Talvez seja difícil para nós, hoje, entender como poderíamos harmonizar nosso igualitarismo rigoroso com a possibilidade de eleição unilateral, por Deus, de diferentes bens para diferentes pessoas entre nós. Deus não faz acepção de pessoas, diz São Pedro em Atos 10, 34. A nossa fé não admite acepção de pessoas, diz São Tiago na sua Carta, (2, 1). Como poderíamos compreender que Deus pudesse eleger, dentre nós, alguns para a salvação e outros não?
No entanto, olhar a história da salvação é perceber que o bem que Deus entrega a seus eleitos não é igual. Falando de João Batista, Jesus diz que não há nenhum “dentre os nascidos de mulher” que se compare a ele (Lc 7, 28); e não há como negar que Maria foi eleita para ser “plena de graça” (Lc 1, 28) e “bendita entre todas as mulheres” (Lc 1, 42). É certo que, como debatemos na questão anterior, Deus quer o bem, que é ele mesmo, para todos, mas não quer o mesmo bem, ou todo o bem, indiferentemente, para todos (I, 23, 3, ad 1). é próprio da limitação criatural que cada um de nos participe de modo diverso, pessoal e específico, do sumo bem que é Deus. E a medida desta participação está no próprio Deus. Mas a medida da exclusão desta participação está toda em nós, no nosso pecado.
Por outro lado, podemos dizer, sem medo de errar, que Deus não faz acepções, no sentido de que ele não compartilha dos nossos preconceitos; seus critérios não são os nossos critérios, ou mesmo são estranhos e inversos para nós. Deus escolhe aquilo que nós não escolheríamos (1 Cor 1, 28), exatamente porque ele é Deus e não um de nós. Nós é que teimamos em não deixar Deus ser Deus. Este erro São Tomás não comete.
Mas ele não teme enfrentar os debates mais difíceis. Neste artigo, ele propõe, como hipótese controvertida, a proposição de que a predestinação não decorre de uma eleição divina, ou simplesmente que Deus não elege alguém como predestinado. Ele trará três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento compara o amor de Deus com a luz do sol; do mesmo modo que a luz do sol se projeta indistintamente em todos os corpos, sem favorecer ou excluir ninguém de sua claridade, do mesmo modo, diz o argumento, o amor de Deus, expresso na forma da graça e da glória, comunicar-se-ia a todos indistintamente, independentemente de qualquer eleição divina. O argumento conclui que, uma vez que a graça (compreendida como a ajuda divina ao ser humano que caminha para a salvação) e a glória (que é a conquista da amizade de Deus na eternidade) são o próprio conteúdo da predestinação, então, diz o argumento, está provado que a predestinação não envolve nenhuma eleição, por parte de Deus.
O segundo argumento diz que a eleição se constitui de uma escolha entre coisas que existem. O argumento, então, relembra que a predestinação, sendo eterna, envolve até mesmo aqueles seres humanos que ainda não existem. Logo, ela não envolve, diz o argumento, nenhuma eleição.
O terceiro argumento diz que, ao imaginarmos que a predestinação envolva alguma escolha de Deus em favor dos predestinados, isto faria pressupor que Deus discrimina alguns, deixando de predestiná-los. E o argumento afirma que isto seria contrário à revelação bíblica, que registra que “Deus quer que todos os seres humanos se salvem” (1Tim 2,4). Assim, diz o argumento, a predestinação não envolve nenhuma eleição.
O argumento sed contra, no entanto, coleciona uma citação bíblica que aponta para a realidade da eleição. É Efésios 1, 4: “Nele nos elegeu, antes da fundação do mundo”.
Colocados os termos do debate, São Tomás nos oferecerá sua resposta sintetizadora.
