A predestinação, como vimos no texto anterior, não cria uma espécie de “raça especial de seres humanos pré-salvos”, destinados ao céu, essencialmente diferentes de outros que teriam como destino a perdição eterna. Somos todos iguais na nossa humanidade, e temos todos os mesmos motivos para temer a perdição e, mais ainda, para confiar que não nos faltarão os meios, já preordenados por Deus desde a eternidade, para que cheguemos até ele. Foi mais ou menos isto que nós debatemos no último texto, sem resistir à tentação de acrescentar um pouquinho mais de poesia à resposta de São Tomás. Agora, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.

A primeira objeção insiste que a predestinação, por ser uma ação, gera necessariamente uma paixão no predestinado, vale dizer, a predestinação o atinge, “põe alguma coisa” nele. São Tomás vai fazer aquela distinção entre as ações transeuntes e as imanentes. A predestinação, sendo uma ordenação de razão feita por Deus, é ação imanente, fica no próprio Deus. É um agir, mas não é um fazer. Trata-se de um inteligir e de um querer no próprio Deus. No entanto, a execução da predestinação, que São Tomás imputa ao governo divino, é um fazer, e não apenas um agir. O governo de Deus é um fazer, e produz efeitos no governado.

A segunda objeção nega que haja diferença entre destinação, que se aplicaria ao que já existe, e predestinação, que envolveria o que ainda não existe. Para esta objeção, uma vez que são equivalentes, e que a destinação implica um fazer, e gera efeito sobre a coisa destinada, então também a predestinação o geraria.

São Tomás fará uma boa análise do problema aqui. Ele começa tornando mais precisa a noção de “destinar”. De fato, diz ele, quando empregada no sentido de “enviar alguém com alguma finalidade específica, numa missão concreta”, a palavra “destinação” só se aplica àquilo que já existe. Mas quando se refere à própria concepção da missão, ao plano mental da missão na mente daquele que envia, então, neste caso, a palavra “destinação” pode se referir a algo do futuro, que ainda não existe; São Tomás cita alguns trechos bíblicos em que há este sentido, de “destinar” como sinônimo de “planejar para o futuro”, em versículos que, para nós, talvez não tivessem este significado, porque São Tomás trabalha com o texto da Vulgata, e nós não o usamos ordinariamente. O texto de 2Mac 6, 20 nos retrata o velho Eleazar, que resolveu (destinou-se, no sentido que Tomás dá aqui) não comer carne de porco, mesmo que isto lhe custasse a própria vida. Em todo caso, diz Tomás finalmente, a palavra “predestinação” inclui um prefixo de anterioridade, o que demonstra que, qualquer que seja o sentido em que se tome o termo “destinar”, não há inconveniência em empregar a palavra “predestinação” para designar a deliberação prévia à própria existência do ser destinado; e com isto fica claro que a predestinação não implica nenhum “fazer” concreto de Deus no ser predestinado; portanto, podemos concluir com Tomás que a “predestinação” não põe nada no seu objeto.

A terceira objeção quer definir a noção de “predestinação” a partir da noção de “preparação” ; e, citando Santo Agostinho, afirma que predestinar é preparar. Mas disto o argumento conclui que, como “preparar” é uma atividade que transforma o seu objeto, ou seja, é um “fazer”, no sentido de modificar o objeto para que ele fique pronto para alguma realidade posterior, e que, portanto, predestinar também seria um fazer, e também implicaria mudança no objeto da predestinação. São Tomás mais uma vez faz uma distinção; a palavra “preparação” pode ter dois sentidos. O primeiro sentido implica aprontar alguma coisa para um fim posterior, e neste sentido é uma ação transeunte, que implica um sofrer, uma modificação passiva da coisa preparada. Mas há um outro sentido, diz São Tomás, que diz respeito apenas ao sujeito da preparação, e que se refere ao processo interno de aprontar-se que ele faz em si mesmo, sem gerar nenhuma consequência externa – é um aprontar-se para agir, como no caso do estudante que se prepara para uma prova no dia seguinte. Esta preparação não gera efeitos nem no professor que redige as questões, nem na prova em si, mas certamente faz toda a diferença no resultado do desempenho do próprio aluno. Trata-se de preconceber, no próprio intelecto, as respostas que dará às perguntas que o professor elaborou para a prova do dia seguinte. Esta preconcepção das razões de agir, que prepara a razão da ordenação de alguns à salvação, é exatamente o que São Tomás chama de “predestinação”, e não é uma ação transeunte, mas uma preconcepção em Deus.

A quarta objeção parte da noção de “graça”, que é uma realidade histórica, temporal e que, segundo o argumento, faz parte da própria noção de predestinação. Assim, o argumento deduz que a própria predestinação, por conter elementos temporais, históricos, como a graça, não é uma realidade em Deus (que é eterno em si mesmo), e portanto só pode ser uma realidade no ser humano; neste sentido, a predestinação existiria no ser humano, e portanto seria transeunte – nasceria em Deus mas modificaria, se inscreveria, no próprio ser do humano que é predestinado.

São Tomás vai nos ensinar que a predestinação diz respeito à graça como efeito, mas não como parte da própria definição de “predestinar”. Assim, a graça não é parte da predestinação, mas é efeito do governo de Deus nos seres predestinados, é o objeto do ato de governar os predestinados à glória. Portanto, diz São Tomás, o fato de que a predestinação implica a graça não significa que a própria predestinação seja uma realidade histórica, temporal.

Como veremos nos artigos posteriores, e já vemos neste em algum grau, São Tomás não concebe a predestinação como uma espécie de escolha elitista, um ingresso antecipado que Deus dá a alguns para passarem a eternidade no camarote, no céu. Ele a concebe como o cuidado antecipado de Deus para que os seus amados possam ter à disposição, nos momentos e lugares adequados, todo o necessário para santificar-se, tornando-se amigos de Deus. Não é a formação de uma elite de santos substancialmente marcados, de algum modo ontologicamente diferentes dos que são condenados. Trata-se apenas de um amor que nos precede, que vem da eternidade, e que nos faz, ao mesmo tempo, receber a amizade de Deus como um dom e não como uma conquista, eliminando qualquer motivo de orgulho ou de presunção espiritual, por um lado, e por outro fazendo-nos capazes de crer, pela virtude teologal da esperança, que Deus não nos negará todos os meios de santificação para que cheguemos até ele. Somos todos essencialmente iguais, e temos exatamente o mesmo motivo para confiar que Deus não cria seres humanos de segunda categoria, destinados ao inferno. E que já preparou, com seu amor infinito, todas as ajudas necessárias para a nossa salvação – inclusive nosso desejo de alcançá-la. Se eventualmente não a alcançarmos, não foi por causa de Deus.