Em alguns momentos, o enfoque dado por São Tomás a alguns debates parece incompreensível para as nossas mentes hoje, tão distantes estamos da mentalidade na qual a Suma foi gerada. De fato, o que levaria as pessoas de então achar necessário discutir se a predestinação é certa ou não? De fato, parece indiscutível que, não estando submetido ao tempo, vivendo na simultaneidade da sua eternidade perfeita, e uma vez, também, que não está submetido nem à sucessão de pensamentos, como as criaturas (na mente de Deus, tudo está presente o tempo todo), nem a algum tipo de julgamento defeituoso ou incompleto (Deus não padece de ignorância, nem da possibilidade de equivocar-se quanto a alguém e a alguma coisa), parecer-nos-ia evidente que, uma vez predestinando alguém para a salvação, ou preparando-lhe a reprovação, estes atos de vontade divina fossem definitivos e imutáveis, como diz o salmo 19 (18): “o temor do Senhor é puro/ estável para sempre/ as decisões do Senhor são verdadeiras,/ e justas igualmente”.

Por outro lado, uma vez que a predestinação individual está além da possibilidade humana de conhecimento nesta vida, especular se ela poderia mudar parece de pouco efeito prático. No entanto, existe uma dimensão que não pode passar desapercebida, nem a nós, nem aos contemporâneos de São Tomás: a percepção de que algumas pessoas que viveram conosco em santidade podem morrer numa situação lastimável, imersas no pecado e desprezando a Deus. Como pode acontecer que alguém viva em graça e morra em pecado? Do ponto de vista humano, a impressão que temos é que ele havia sido muito amado por Deus, ou seja, predestinado ao amor de Deus, mas depois foi reprovado. Será que Deus mudou de ideia com relação a ela? Será que ele de fato a havia predestinado, mas depois permitiu sua queda?

Neste caso, ter-se-ia que admitir que a predestinação não é imutável. E é esta, exatamente, a hipótese controvertida que São Tomás adota, aqui, para iniciar o debate: parece que predestinação não é definitiva. São três os argumentos objetores que São Tomás vai colecionar em favor desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento cita o Livro do Apocalipse (3, 11): “segura com firmeza o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”. E cita Santo Agostinho, que, comentando este versículo, diz: “outro não a receberá, se este não a perder”. O argumento considera que a “coroa”, aqui, alude à vitória final para a glória, que é a predestinação dos salvos. E conclui, dizendo que a Palavra revelada asseguraria, neste trecho, que a predestinação pode ser adquirida ou perdida. Logo, ela não seria certa, no sentido de definitiva e invariável.

O segundo argumento parte da impossibilidade lógica de que alguma coisa possível seja declarada como impossível. E completa: é sempre possível que alguém venha a pecar mortalmente em qualquer fase da vida, perdendo a salvação. Ora, diz o argumento, isto é possível aos humanos de forma geral, sejam eles predestinados ou não. Portanto, o argumento conclui que o efeito da predestinação pode ser frustrada por ação deliberada do predestinado, pecando. Logo, a predestinação não é certa, no sentido de definitiva e imutável.

O terceiro argumento também busca provar sua hipótese demonstrando uma contradição lógica entre a onipotência divina e uma ideia de imutabilidade na predestinação. O argumento diz assim: se Deus predestinou, foi porque ele tinha o poder de predestinar. Mas, se tinha o poder de predestinar, ainda o tem, porque, sendo onipotente, jamais perde um poder pelo seu uso. Mas se a predestinação fosse imutável, ele já não teria o poder de não predestinar aquele que ele já havia predestinado antes. Uma vez, no entanto, que ele é onipotente, ele pode, ainda hoje, mudar a predestinação, e reprovar quem antes era predestinado. Logo, conclui o argumento, a predestinação não é algo certo, fixo, imutável.

Como argumento sed contra, São Tomás recolhe um versículo bíblico (Rom 8, 29): “Porque os que de antemão conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho”. E o argumento lembra de uma glosa a este versículo, que diz: “Na predestinação Deus conhece previamente, e previamente prepara os seus benefícios, para que de modo certíssimo se salvem aqueles que hão de se salvar”. Logo, o argumento sed contra conclui que a predestinação não é instável, condicional ou variável, mas produz seus efeitos certissimamente.