Ele vai colocar a questão de volta ao eixo ao qual ela pertence: o amor. O amor divino. O amor nunca é indiferente. Ele não é uma luz impessoal, como a luz do sol. Portanto, temos que compreender a questão da predestinação como envolvendo a eleição, e a eleição como uma escolha de amor. Amar é escolher, é eleger, é conhecer individualmente a quem se escolhe para ser amado. O amor divino é ao mesmo tempo dirigido a todos e a cada um. Mas estas duas dimensões excluem a possibilidade de estabelecer, com Deus, uma relação de amor do tipo individualista, exclusivista ou egocentrista; Deus ama a todos e a cada um, mas ele não pode ser retido, dominado ou monopolizado por ninguém. Por isto, entrar na lógica do amor de Deus implica entrar na lógica da doação, da confiança e da entrega.
Além disso, é preciso lembrar, diz São Tomás, que a predestinação faz parte da providência divina para as suas criaturas amadas. A providência divina é a razão inteligente que ordena as coisas para os seus respectivos fins. Mas este não é um movimento essencialmente intelectual, porque, para ordenar alguma coisa para o seu fim, é necessário primeiro querer que ela atinja este fim. Não se trata, pois, de uma mera ordenação teorética, abstrata, hipotética, universal e genérica, mas da ordenação concreta do caminho que permitirá especificamente a este ou aquele ser humano vir a tornar-se amigo de Deus pela eternidade. A predestinação pressupõe o amor pelo qual Deus quer se doar. Mas pressupõe, também, o respeito de Deus pela criação, o que inclui seu respeito pela estrutura do livre arbítrio e da responsabilidade que o acompanha. Escolher os seus para agraciar com a glória não implica nenhuma injustiça, porque a glória, que é a amizade com o próprio Deus não é devida a ninguém. Assim, ter escolhido Maria para ser sua mãe, ou ter escolhido doze discípulos para serem seus apóstolos, dando a eles a graça, e onze deles para a glória, não implicou nenhuma injustiça para com todos nós, os outros, que são eleitos de maneiras diversas, pessoais, próprias. A riqueza do chamado à glória implica a particularidade da eleição, ou, nas palavras do papa Francisco, “«Cada um por seu caminho», diz o Concílio [Vaticano II, LG 11]. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho.” (Gaudete et Exsultate, § 11).
São Tomás vai nos dar aqui uma lição preciosíssima sobre o amor de Deus: em nós, humanos, o amor é consequência do fato de que alguma coisa, o objeto para o qual nosso amor se dirige, é, em si mesmo, amável. O bem das coisas amáveis desperta o nosso amor. Mas em Deus as coisas não são assim. O amor de Deus não é atraído pelo bem que há nas coisas; o amor de Deus não é causado pela amabilidade das coisas. Ao contrário, é o amor de Deus que faz com que as coisas que ele ama sejam boas e amáveis. O amor de Deus é causa da amabilidade das coisas, do seu bem. Assim, São Tomás coloca as coisas em ordem: Deus ama, e, amando, cria a bondade nas coisas que ama. Como ama, ele as ordena ao fim, pela sua divina providência. Ao ordená-las ao fim, ele predestina quem ele quer à amizade com ele próprio, criando neles a graça que conduz à glória. O amor de Deus cria, em cada criatura, o bem ontológico; de certa forma, existir é um ato de eleição. É um chamado a ser, dentre tudo o que pode ser e nunca será. A glória, portanto, é um bem acrescido, não devido, uma doação de puro amor que Deus destina aos que ele quer. E, ao elegê-los, torna-os amáveis não somente ontologicamente, mas também sobrenaturalmente aptos à divinização da glória. Na ordem, portando, ser predestinado implica ter sido eleito, e ter sido eleito implica ser especialmente amado. Mas, nesta vida, nós jamais saberemos, por conhecimento intelectual, que somos especialmente amados, eleitos e predestinados por Deus – salvo por um conhecimento infuso e miraculoso que Deus dá a alguns santos. Crer-se amado, eleito e predestinado é, em nós, nesta vida, objeto próprio da virtude teologal da esperança.
