Tendo visto a hipótese controvertida inicial, que defende que Deus predestina alguém para a salvação por prever seus méritos, e tendo visto o debate que se formou, com os argumentos controvertidos iniciais e a resposta sintetizadoras de São Tomás, já compreendemos em que grau o mérito está envolvido com a salvação. Está envolvido como parte integrante dela, de uma maneira harmoniosa que leva em conta a maravilhosa interação entre a liberdade humana e a graça divina.

De certa forma, como vimos, Deus tem, de fato, presciência dos nossos méritos, mas não como algo externo ou antecedente à predestinação, senão como efeito dela. Uma vez que a liberdade suprema, para o ser humano, é a amizade eterna com Deus, não há, nem pode haver, oposição entre o livre arbítrio e a graça, justo o contrário. Sem o livre arbítrio humano, Deus não teria amigos, mas servos. Sem a graça, jamais chegaríamos a ele.

A primeira objeção citava duas passagens bíblicas e um trecho da glosa ambrosiana para afirmar que Deus predestina porque prevê de antemão o mérito daquele para o qual prepara a salvação.

São Tomás responderá que não é porque prevê que o uso da sua graça será feita de forma meritória por alguém que Deus o predestina. O bom uso da graça não é a causa eficiente da predestinação, ou seja, não é aquilo que provoca a predestinação. A predestinação é que existe para que alguém possa usar a graça de forma meritória, vale dizer, ao bom uso da graça é causa final da predestinação, é seu objetivo, não seu pressuposto.

O segundo argumento objetor parte da ideia de que a vontade divina não pode ser irrazoável, e que portanto deve encontrar algum fundamento. E afirma que o fundamento para a razoabilidade da predestinação só pode ser a presciência, por Deus, dos méritos do predestinado. São Tomás responderá que o fundamento último da predestinação é a vontade divina, que é libérrima e incondicionada, como já foi dito na resposta sintetizadora. Deus não precisa prestar contas de suas escolhas. Tanto a graça como a glória são puros dons da eleição divina. No entanto, São Tomás lembra que Deus pode predeterminar, em cada caso, conceder as graças para que o eleito adquira os méritos para a glória.

Por fim, o argumento objetor que gerou a resposta mais longa neste artigo. O argumento diz que Deus é infinita e perfeita justiça. Logo, se ele desse coisas desiguais a seres iguais, ele seria injusto. Logo, se ele prepara para uns a salvação e para outros a reprovação eterna, é porque pode enxergar de antemão os merecimentos de cada um e encaminhá-los de acordo com o que for mais justo em cada caso.

São Tomás diz que o fundamento mais profundo, em Deus, é a sua bondade. E é aí que devemos buscar a compreensão possível para este assunto. De fato, é preciso lembrar, em primeiro lugar, que não sabemos quem são os reprovados. Um fato curioso, que deve ser lembrado sempre, é que a Igreja sempre compreendeu que pode declarar que alguém é santo, ou seja, que está na glória de Deus, mas jamais podemos saber quem são os reprovados, quem são os que padecem o inferno pela eternidade. Até o último momento, e por caminhos que só ele conhece, Deus pode conceder a graça da conversão final a alguém, e encaminhar para a glória mesmo aqueles que, a olhos humanos, só mereceriam a reprovação. Não é possível, pois, julgar a justiça de Deus a partir das informações que dispomos aqui – porque simplesmente não dispomos de informações específicas neste assunto.

Assim, diz Tomás, olhemos a bondade de Deus; é ela quem impulsiona Deus a criar. É pra manifestar sua bondade que ele cria, e, uma vez que sua bondade é, em si mesma, completa, perfeita e simples, nenhuma criatura pode manifestá-la integralmente. É assim que cada criatura manifesta um aspecto da bondade simples e total de Deus.

Assim, no todo da criação, cada criatura tem suas perfeições, mas também suas imperfeições, insuficiências, inconsistências e mesmo defeitos, e, em razão desta polifonia universal, Deus permite o mal, para que o bem possa acontecer e multiplicar-se. Esta polifonia do bem, portanto, é capaz de nos fazer compreender que há coisas melhores que outras, e que também há pessoas melhores que outras, há escolhas melhores que outras e, por consequência, a permissão que Deus dá para o mal (e especificamente a permissão para o mal moral, que é pressuposta para que se admita a efetividade do livre arbítrio) tem como consequência a possibilidade de que determinadas criaturas humanas possa usar mal da própria liberdade e, com isto, falhar, caindo sob a reprovação da perfeita justiça divina. A diversidade da participação das criaturas no bem, junto com a consistência do livre arbítrio, têm como consequência inexorável a possibilidade de reprovação.

Com isto, ou seja, como consequência da participação variada no bem e da necessidade de que todas as facetas de Deus se tornem manifestas na e pela criação é que tanto a misericórdia divina torna-se manifesta naqueles a quem Deus predestina à salvação, quanto a sua justiça infinita (justiça que, devemos lembrar, não exclui, senão manifesta, o fato de que Deus é essencialmente amor) naqueles para os quais ele prepara a justa e misericordiosa punição pelos abusos. Mas não podemos imaginar que Deus não manifesta a sua misericórdia quando pune, nem manifesta a sua justiça quando salva. Não foi por outro motivo que Deus quis nos conceder a graça para que pudéssemos eventualmente merecer a glória, e não é por outro motivo que Deus não faz acepção de pessoas quando julga. Somente ele pode entrar no mais profundo dos corações, somente ele sabe quem se salva e quem se perde, somente ele distribui a sua graça e a sua glória a quem ele quer.

