Quando falamos em predestinação à graça e à glória, temos a tendência muito humana a procurar, fora da vontade gratuita de Deus de ter-nos como amigos, a razão da predestinação em algo relacionado a nós mesmos, algo que fizemos, merecemos ou de algum modo causamos. Esquecemos daquela velha regra de que é o amor de Deus por nós que gera a bondade que eventualmente detivermos, e não o contrário. Somos nós, criaturas, que movemos o nosso amor para o bem que já existe e nos atrai, porque o nosso amor, derivado e fraquinho, não causa o bem, mas é causado por ele. No caso de Deus, o amor de Deus é a causa de todo o bem; não é porque Deus prevê que seremos bons um dia que ele nos ama. É porque ele nos ama que ele prevê que seremos bons um dia.
Mas é difícil para nós aceitar que o bem em nós, e com ele a graça e a glória, sejam puros dons, imerecidos presentes de Deus, enquanto o mal que escolhemos e praticamos seja todo de responsabilidade nossa. Quão difícil é, para nós, aceitar uma graça, ainda que seja a graça salvífica. Insistimos em imaginar que a salvação é um prêmio para os bons, e não um dom para os que Deus quer. Então imaginamos o seguinte: já que Deus não está preso ao tempo, ele olha, a partir da eternidade, e já sabe, de antemão, quem serão os bons e quem serão os maus. E então ele prepara a salvação dos bons, em previsão dos seus méritos, e a punição dos maus, em proporção às suas culpas. Assim, a bondade dos bons seria simétrica à maldade dos maus, e toda a misericórdia de Deus resumir-se-ia à justiça distributiva mais rigorosa. A salvação deixaria de ser um dom para ser uma recompensa. E a causa da salvação, no fundo, seria a nossa própria bondade, contemplada de antemão por Deus, e não causada por ele. A bondade em nós seria originária, e atrairia as recompensas divinas. Mas há um problema de cronologia também aí; na verdade, a visão que se tem aqui não é de uma simultaneidade de vistas em Deus, mas de uma espécie de Deus previsor do futuro, que sabe antes e premia depois. Neste sentido, “ver o futuro” não é enxergar em simultaneidade (como ocorre, de fato, com Deus), mas apenas fazer mágica. Além de falsa, esta visão introduz uma noção de que haja um bem em nós cuja fonte não é Deus, mas que ele apenas pode prever e premiar. Ou seja, somos salvos por nossas próprias qualidades, que Deus simplesmente pode prever, e não por sua misericórdia infinita na cruz. E a salvação é uma coisa, um prêmio, um direito, não a sua amizade incondicional e eterna.
Ainda assim, com todas estas falhas, este é um pensamento muito tentador, porque responde à medida humana da justiça e ao orgulho humano de ser honrado pelo puro mérito, e não de saber-se amado gratuitamente por Deus. No fundo, é a postura do irmão mais velho daquele filho pródigo, que cobra do pai a festa que ele dá pelo retorno do outro (Lc 15, 29), ou mesmo a postura daqueles trabalhadores da primeira hora, resmungando pela generosidade do patrão (Mt 20, 1-16).
Mas estes problemas existiam no tempo de Jesus, existiam no tempo de São Tomás, existem agora no nosso tempo. É por isto que, seguindo sua metodologia, São Tomás admite agora, para provocar o debate, que as coisas possam ser mesmo assim. Admitamos que a presciência dos nossos méritos por Deus, ou seja, a capacidade que ele tem de ver antecipadamente o futuro, e enxergar de antemão quais de nós serão bons e quais serão maus, seja a causa da predestinação. Que argumentos haveria em favor desta hipótese?
São Tomás recolhe três argumentos objetores, em favor desta hipótese controvertida inicial. O primeiro argumento parte de uma glosa de Santo Ambrósio às Escrituras. Os versículos em questão são da Epístola de São Paulo aos Romanos (8, 29), que diz: “Os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou”; o outro versículo citado (9, 15), diz: “farei misericórdia a quem fizer misericórdia, e terei piedade de quem tiver piedade”. A estes versículos, a Glosa Ambrosiana comenta que o seu sentido mais profundo seria: “terei misericórdia com aquele que prevejo que voltará a mim de todo coração!”. Disto, este primeiro argumento conclui que a previsão dos méritos futuros dos seres humanos por Deus é a causa de que Deus os predestine para a salvação.
O segundo mistério lembra que a predestinação inclui a vontade divina, que não pode ser irracional; o argumento traz, em seu favor, uma citação de Santo Agostinho, que diz que a predestinação é uma vontade de misericórdia. Assim, a vontade de Deus, expressa na eleição dos predestinados, tem que ter uma razão racional. E o argumento conclui que não pode haver nenhuma razão que fundamente esta eleição senão o fato de que Deus pode saber de antemão quem serão os seres humanos que, em razão de que serão bons no futuro, merecerão, por seu próprio mérito, a salvação. Assim, conclui o argumento, a previsão dos méritos futuros é a razão da predestinação.
O terceiro argumento objetor é o argumento da estrita justiça de Deus. Seria injusto, diz o argumento, se Deus viesse a dar coisas desiguais a criaturas iguais entre si. Mas é certo que todos os seres humanos são essencialmente iguais entre si, tanto por compartilharem da mesma natureza humana, quanto por nascerem sob o pecado original. O que os poderia diferenciar seria apenas os próprios méritos ou deméritos que conquistassem pela vida afora, em razão dos seus esforços para serem bons, ou das suas escolhas de serem maus. Assim, o argumento conclui que, uma vez que pode prever os méritos e deméritos de suas criaturas, é em razão desta presciência, conclui o argumento, que Deus prepara situações diferentes para cada um, predestinando os que futuramente serão bons para o céu ou preparando a punição dos que serão maus.
O argumento sed contra é uma citação literal da Bíblia. Carta de São Paulo a Tito (3, 5): “não foi por causa dos atos justos que houvéssemos praticado, mas porque, por sua misericórdia, fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo”. Assim, diz este argumento, não é a previsão dos nossos méritos que causa a predestinação.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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