A questão agora se torna mais difícil. Se, por um lado, é fácil ver como Deus nos precede, e prepara para nós de antemão, com todo amor, todo o caminho que nos conduz à salvação, disponibilizando toda a graça, todos os encontros, todas as oportunidades, todos os sacramentos que se fizerem necessários, todas as boas obras que precisamos fazer, sem violar jamais o nosso livre arbítrio, mas encaminhando-nos amorosamente ao seu próprio encontro, por eleição gratuita e eterna de sua parte, chamando-nos, encaminhando-nos e recebendo-nos na glória por seu governo maravilhoso, por outro lado é muito difícil imaginar que Deus possa reprovar alguém.
Mas este é um corolário inafastável do simples fato de que o ser humano tem livre arbítrio. A possibilidade de perdição, quer dizer, a possibilidade de que um ser humano possa, por sua própria escolha, rejeitar voluntária e expressamente, de modo consciente e informado a Deus, pela construção de uma vida desordenada, decorre da própria seriedade com que o próprio Deus encara a liberdade humana. Não há chamado de amor se não for livre. Tampouco há resposta de amor se não for livre. E não há liberdade ali onde, por um lado, não há eleição, e por outro o amor não possa ser rejeitado. Vale dizer, o corolário necessário da liberdade humana de rejeitar Deus está na liberdade divina de eleger os seus. A questão difícil, aqui, está em harmonizar, de um lado, a misericórdia com a eleição, e, do outro, a predestinação à salvação dos gratuitamente eleitos com a permissão para a perdição dos que rejeitam livremente a Deus. Há um espaço aí para o mistério, para a pessoalidade impenetrável de Deus, para o qual a presente questão pode nos fornecer elementos, mas não pode pretender esgotar. Ir além disto é mergulhar num intelectualismo arrogante, e querer estabelecer balizas para Deus.
Um dos critérios, ao se ler a Suma, é o de não querer esgotar todo o problema em um único artigo. De fato, algumas dúvidas que vão surgindo ao longo do debate são resolvidos em outros artigos, ou mesmo em outras questões, ou mesmo são daquele tipo de problema que não se pode resolver completamente, já que implicam o inesgotável mistério divino. É o caso aqui. Não há como sondar completamente as razões das eleições divinas, mas não se pode negar que Deus elege.
De fato, não há outra razão para admitir que Maria é chamada pelo anjo de “plena de graça”, enquanto nós outros nos debatemos entre o pecado, o arrependimento e o perdão todo dia, aprendendo humildade e aceitando a santidade como que na marra. Somente uma certa mentalidade relacionada com a “era dos direitos” poderia nos levar a imaginar que temos, perante Deus, direitos de reclamar igualdade, no sentido de impedir que Deus tenha, entre nós, os seus gostos. Jesus elegeu, dentre os seus discípulos, os seus apóstolos, e elegeu os que quis. Cabe a nós rezarmos para estarmos entre os eleitos, confiarmos com esperança na misericórdia de Deus e viver a caridade em cada ação nossa, cientes de que mesmo esta fé, esta esperança e esta caridade, mesmo a oração pela qual a pedimos a Deus, já são frutos da eleição preordenada de Deus em nossas vidas.
Uma breve palavra: a doutrina da dupla predestinação, adotada por algumas linhas protestantes de origem calvinista, defende que Deus predestina irremediavelmente tanto para a salvação quanto para a perdição, ou seja, não há espaço para o livre arbítrio nesta matéria. Quem se perde não o faz por culpa própria, mas por eleição divina, do mesmo modo que quem se salva. Esta doutrina será discutida neste artigo e, de modo interessante, ela é discutida nos argumentos objetores, não para que se afirme uma dupla predestinação, mas para que se negue que qualquer pessoa humana possa perder-se por força de uma reprovação divina. Ela parecia tão absurda aos medievais que, em vez de chegarem à conclusão de que a predestinação à salvação implicaria uma predestinação à condenação, como fazem os calvinistas, eles simplesmente concluíram, também equivocadamente, que simplesmente não haveria condenações divinas, nos argumentos objetores recolhidos por São Tomás. Mais uma vez veremos São Tomás encontrar maravilhosamente o caminho do meio, a reta condução do debate.
