Vimos como São Tomás colocou a hipótese controvertida sobre a inexorabilidade da predestinação, sua definitividade na vontade de Deus, no texto anterior, e como ele colocou as objeções e elaborou sua resposta sintetizadora. Agora veremos como São Tomás responderá às objeções iniciais.
A primeira objeção é aquela que cita o Apocalipse (3, 11), sobre a possibilidade de “perder a coroa” da salvação, concluindo que a predestinação pode ser frustrada pelo ser humano.
São Tomás vai nos explicar que a predestinação pode ser olhada sob dois pontos de vista: de modo absoluto, quem está predestinado não perde jamais a sua coroa. Mas, olhando sob a perspectiva humana, lembramos que, no artigo anterior, São Tomás nos mostrou que Deus dá, aos predestinados, a sua graça, para que adquiram, por dom divino, os méritos para a glória, pelo bom uso do seu livre arbítrio na prática das boas ações que Deus preparou desde a eternidade para os seus eleitos. Sob este ponto de vista, diz São Tomás, é perfeitamente possível que alguém receba a graça e eventualmente até pratique boas obras, mas venha a perder-se pelo pecado original, em algum momento. Neste caso, as boas obras que fez não são perdidas, mas aproveitadas por outros, que, muitas vezes valendo-se destas mesmas boas obras, salvar-se-ão, como que no lugar daquele que caiu. É fácil entender isto: pensemos num padre que, durante muitos anos, viveu santamente o seu sacerdócio, batizou, celebrou a eucaristia e os sacramentos junto ao povo fiel. Por suas mãos, muitos se santificaram. Mas imaginemos que este mesmo padre venha a cair em pecado mortal e se perca eternamente. O bem que fez não se perde; muitos salvar-se-ão por terem recebido os efeitos deste mesmo bem. São Tomás diz que é como se outros recebessem esta coroa perdida, e se salvassem no lugar daquele que se perdeu. É por isto, diz ele, que o pecado dos anjos abriu o espaço para que nós, humanos, nos salvassem em seu lugar, e o pecado de tantos do povo escolhido deu lugar, na ressurreição de jesus, a que os gentios fossem incorporados no número dos que se salvam. No entanto, prossigo, é claro ver, aqui, que aquele que se perdeu já não estava, desde o princípio, predestinado para a glória, embora estivesse predestinado para a graça. O que houve, portanto, não foi uma frustração dos planos de Deus, mas a perfeita integração da falha humana no bem maior de toda a criação. Porque, no amor de Deus, ele não desperdiça nenhum bem; mesmo aquele bem praticado por alguém que escolheu se perder vai ser aproveitado por Deus em favor de alguém que se salva. Ou, como diz São Tomás, os eleitos gozarão não somente do bem que fizeram, mas de todo o bem.
O segundo argumento objetor diz que sempre é possível que alguém peque e perca a salvação; por isto, a predestinação sempre pode ser frustrada, e não é inexorável. São Tomás dirá que, embora, de fato, em cada caso concreto, o ser humano possa pecar mortalmente e morrer nesta situação, já que a predestinação não torna os humanos “menos humanos”, e ser humano é ser susceptível de pecado, no entanto, olhando de modo absoluto, a partir do ponto de vista de Deus (se podemos dizer assim), é impossível que um predestinado peque mortalmente e morra em perdição, uma vez que está predestinado. A predestinação não exclui a possibilidade do pecado original, em tese, mas, na prática, uma vez que a predestinação é infalível, ela já leva em conta que aqueles verdadeiramente predestinados não o cometerão de modo a perder a salvação.
O terceiro argumento objetor diz que, se a predestinação fosse definitiva e imutável, isto significaria que nem Deus poderia mais modificá-la, o que seria contraditório com a onipotência divina – se Deus antes podia, então agora ele continua podendo e depois ainda poderá, diz o argumento. Portanto, o argumento conclui que a predestinação não é certa e imutável.
A resposta de São Tomás aqui é quase ininteligível para nós, hoje. É preciso compreendê-la, então, com calma.
Como vimos ao estudar a vontade de Deus, ela, em si mesma, é sempre absoluta, mas pode ter por objeto algo contingente como uma criatura humana. Neste caso, a vontade de Deus não deixa de ser, em si mesmo, absoluta, mas a criatura que é querida por ele não deixa de ser contingente, já que poderia ter sido escolhida para existir ou não. Uma vez escolhida, da parte de Deus, este é um ato de vontade pleno, perfeito, acabado e imutável – querer a criatura e sua contingência.
No que diz respeito à predestinação, isto significa que Deus poderia predestinar ou não qualquer um de nós; a vontade de predestinar não decorre de uma necessidade, de uma inexorável determinação, como podemos dizer quando pensamos que Deus quer a si próprio. Ele não escolhe querer-se; aquilo que ele é se impõe com necessidade, se podemos dizer assim, à sua própria vontade. Mas a nossa salvação não se impõe assim. Ele pode escolher predestinar-nos ou não. Mas, quando ele escolhe nos predestinar, este ato de vontade, como todos os atos de vontade divina, é eterno, perfeito, acabado e imutável. E não está sujeito a revisão posterior, já que Deus não está sujeito a sequência do tempo, para que se pudesse falar, com relação a ele, em algo “anterior” ou “posterior” a outro algo. Quando Deus predestina, ele o faz de uma vez por todas, irrevogavelmente. Deus não é gagá.
Deus é fiel. E faz a parte dele. De modo definitivo e irrevogável. E nos convida a fazer a nossa parte, garantindo-nos que seus auxílios jamais haverão de nos faltar. É por isto que é tão importante saber, e anunciar, que a predestinação de Deus, quanto à nossa salvação, é certa. Vivamos alegres com esta esperança tão firme.
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