Colocados os termos do debate, São Tomás passará a dar sua resposta sintetizadora.

Ele começa logo afirmando que quem foi predestinado, predestinado está. A predestinação não muda. É certíssima, infalível, imutável. Quando predestina alguém para a salvação, este alguém salvar-se-á mesmo. E a liberdade humana?

Não há liberdade em perder-se, eu diria. Quem se perde, perde-se exatamente por não ter conseguido ser livre. Agarrou-se ao pecado, ao malogro, à falha. Ser livre é ser pleno, completo, feliz, perfeito, e isto somente é possível quando se alcança a salvação. A perfeição do ser humano é Deus. Perder-se é deixar de chegar à perfeição.

Mas Deus não quer servos nem robôs. Ele criou humanos, para serem seus amigos, e não se chega à amizade de modo forçado. Então como é que a predestinação pode causar infalivelmente o efeito da salvação de alguém? Será que, uma vez que alguém fosse predestinado, ele deixaria de ser livre e necessariamente seria salvo? Ou será que teria o poder de, pecando, frustrar os planos de Deus a seu respeito e perder-se? A liberdade humana estaria em oposição à graça, de modo que, quando a graça atuasse para a salvação, a liberdade ficasse frustrada e, quando a liberdade atuasse, a graça ficasse inutilizada?

São Tomás ensina duas coisas:

1. Ninguém pode frustrar uma decisão de Deus. Uma vez que Deus, em sua providência infinita (que estudamos na questão anterior) decreta que alguém está predestinado à salvação, esta salvação acontecerá necessariamente.

2. No entanto, aquilo que Deus providencia, embora vá acontecer necessariamente, pode acontecer por meio de causas contingentes. Deus é forte e poderoso o suficiente para incluir todas as contingências em seus planos e, mesmo assim, realizá-los infalivelmente. É por isto, por exemplo, que, embora tendo predestinado Maria, desde toda a eternidade, enviou a ela o anjo para que ela pudesse dizer um sim aos planos de Deus. O sim de Maria é livre, real e causal, contingente e histórico, e realmente marca uma escolha deliberada de Maria pelo serviço que Deus tinha preparado para ela. Mas era inevitável que Maria fosse a mãe de Deus, porque Deus a tinha predestinado para isto. No entanto, foi livremente que ela acolheu o anúncio do anjo e disse o seu sim. Deus. Com seu poder infinito e sua providência bondosa e infalível, inclui a contingência da liberdade de Maria na necessidade de sua predestinação, e faz com que sua vontade onipotente preveja e inclua a liberdade do “sim” de Maria na necessidade do resultado da sua predestinação. A liberdade humana não está em oposição à graça, mas esta a precede, guia e aperfeiçoa. Não há concorrência, pois, entre a onipotência divina e a contingência da liberdade humana, porque aquela inclui esta e a considera na condução da história até o fim previsto e desejado por Deus. A liberdade humana é sempre histórica, condicionada, encarnada, concreta, contingente e limitada, mas real. O poder divino, por outro lado, é universal, incondicionado, eterno, simultâneo e perfeito.

Posta esta maravilhosa lição sobre a maneira de Deus conduzir a história para onde ele quer, estamos bem cientes de que, uma vez que quer, por vontade antecedente, a salvação de todos, e uma vez que não muda de ideia no seu amor infinito, e uma vez que a salvação ou reprovação de cada um é um mistério sempre impenetrável para nós até o juízo final, podemos estar seguros de que, da parte de Deus, não seremos surpreendidos ou abandonados jamais, em nosso caminho até ele. Se não chegarmos a ele um dia é porque, de alguma maneira, nós deliberadamente escolhemos não fazê-lo. Ou, como disse o Papa Francisco, Deus nunca se cansa de nós, de nos perdoar, de nos amar; Nós é que eventualmente nos cansamos de pedir perdão.