Vimos, no texto anterior, os argumentos colecionados por São Tomás em favor daquela hipótese inicial de que Deus nos predestina à salvação por prever de algum modo os nossos méritos, ou seja, se a predestinação é, no fundo, um prêmio ordenado em previsão ao mérito dos bons.

São Tomás já inicia registrando que a predestinação inclui a vontade divina; assim, a causa da predestinação é a vontade de Deus, e a vontade de Deus não tem outra causa senão ela mesma. Deus não precisa dar explicações, nem pedir permissões, nem presta contas ou depende de autorizações para exercer sua vontade boníssima e perfeitíssima. Envolvendo, pois, uma ato de vontade divina, a predestinação não tem outra causa senão o querer de Deus.

No entanto, como São Tomás nos lembra agora, a vontade divina não tem causas… mas pode ter razões, quando Deus quer que uma coisa tenha outra como causa. Qual a razão, por exemplo, da Imaculada Concepção de Maria, senão a preparação para a encarnação, no seu seio virginal, de Nosso Senhor Jesus Cristo? São Tomás diria que a causa da eleição de Maria, na sua Imaculada Conceição, como mãe de Deus foi a vontade divina, mas a razão foi a previsão dos infinitos méritos de Nosso Senhor, que encarnaria em seu ventre. Assim, é legítimo perquirir se, na eleição da sua vontade, inclui-se o desejo de que uma coisa seja causa de outra.

Então, diz Tomás, seria absurdo sequer imaginar que a bondade de alguém fosse a causa da vontade de Deus quanto à sua predestinação. Porque, neste caso, o que se afirmaria é que a causa da própria salvação não é, em última instância, a vontade de Deus, mas a bondade originária que Deus encontraria em quem está sendo predestinado. A predestinação estaria, por assim dizer, ao alcance natural dos bons. Deus estaria, de certo modo, obrigado a preparar os meios de salvação para quem fosse bom por si mesmo; com isto, a redenção não seria conquistada pela encarnação, morte e ressurreição de Jesus, mas pelo fato de que Deus consegue descobrir antecipadamente que alguém é bonzinho e merece salvar-se, e com isto ele fica obrigado a salvar esta pessoa. É claro, diz São Tomás, que as coisas não podem ser assim. A vontade de Deus, a sua escolha, não pode simplesmente ser substituída pelos esforços naturais da criatura. São Tomás chega a dizer que nunca houve alguém tão “insano de mente” para propor algo assim. Bom, talvez não no tempo de São Tomás. Hoje, esta parece ser exatamente a proposta de alguns praticantes da chamada “New Age” – que transformam Deus (e a salvação) numa força impessoal que é descoberta a partir de exercícios, de esforços pessoais do ser humano.

Mas há uma outra discussão, que é mais razoável; trata-se de saber se Deus, de algum modo, determinou que a predestinação tivesse como razão os méritos, vale dizer, se ele quis que os efeitos da predestinação de algum modo dependessem dos méritos que ele concede que a própria criatura tenha. Vale dizer, Deus poderia prever méritos das criaturas e, em seguida, anexar a predestinação, como resposta infinitamente desproporcional a estes mesmos méritos, mas de certa forma consequentes a eles?

E São Tomás passa a revisar algumas posições de teólogos que trataram desta questão.

A primeira posição é a dos chamados “reencarnacionistas”, ou mesmo dos que acreditam, como Orígenes, que as almas preexistem ao corpo, sem necessariamente serem reencarnacionistas. São Tomás lembra que estes defendem que as almas humanas preexistiriam à existência atual, encarnada, e poderiam adquirir méritos no seu estado anterior a esta vida. São Tomás descarta esta posição, com uma citação da carta aos Romanos (9, 11-13), em que, tratando de Esaú e Jacó, e da eleição do último em prejuízo do primeiro, São Paulo diz que foram escolhidos “quando ainda não tinham nascido, e nada tinham feito de bem ou de mal”. Assim, São Tomás encontra uma sólida posição bíblica para afastar completamente a ideia de que alguém possa adquirir méritos antes mesmo do nascimento. O que torna, diríamos, insubsistente a ideia de uma preexistência “espiritual” do ser humano ao próprio nascimento, seja na forma de uma “encarnação” anterior, seja na forma de uma preexistência da alma. A substância humana, ou seja, cada um de nós, surge com a concepção, em que forma (alma) e matéria dão origem a um novo ser. Não há, portanto, nem podem haver, méritos anteriores à concepção humana.

