da criação.
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