Para mostrar que Deus quer manifestar a pluralidade da sua bondade, criando-nos diferentes, para que melhor se manifestem em nós, em nossas diferenças, todas as facetas da sua bondade simples, infinita e inesgotável, São Tomás resgata a passagem de Romanos 9, 22-23: “Ora, se Deus, querendo manifestar sua ira e tornar conhecido seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, prontos para a perdição, [foi] a fim de que fosse conhecida a riqueza de sua misericórdia com os vasos de misericórdia, preparados para a glória.” É preciso, pois, lembrar que não sabemos de antemão se somos vasos de perdição ou vasos preparados para a glória; em todo caso, a misericórdia é sempre de Deus. A nós, resta-nos a humildade de presumirmos que estaríamos irremediavelmente perdidos, se ele não fosse infinitamente misericordioso.

São Tomás vai resgatar outra citação paulina sobre a diversidade de vasos que há numa casa, em analogia à diversidade de criaturas que há no mundo. É 2Tim 2, 20: “numa grande casa não há somente vasos de ouro e prata; há também de madeira e de barro; alguns para uso nobre, outros para uso vulgar”. É desta diversidade original, desta irredutível pluralidade na diferença, que Deus elegerá, em razão de sua bondade infinita e sem prestar contas a ninguém, aqueles que ele decidiu salvar, e preparou para isto; é também desta diversidade que sairão os que escolherão a reprovação para si mesmo, e cuja queda Deus permitirá. Nem sempre serão salvos os vasos de ouro e prata. Aliás, temos que agradecer a ele que ele tenha, se me permitem uma liberdade ousadíssima para com as palavras de São Tomás, uma certa preferência por nós, peniquinhos, e não tenha nojo de nos purificar e resgatar. A enorme maioria dos santos é constituída por pessoas que passaram desapercebidas, humanamente falando, e que foram, talvez, insignificantes aos olhos dos seus contemporâneos. É o que nos lembra o Papa Francisco, citando Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein): “ «Na noite mais escura, surgem os maiores profetas e os santos. Todavia a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o está oculto for revelado».(Gaudete et Exsultate, § 8º)

Portanto, São Tomás termina lembrando que, se não podemos confiar em nossas próprias qualidades intrínsecas, devemos colocar nossa esperança no fato de que é a vontade de Deus, boníssima e perfeitíssima, a única causa da predestinação para a graça e para a glória. Isto deve ser fonte de alegria, não de angústia: não há como um ser humano possa discernir, de antemão, quem são os predestinados ou quem se perderá. Não há como considerar-se perdido, reprovado por Deus, de antemão, porque nenhum vaso, por mais vil aos olhos humanos, está além da misericórdia. É um pecado, portanto, ficar tentando descobrir quem são os predestinados e quem são os condenados, principalmente enquanto caminham aqui na terra (excetuados, é claro, os santos canonizados, de cuja glória podemos ter certeza). Como é um imenso pecado presumir-se salvo, e pior ainda, presumir-se condenado, quer dizer, endurecer-se no orgulho de imaginar-se um pecador tão grande, cujo pecado seria maior do que a capacidade divina de perdão. Ninguém é tão vil, tão desprezível, tão mau que esteja além da possibilidade de receber a misericórdia divina.

É por isto que São Tomás resgata, aqui, uma citação agostiniana: “se não queres errar, não te metas a debater se Deus teria chamado ou reprovado este ou aquele, e por quais razões”.

O amor aceita a diferença, e constrói sobre ela, lembra São Tomás. Este pedaço de matéria será uma linda estrela, aquele outro será um monte de esterco, aquele acolá será uma pedra comum, e ainda outro será um belíssimo diamante. Do mesmo jeito que depende da vontade do pedreiro que este tijolo esteja na parede da frente da casa e aquele outro esteja nos fundos do banheiro, depende apenas da vontade de Deus que ocupemos esta ou aquela posição. Isto não envolve injustiça, mas pluralidade. Aceitar a diferença, e empenhar-se em que ela não seja causa de infelicidade para ninguém, espalhando o amor no mundo, esta parece ser a maior missão do cristão.

Quanto à eleição gratuita para a glória eterna, São Tomás lembra que ela não é um pagamento de um débito, por Deus, às criaturas, porque ninguém a merece. Lembrando que a glória é o estado de amizade eterna e final com Deus, ninguém pode obter por ameaças ou por paga o amor de Deus. Ele não é um débito. É um dom. Encerrando o debate com a parábola dos trabalhadores da última hora, como descrita no capítulo 20 do Evangelho de Mateus, São Tomás transcreve os versículos 14 e 15, que revelam a lógica maravilhosa da superabundância de gratuidade na salvação. Deus diz aos trabalhadores de primeira hora, que ficam com ciúmes dos que no último momento foram salvos também: “Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a este último o mesmo que a ti. Não tenho direito de fazer o que quero com o que é meu? Ou estás com ciúme porque sou bom?” É nas mãos de um patrão assim que nós, vasos de ira e trabalhadores da última hora, queremos estar pela eternidade.