A outra posição que São Tomás coleciona é a posição dos pelagianos. Para estes, Deus predestina à salvação aqueles que ele prevê que farão, naturalmente, um primeiro movimento em direção a Deus. Os pelagianos diziam, segundo São Tomás, que o começo das boas obras está em nós, mas sua consumação depende de Deus. Assim, uma vez que Jesus nos deu o bom exemplo a seguir, no sentido da busca de Deus, Deus predestina aqueles que ele vê antecipadamente que farão um primeiro movimento de buscá-lo. Aqueles que, segundo a previsão divina, não farão naturalmente esta “busca natural de Deus” não serão predestinados à salvação. Mas São Tomás não pode aceitar esta posição, e traz logo uma citação bíblica paulina para afastá-la. Trata-se de 2 Cor 3, 5: “não que sejamos dotados de alguma capacidade que pudéssemos atribuir a nós mesmos, mas é de Deus que vem a nossa capacidade”. Não é possível imaginar que Deus, nosso criador, pudesse ser surpreendido por nós, quando realizássemos algum ato bom que ele pudesse apenas prever, mas não originar. Isto significaria admitir que nós pudéssemos chegar no bem primeiro do Que Deus, ou que pudéssemos nos inclinar a Deus antes que ele se inclinasse a nós. Necessariamente, admitir alguma coisa assim seria admitir que pudéssemos andar adiante de Deus, em matéria de salvação. Para usar um neologismo criado pelo Papa Francisco, Deus sempre nos “primeireia” (ver Evangelii Gaudium, 24) , ou seja, ele sempre chega primeiro para nós do que nós mesmos; não é possível tomar a frente de Deus e começar a amá-lo em primeiro lugar, antes dele nos amar. Isto se confirma, lembra o Papa, pelo registro de 1 João 4, 10: “nisto consiste o amor, não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou, e enviou-nos seu filho”. Não há como imaginar que Deus possa ser precedido por nós no caminho do amor.

Há uma outra posição, um pouco mais sutil, que São Tomás coleciona e comenta. Trata-se daquela posição que, percebendo que não há consistência na posição pelagiana, faz nela uma pequena alteração para torná-la menos inconsistente. Trata-se daquela posição que defende que os méritos subsequentes aos efeitos da predestinação é que seriam a razão da predestinação. Assim, Deus preveria de antemão quem haveria de usar bem a sua graça, se a recebesse, e quem a haveria de usar mal; exclui, pois, do acesso à glória aqueles que haveriam de usar mal a graça e a concede somente àqueles que prevê que a usarão bem. Eles dizem que Deus agiria de modo análogo àquele general que dá um cavalo àquele soldado que prevê que o usará bem, ou guarda a melhor arma para aquele que prevê que atirará bem. Esta posição resguarda o fato de que toda obra boa e meritória tem que decorrer da graça, mas, diz São Tomás, desconsidera o sutil equilíbrio entre a graça e o livre arbítrio e entra numa contradição.

De fato, a boa obra que procede da graça procede igualmente do livre arbítrio. No entanto, esta posição parece admitir que, no caso da predestinação, a boa obra procede inteiramente da graça, e nunca do livre arbítrio, já que, ao escolher sempre aquele que, ao receber a graça, usará o seu livre arbítrio para colaborar o bem, no fundo o que se está dizendo é que a previsão do bom uso do livre arbítrio para colaborar com a graça é que geraria o mérito para a predestinação, já que a previsão de que alguém desperdiçaria a graça que viesse a receber seria a razão de não predestiná-lo para a glória. Caímos de novo na posição pelagiana.

Mas há uma outra contradição, aponta São Tomás. Os efeitos da graça são inseparáveis daqueles do livre arbítrio, e estes efeitos já estão contidos na própria predestinação, já que ela envolve a ordenação da concessão da graça e da glória aos eleitos. Como se poderia admitir que o bom uso da graça, que é um efeito da predestinação, pudesse ser a sua causa? O bom uso da graça, que encaminha para a glória, é efeito, e não causa, da predestinação. Resta, então, admitir que a predestinação, como um todo, não tem outra origem senão a vontade de Deus.

