A discussão aqui envolve a possibilidade de que alguém se perca, ou seja, que alguém venha a ser condenado por Deus e excluído da sua amizade eterna, e portanto do gozo da felicidade eterna. Vimos no último texto a hipótese de que Deus não condena ninguém, e os argumentos objetores que tentam demonstrar a impossibilidade de que haja uma reprovação divina a qualquer ser humano; no argumento objetor, vimos que é uma realidade bem comprovada nas Escrituras o fato de que Deus tem suas predileções, e que realiza eleições.

Não podemos esquecer, porém, que a aparente contradição entre a infinita justiça de Deus e sua infinita misericórdia se dá apenas para nós, porque não conseguimos vê-las como realmente são, ou seja, uma absoluta unidade em Deus. Pensamos em termos dualistas, como se céu e inferno fossem dois lugares físicos para os quais somos destinados, um por pura arbitrariedade de Deus ao eleger seus favoritos, outro por ríspida e implacável justiça ao punir seus réprobos. Mas não podemos esquecer jamais de que “na casa do Pai existem muitas moradas” (Jo 14, 2), e que o que se está discutindo, aqui, é a situação daqueles que desenvolvem uma amizade com Deus, por graça, na concretude de suas vidas, por um lado, com relação àqueles que, livre e conscientemente, rejeitam-no como amigo, e são respeitados na sua liberdade de fazê-lo.

E aqui podemos entrar agora na resposta sintetizadora da São Tomás.

Ele começa logo afirmando incondicionalmente que de fato Deus pode reprovar alguém.

A primeira coisa que São Tomás quer esclarecer é que não há nenhuma contradição entre a afirmação da providência amorosíssima e universal de Deus na sua criação, por um lado, e a existência de limites e defeitos na própria criação, por outro. A menos que nós olhássemos a bondade de Deus como a de um vovô bondoso a se relacionar com um netinho birrento, ou seja, se colocássemos o ser humano como um arrogante egocentrista exigindo seus direitos contra Deus sob pena de acusá-lo de ser menos do que Deus, é preciso admitir que a estrutura da criação deve pressupor a possibilidade do fracasso, da falha, do próprio pecado, como parte integrante da existência de autonomia causal e de livre arbítrio. Assim ao lado de toda a previsão dos meios necessários a que os homens se salvem, a estrutura da criação, o respeito ao livre arbítrio, tudo isto pode levar à permissão de que alguns abusem do livre arbítrio e venham, por isto, a ser responsabilizados, e portanto a serem reprovados e caírem. Neste caso, a causa da queda é o abuso humano da liberdade, não há nenhuma predestinação à perdição. Deus leva nossa responsabilidade muito a sério.

Assim, se, para alcançar a amizade divina, é preciso contra com a eleição divina, que providenciará as oportunidades e a graça para que nos santifiquemos, para a perdição nós nos conduzimos sozinhos. Já vimos que a salvação, que é a amizade com Deus, não viola nossa natureza, mas não está ao alcance das forças naturais do ser humano. A reprovação, por outro lado, está ao nosso alcance. Trata-se de desafiar abertamente a justiça divina. E, neste caso, a condenação é certa, porque Deus também já estabeleceu, em sua providência, as consequências relacionadas com a rejeição do seu amor.

A salvação é, portanto, organizada pela providência divina como uma eleição para a graça e a glória, e os meios são devidamente dispostos por Deus em seu governo maravilhoso. A perdição é uma opção humana, que Deus não somente prevê, mas também inclui, em sua providência, a permissão para que o pecador enfrente as consequências da sua livre opção pelo pecado – que, em nossa linguagem jurídica, chamamos de “penas” e de “condenação” – mas que poderíamos chamar simplesmente de infelicidade permitida por Deus como consequência da rejeição consciente do único que é, em si mesmo, amor. Neste sentido, podemos dizer que Deus pune, ao permitir a queda e ao não evitar que o pecador impenitente colha as consequências do seu pecado. Estamos certos, porém, que, em sua misericórdia, ele pune visando o próprio bem do condenado, de alguma maneira que nos escapa. Deus não tem os limites nem as concupiscências dos juízes humanos. Como diz Davi em 2 Samuel 24, 14, “caiamos nas mãos do Senhor, porque é grande a sua misericórdia, mas não venha eu a cair nas mãos dos homens”. Mas isto não nos deve levar a imaginar que seremos poupados de alguma forma dos abusos de nossa liberdade. Ninguém pode imaginar que fará deus de bobo. De Deus não se zomba (Gal. 6, 7).

Agora, São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção nega que Deus possa reprovar alguém pelo fato de que ama a todos. São Tomás admite que Deus ama a todos, mas não necessariamente quer qualquer bem a todos, indiferentemente. Aos que expressamente o rejeitam, por palavra ou por atos deliberados, ele permite a queda; não os poupa das consequências de suas escolhas livres e insensatas. É a esta permissão de queda que, segundo São Tomás, chamamos de reprovação ou rejeição de Deus.

A segunda objeção diz que, se a predestinação é causa de salvação, então teríamos que admitir que a reprovação é causa de queda, e que portanto Deus condena sem que haja culpa do condenado, mas apenas porque elege alguns para a condenação inevitável. São Tomás responde, aqui, que não há paralelismo entre a salvação, que depende essencialmente da eleição e da predestinação divina, e a perdição, que é uma resposta de justiça divina à culpa humana, quando deliberadamente escolhe contra Deus. A resposta de São Tomás ainda acrescenta que, embora Deus não seja a causa da perdição, é dele que vem a justiça da punição eterna.

Por fim, a terceira objeção é semelhante à segunda. Ela diz que, se Deus reprova, então os condenados estão irremediavelmente condenados desde a eternidade, e não há nada que possam fazer para evitá-lo. Então, diz o argumento, a condenação decorre de uma escolha de Deus, não das escolhas humanas, já que a graça é negada, de antemão, aos réprobos. São Tomás diz, respondendo a este argumento objetor,  que a previsão, em Deus, da reprovação de alguns, não retira em nada o livre arbítrio deles, como a predestinação tampouco o faz. De fato, a reprovação decorre das escolhas dos reprovados, que os impedem, inclusive, de ter acesso à graça salvífica. Por outro lado, o acesso à graça, garantido aos predestinados, não tolhe em nada o seu livre arbítrio.

O sistema faz pleno sentido teológico; de fato, Deus elege os seus, mas ninguém o sabe nesta vida. Assim, como somos todos essencialmente iguais (já que a predestinação não causa alterações ontológicas nos predestinados), qualquer um de nós pode ter justas esperanças de ser um eleito para a salvação, e confiança de que Deus não deixará faltar os meios para tanto – pois cabe a ele preordená-los, e, em seu amor infinito, ele não deixaria que faltasse aos seus eleitos. Por outro lado, como não sabe se foi ou não eleito, mas sabe (com certeza) que, se morrer em pecado mortal, terá sido causa da própria perdição, o ser humano deve temer com todas as suas forças o pecado mortal, ou seja, deve lutar para que sua própria conduta não dê causa à sua perdição. Há, portanto, plena coerência com a virtude teologal da esperança, por um lado, e com o chamado cristão a uma vida eticamente digna, por outro. Por fim, no dia do juízo, ele não terá motivos para orgulho, caso esteja entre os salvos, porque saberá que sua salvação deu-se por livre eleição de Deus, e não por seus méritos. Mas tampouco terá queixas contra Deus caso se perca, porque saberá que sua perdição deu-se apenas por responsabilidade sua. Veremos mais sobre isto, aliás, no próximo artigo.