Deixemos de divagação. O presente artigo quer compreender um pouco mais profundamente a questão da reprovação, da falha humana em ser santo, da perdição. Como pode alguém ser eleito infalivelmente para a salvação, por dom gratuito, e outro ser deixado à perdição, como justiça pela sua escolha contra Deus? A hipótese controvertida, aqui, propõe exatamente que isto não acontece, e que ninguém é deixado por Deus à perdição. Parece que Deus não reprova ninguém, diz a hipótese controvertida, para provocar o debate. E o artigo coleciona três argumentos objetores.
O primeiro argumento é o do amor incondicional de Deus. Como se poderia admitir que Deus pudesse deixar perder-se o objeto do seu amor, que são as suas criaturas? O argumento cita o Livro da Sabedoria, que diz (11, 25): “Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com nada do que fizeste”. Assim, o argumento conclui que Deus não deixa que ninguém seja reprovado, ou seja, que alguém venha a se perder.
O segundo argumento traz a questão da dupla predestinação: se Deus deixasse que alguém se perdesse, seria necessário admitir que, do mesmo jeito que a predestinação é a causa da salvação, a reprovação divina seria a causa da perdição. Neste caso, teríamos que admitir que há uma predestinação divina para a perdição, ou seja, que Deus predestina alguns para a perdição eterna. Mas isto, diz o argumento, contraria as Escrituras, já que no Livro de Oseias (13, 9), está dito: “É tua a destruição, pois só em mim está o seu auxílio” (ou segundo o texto da Vulgata, que São Tomás cita, “Tua perdição vem de ti, Israel; de mim vem apenas o teu socorro”). Assim, segundo o argumento, diante da clara contradição entre a ideia de que Deus predestina alguém para a perdição e a palavra revelada, que diz que de Deus vem apenas o socorro, nunca a reprovação, o argumento conclui que Deus não reprova ninguém; todos são eleitos para a salvação.
O terceiro argumento objetor também parte de uma citação da Bíblia, e também faz uma interpretação distorcida quanto ao absurdo que seria, de fato, admitir a dupla predestinação; mas impossibilitado de admitir que Deus predestine para a perdição, o argumento simplesmente nega que Deus condene alguém. De fato, ele começa afirmando que, se um ser humano não pudesse, de nenhum modo, impedir sua própria condenação, então a ele não se poderia imputar a responsabilidade de ser condenado. Mas as Escrituras parecem revelar, diz o argumento, no Livro do Eclesiastes (7, 14) , que aqueles a quem Deus reprova perecem inevitavelmente: “Vê a obra de Deus: quem poderá endireitar o que ele curvou?” (Ou, na versão da Vulgata, citada por São Tomás, “ninguém poderá corrigir a quem ele desprezou”). Se fôssemos admitir uma dupla predestinação, diz o argumento, então teríamos que admitir que Deus condena os réprobos sem culpa pessoal deles, mas apenas por tê-los eleito para a perdição, o que parece decorrer do texto citado. Para não admitir que alguém possa ser eleito por Deus para ser condenado sem culpa, o argumento prefere concluir que Deus não condena ninguém.
O argumento sed contra traz uma citação bíblica simples, em que a eleição de Deus se manifesta como gratuidade de preferência. Trata-se do oráculo de Malaquias (1, 2-3) em que Deus afirma de modo muito direto e franco: “eu amei Jacó e odiei Esaú”. É certo que a palavra “odiar”, na Bíblia, tem suas nuances, pode significar simplesmente um desapego e nem sempre expressa o mesmo que expressa hoje, aquela carga de paixão negativa que implica desprezo e vontade de destruição. Basta ver, por exemplo, quando Jesus diz (Lc 14, 25), que quem o quiser seguir e não “odiar” seus parentes não pode ser seu discípulo. Mas é inegável que o versículo demonstra que Deus tem suas predileções, e que elege livremente quem ele quer – como o fez, aliás, com Maria (Lc 1, 28 e seguintes) e com Davi (Salmo 89 (88), 21), dentre outros. Deus não é um igualitarista radical; ele ama com muita liberdade as suas criaturas.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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