Mas ainda fica uma questão: isto exclui completamente o mérito humano da eleição para a salvação? Há uma distinção sutil a ser feita aqui mais uma vez, segundo São Tomás, que, dizemos nós, terá toda repercussão na área da ética cristã. De fato, se o mérito não tem nenhuma influência como causa da vontade de Deus (São Tomás já disse, aqui mesmo, que seria necessário ter uma “mente insana” para defender isto), então não há nenhuma relação entre o mérito humano e a salvação? Uma vez que fôssemos eleitos, iríamos necessariamente para a glória, independentemente das nossas escolhas pessoais?

Não é assim, diz São Tomás. Não se pode imaginar que a graça e o livre arbítrio sejam duas causas independentes entre si, de tal modo que aquilo que fosse atribuído à graça não pudesse ser atribuído ao livre arbítrio, e vice-versa. Quando predestina alguém á graça e a glória, a relação entre a graça e o livre arbítrio já está devidamente incluída na razão da predestinação. Os mesmos atos humanos são frutos da graça e da liberdade, como são frutos da primeira e das segundas causas, sem que se possa separar uma das outras. Portanto, não há salvação sem que a liberdade humana esteja integralmente implicada. Como pode se dar isto?

Quando predestina, Deus não faz acepção de pessoas. É livre e incondicionalmente que ele elege aqueles que se encaminharão para a glória. Mas Deus pode perfeitamente ordenar a graça para que os predestinados produzam, pelo bom uso do seu livre arbítrio, boas obras meritórias, e mereçam a salvação. Seria mais ou menos como aquele pai que, avizinhando-se o seu aniversário, discretamente fornece aos filhos os recursos necessários para que eles lhe façam uma bela festa e lhe presenteiem com belos presentes. O pai, discretamente, talvez por meio da mãe, lhes dá o dinheiro, fornece o bezerro para a festa, organiza os empregados, manda distribuir os convites, dá até o papel para que embrulhem os presentes que compraram com os recursos paternos. No entanto, ele se alegra de verdade quando os filhos preparam-no esta “festa surpresa” e lhe oferecem os presentes que a mãe, sabendo de antemão os gostos do pai, orientou os filhos a comprarem. Assim, a predestinação como um todo não se condiciona por nenhum mérito humano. Mas, em particular, para cada um de nós, Deus preordena a graça e as oportunidades para que seus eleitos produzam as boas obras que lhes farão merecer a glória. E assim mesmo a preparação para a graça, mesmo o uso do livre arbítrio, pelas oportunidades que Deus nos preparou para fazer as boas obras, são puro dom de Deus; “faze-nos voltar a ti, Senhor, e voltaremos”, é a palavra que São Tomás nos traz do Livro das Lamentações (5, 21). Ou, como diz São Paulo, em Efésios 2, 10, somos criados em Jesus Cristo para as boas obras que Deus já preparou de antemão para que praticássemos. Sem que ele nos tivesse dado a graça, a oportunidade e a vontade, não teríamos a possibilidade de obter nenhum mérito; mas ele não quer nos salvar sem nos envolver na salvação.

Este modo de agir, ao mesmo tempo, incita-nos à responsabilidade de estarmos atentos para não deixarmos passar as oportunidades de fazer o bem que ele nos preparou, por um lado, e, por outro, não nos permite, de modo algum, que nos orgulhemos do bem que fizermos, porque ele não depende de nós. Deus, como primeiro motor, predestina-nos por sua infinita bondade, e só por isto. Não é por outro motivo que o Papa Francisco, na exortação “Gaudete et Exsultate”, nos pede para não confiarmos no poder de nossas obras, como se fossem elas a causa da nossa santidade: “Os santos”, diz o Papa, “evitam de pôr a confiança nas suas ações: «Ao anoitecer desta vida, aparecerei diante de Vós com as mãos vazias, pois não Vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos » (Santa Tereza de Lisieux)”. (GE 54).

No próximo texto, se Deus quiser, acompanharemos a resposta de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.