Ninguém se salva sozinho. De fato, a salvação é um dom de Deus, e consiste exatamente na capacidade de alcançá-lo, estabelecer com ele uma amizade e desfrutar de sua companhia pela eternidade. Muito justo, portanto, imaginar que Deus não somente conhece, como fixou desde sempre o número dos que estarão com ele pela eternidade.

Mas não se trata apenas disto. Não se trata de uma espécie de clube em que Deus tenha fixado um número certo de convidados, uma espécie de “capacidade máxima”. O sentido deste artigo, e a sua importância espiritual, não está em saber se o céu tem uma espécie de “lotação máxima”, da qual nunca saberíamos senão no juízo final, quando já fosse muito tarde; ou do qual faríamos propaganda, como certas seitas que alegam saber quantas pessoas se salvarão. Este não é o objetivo aqui. Não se trata de curiosidade malsã para descobrir previamente quantas pessoas estarão no céu.

Trata-se, agora, de descobrir que Deus não é um mero “arquiteto” projetando um ginásio, a partir de fora; seria incompatível com o amor paterno de Deus a impessoalidade de um projetista que pouco se importa com as pessoas concretas que frequentarão a obra que projeta. Interessa-nos saber que Deus se importa por cada um de nós, não simplesmente como um grupo indistinto de pessoas, uma quantidade indistinta de gente a compartilhar acidentalmente a mesma situação. Deus sabe quantos seremos, e o sabe desde a eternidade.

Mais do que isto, foi ele quem fixou este número, desde sempre e de modo invariável. O universo é seu, não apenas como dizemos que a minha casa é do arquiteto fulano, apenas porque ele fez o projeto, sem que ele tenha, no entanto, qualquer domínio atual sobre ela. Deus reina, rege e domina tudo, com seu amor paterno infinito.

E mais, além de ter fixado o número de quantos chegarão à glória eterna da sua amizade, ele sabe exatamente quem serão eles, porque os escolheu individualmente, pessoalmente, definitivamente, desde a eternidade, e cuida pessoalmente de cada um deles. Ou, como diz o Salmo 147 (146-147), 4: “Ele fixa o número de todas as estrelas, e chama cada uma por seu nome”. Notemos que a palavra “nome”, no sentido bíblico, e relacionado com Deus, não significa apenas um rótulo que colocamos nas coisas, mas o próprio domínio da sua essência.

No entanto, para aprofundar esta conclusão, é que São Tomás estabelecerá aqui o debate, admitindo provisoriamente a hipótese adversa, controvertida, de que Deus não teria fixado de modo invariável e permanente o número dos predestinados. Ou seja, a hipótese controvertida é a de que este é um número, flutuante, variável, que não está sob o controle de Deus, mas que flutua ao sabor de conveniências momentâneas. São Tomás recolhe três argumentos objetores, em favor desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento diz que um número que pode flutuar não pode ser considerado como rígido, nem pode ser tido como certo, como fixado de antemão. E cita um versículo do Livro do Deuteronômio, (1, 11): “Que o Senhor, Deus de vossos pais, vos multiplique mil vezes mais”. O argumento complementa com um comentário da chamada Glosa Ordinária, que, sobre esta multiplicação, comenta que ela significa que estes se somam “ao número predeterminado junto de Deus, que conhece quem são os seus”. E disto o argumento conclui que, diante da possibilidade de que outros possam ser ajuntados ao número anteriormente determinado por Deus, então este número não é rígido.

O segundo argumento é teológico. Ele parte da ideia de que tudo o que Deus faz deve ter alguma razão, algum fundamento razoável. Mas não haveria nenhum modo de explicar a razão pela qual Deus teria fixado de antemão um determinado número de predestinados, e não um outro qualquer, sem que isto parecesse simplesmente arbitrário. Logo, segundo o argumento, não haveria razão para que o número dos predestinados à glória fosse fixo e certo.

O terceiro argumento faz um paralelo com as coisas naturais, para afirmar que, na criação, as coisas são, em sua imensa maioria, boas, enquanto o mal, o defeito, a imperfeição são exceções nelas e na própria criação como um todo. A partir daí, resgata a passagem evangélica em que Jesus declara (Mt 7, 13-14): “Entrai pela porta estreia, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado é o caminho que conduz à Vida. E poucos são os que o encontram”. O argumento, então, declara que não seria admissível que o número dos que se salvam fosse menor do que o daqueles que se perdem, como o trecho bíblico parece implicar; por analogia com a criação, deveríamos esperar que mais fossem salvos do que reprovados; e que, portanto, há que ser afastada a ideia de que este número está fixado de antemão por Deus.

O argumento sed contra traz uma citação de Santo Agostinho: “O número dos predestinados é certo, e não pode ser aumentado nem diminuído”. Isto afasta a ideia de que há alguma flutuação, alguma hesitação, algum descontrole nos planos de Deus.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.