Há ações humanas que produzem efeitos para além da própria pessoa. De fato, se um escultor faz uma estátua, a morte do escultor já não influi na existência da estátua. Trata-se, pois, de uma ação, a de esculpir, que põe alguma coisa no material que foi usado para produzir a estátua. Modifica, digamos, o mármore, pondo nele a forma desejada pelo escultor. É neste sentido que os escolásticos diziam que a ação transeunte é aquela que põe alguma coisa no seu objeto. Por outro lado, quando eu apenas estudo o bloco de mármore, meço seu tamanho, avalio sua solidez, eu mudo a minha própria pessoa, já que adquiro conhecimentos sobre o bloco de mármore que antes eu não tinha. Mas não ponho nada no bloco de mármore. Nada nele se modifica com a minha atividade. Mas, se eu morro, todo o conhecimento que eu adquiri sobre o bloco de mármore morre comigo. Neste sentido, conhecer não é uma ação transeunte; é um agir, não um fazer. Ou, em grego clássico, conhecer é uma praxis, enquanto esculpir é uma poiesis.

E quanto à predestinação, que tipo de ação é esta? É uma praxis de Deus, vale dizer, é algo que se resolve no próprio Deus, ou é alguma poiesis divina, quer dizer, a predestinação põe alguma coisa em nós?

Este é o debate proposto agora por São Tomás. Ele propõe, como hipótese controvertida, para provocar o debate, que a predestinação é uma poiesis, quer dizer, seria uma ação transeunte de Deus que nos atinge, que nos transforma, ou seja, ela põe alguma coisa em nós.

E ele vai trazer quatro argumentos em favor desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento afirma logo que toda ação produz uma paixão, ou seja, sempre que alguém faz alguma coisa, outro ser sofre alguma consequência daquele fazer. Há sempre, em toda ação, diz o argumento, um agente e um paciente, algo que faz e algo que recebe o fazer. Assim, se a predestinação é um fazer divino, então o argumento conclui que ela deve provocar em nós o recebimento de alguma coisa, alguma transformação passiva que marca o próprio ser daquele que está predestinado.

O segundo argumento parte de um comentário que Orígenes faz sobre Romanos 1, 14 (na versão da Vulgata, o versículo registra que Jesus foi “predestinado” como Filho de Deus). Comentando este versículo, Orígenes afirma que “a predestinação se refere ao que não é, e a destinação, ao que é.”

E o argumento resgata ainda uma pergunta de Santo Agostinho: “o que é a predestinação, senão a destinação de alguém?”

Deste debate, o argumento conclui que a predestinação, na verdade, é a concreta condução de algo que efetivamente existe, e portanto diz o argumento, produz efeito naquilo que destina.

O terceiro argumento diz que quando se prepara alguma coisa para algum fim, esta ação atinge aquilo que está sendo preparado (ou, em linguagem escolástica, “põe algo” no ser que está sendo preparado). O argumento, então, cita Santo Agostinho, para quem a predestinação é “a preparação dos benefícios de Deus”. Daí o argumento conclui: se é uma preparação, então ela põe alguma coisa naquilo que prepara.

O quarto e último argumento parte de um conceito de predestinação como “a preparação da graça, nesta vida, e da glória, na outra”. Mas a graça, diz o argumento, é uma realidade histórica, concreta, temporal, criada, passageira. Então, diz o argumento, ela não pode fazer parte de Deus, em quem tudo é eterno. Mas se a graça entra na definição da predestinação, prossegue o argumento, isto significa que a própria predestinação é algo histórico, temporal, passageiro, e portanto não pode ser uma realidade que exista em Deus, em quem tudo é eterno e imutável. Assim, a predestinação, se não existe em Deus, tem que existir como uma realidade nos predestinados, que a sofrem. E assim o argumento conclui que a predestinação é uma ação transeunte, que põe alguma coisa no predestinado.

O argumento sed contra traz uma citação de Santo Agostinho: a predestinação é a presciência dos benefícios de Deus. Ora, se ele é um tipo de saber, de ciência prévia, então ela se encontra naquele que sabe, e não no objeto de conhecimento; a ação de saber alguma coisa não é transeunte, mas imanente. E daí o argumento conclui que ela não põe nada naquele que é objeto de conhecimento.

Postos os termos do debate, São Tomás passa a oferecer sua própria resposta sintetizadora.

A predestinação, diz ele, não é uma poiesis, uma ação transeunte; é uma praxis, uma realidade em Deus, que não está nos predestinados.

De fato, diz São Tomás, a predestinação é uma ordenação para a felicidade eterna, ou seja, está no intelecto divino como um conhecimento, como um pensamento, como uma ordenação de razão. Não transita para aquele que é objeto da predestinação, portanto.

Neste ponto, São Tomás faz uma das suas distinções maravilhosas: a predestinação é uma faceta específica da providência divina; não se confunde, portanto, diz ele, com o efetivo governo das coisas sobre as quais ela incide como objetos de cuidado. São, portanto, três coisas: a providência, como gênero da qual a predestinação é uma espécie, são ordenações de razão. O governo divino, por seu turno, é uma ação transeunte; é um fazer, uma poiesis divina, que gera efeito nos governados, que somos todos nós. Neste caso, este governo amorosíssimo que Deus exerce, seguindo a ordenação de razão da sua providência, gera uma relação real conosco, vale dizer, sofremos os seus efeitos como realmente capazes de nos modificar, de atuar em nós. Lembrei-me neste ponto de uma canção bela, da banda católica Dom, que descreve esta relação:

Quando eu senti, Senhor,

Pela primeira vez tua mão a me amparar

Tentei resistir, quis reagir

Mas não fui capaz

Me deixei seduzir pelo teu amor...”

Esta passividade, este entregar-se à providência amorosa, não está livre da cruz, mas a pressupõe e a assume com alegria… Trata-se de confiar no governo de Deus. Na verdade, a cruz, a aceitação desta condução amorosa de Deus, é o único caminho para a ressurreição com Jesus. Mas o orgulho existencial nos leva, às vezes, a preferir perder-nos sozinhos a aceitar que Deus governa, e que é para o nosso bem que o faz. Deus predestina e elege. Cabe a nós deixar-nos salvar, colaborar com a salvação, confiando que Ele já fez a parte dele. Deixar-nos salvar é aceitar que a salvação é um dom, não uma conquista, e que envolve reconhecer Deus, entrar em amizade com ele. Não se consegue Deus hostilizando-o. Lembro-me daquele trecho do “Paraíso Perdido”, de John Milton, no qual o Diabo, orgulhoso e tentador dos orgulhosos, proclama: “é melhor reinar no inferno do que servir no céu!”. Mentira do Diabo; no inferno só quem reina é ele, todos os outros são seus escravos. No céu seremos filhos amados do Rei.

E São Tomás nos ensina que o governo de Deus, na condução dos seus eleitos até si, é denominado de “vocação”, quanto ao chamado, e glorificação, quanto à amizade final, conforme a carta aos Romanos (Rm 8, 30): “E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também glorificou.”

Veremos as respostas de São Tomás às objeções iniciais no próximo texto.