Dito tudo isto, passamos à resposta dos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor compara Deus ao sol, para negar que Deus eleja suas criaturas – sua bondade se espalharia pela criação como a luz do sol se espalha pela terra. São Tomás vai explicar fazendo uma distinção: de fato, o bem do ser, ou seja, a própria existência, é algo que Deus comunica indistintamente a todas as suas criaturas, porque todas são, e são boas na medida da sua existência. Mas os bens especiais, as perfeições, estas são distribuídas de modo particular, próprio, livre, por Deus, já que ele não dá todos os bens a todos os seres, mas elege livremente aqueles que receberão determinados bens e não receberão outros. Como é o caso, acrescento, dos bens sobrenaturais que ele deu a Maria, fazendo-a “plena de graça”, condição que a Bíblia não declara de nenhuma outra criatura. Assim, a graça e a glória, como bens especiais, são distribuídos por Deus através de sua livre eleição.
O segundo argumento objetor apega-se à noção de que a eleição é uma escolha, e a escolha só pode dar-se entre coisas efetivamente existentes; assim, a predestinação não poderia envolver nenhuma eleição, já que é a pré-ordenação dos seres humanos, desde toda a eternidade, para a graça e para a glória. São Tomás vai responder que esta noção de eleição, como escolha entre coisas existentes, é uma noção que se aplica apenas às eleições feitas pelos seres humanos. De fato, ele nos lembra aquilo que já disse na sua resposta sintetizadora: nós, humanos, elegemos as coisas porque elas são amáveis, e atraem nossa atenção pelo bem que têm em si. Deus, no entanto, cria o bem nas coisas que elege; vale dizer, sua eleição é causa do bem nas coisas, inclusive é causa da própria existência das coisas, e por isto ela não pressupõe, como a nossa eleição, que as coisas a serem eleitas já existam. Deus pode eleger antes mesmo que qualquer coisa exista, porque a própria existência das coisas também é consequência da sua eleição. É por isto que São Tomás cita, aqui, uma frase de Santo Agostinho: mesmo quando Deus elege aquilo que ainda não existe, ele nunca se engana em sua escolha.
Por fim, a terceira objeção é aquela que cita 1Tim 2, 4: “Deus quer que todos os seres humanos se salvem”, para negar que haja alguma eleição para a salvação. São Tomás vai explicar que, bem entendida, não há nenhuma contradição entre este versículo e a eleição divina para a salvação. De fato, Deus não é causa, por seu querer, da perdição de ninguém, e neste sentido, ele quer, com vontade antecedente, que todos se salvem. Não há uma predestinação à perdição de ninguém na vontade divina. Mas, concretamente, Deus elege os que se salvarão, dando-lhes sua graça para que cheguem à glória, enquanto permite a queda dos demais em razão do abuso, por parte deles, do livre arbítrio. De fato, não se pode tentar resolver este problema isolando-o de toda a estrutura da visão de mundo cristã; estamos num campo relacionado com a questão do pecado original, da consistência causal do livre arbítrio e da gratuidade do amor de Deus por suas criaturas, distribuído, ademais, por ele, de modo individual e pessoal. O certo, agora, é que toda perdição individual é causada pelo ser humano, enquanto toda a salvação é causada concretamente por Deus, mas não sem o ser humano que ele escolheu para salvar-se. Dizer, portanto, que Deus quer por vontade antecedente a salvação de todos significa dizer que todos, absolutamente todos, têm base razoável para acreditar que estão predestinados à salvação, e que terão graça suficiente para alcançá-la, contanto que não a deixem escapar por culpa própria. Deus não excluiu ninguém de antemão, por ser deste ou daquele povo, deste ou daquela religião ou deste ou daquele lugar. Todos podem estar no número dos predestinados. E isto basta por enquanto, porque esta resposta pressupõe tudo o quanto estudamos até agora e também implica tudo o que vamos estudar adiante.
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