Entramos num tema teológico muito vibrante e muito polêmico, que não é muito presente em nossos debates cotidianos. De fato, se algumas correntes cristãs ressaltaram muito este tema, chegaram mesmo a defender algo como uma “dupla predestinação”, ou seja, uma predeterminação, por Deus, de quem, se salva e de quem se perde; além disso, o acento na predestinação às vezes parece induzir a uma passividade frente ao próprio agir humano, um indiferentismo para com a ética, negando completamente seu caráter salvífico. A depender do enfoque que adotemos perante a predestinação, podemos tornar-nos indiferentes à resposta de fé, esquecendo que a nossa resposta não pode ser apenas de boca, mas deve exprimir-se num agir coerente de cristão. O tema é, pois, de uma relevância prática total.
É importante, pois, entrar com muito cuidado no exame desta doutrina. É preciso lembrar que não se pode simplesmente arrancar o ensinamento de São Tomás da estrutura da catedral que ele próprio montou, vagarosamente, na Suma. Tudo quanto estudarmos aqui se refere ao modo de conhecer da teologia cristã, como debatido na questão 1, bem como ao “modo de ser” daquele “a quem todos chamam Deus” (ver questão 2), que tem diante de si a simultaneidade do tempo e cuja providência envolve todas e cada uma das coisas, e que é capaz de sintetizar a liberdade e a contingência da vida humana no seu próprio governo da criação, como vimos na questão anterior. Estabelecer isto tudo pode nos ajudar a não entendermos mal o debate agora proposto.
A hipótese controvertida, que São Tomás propõe para iniciar este debate, é a simples negativa de que haja alguma coisa como uma predestinação à felicidade. Note-se que não está em discussão, ainda, a própria natureza da predestinação, ou seja, uma predestinação que fosse para a glória mas não para o comportamento ordinário; somente no final da questão, após o debate dos oito artigos, é que ficará claro em que sentido estamos falando, aqui, em predestinação.
“Parece que os seres humanos não são predestinados por Deus” para a felicidade; é o que propõe, como hipótese controversa, este artigo, para provocar o debate. Note-se, de logo, que, embora São Tomás vá propor, adiante, a distinção entre os fins naturais do ser humano, por um lado, e o seu fim sobrenatural de gozar do próprio Deus na eternidade, esta distinção não implica separação; é o próprio ser humano, com suas características, suas virtudes, suas imperfeições, seus vícios, quem será chamado e conduzido por Deus à plenitude final da felicidade – que é o próprio Deus. Erra, pois, quem imagina que São Tomás propõe uma “perfeição natural”, que nós atingimos por nossos próprios esforços, totalmente diversa de uma “perfeição sobrenatural” para a qual somos passivamente conduzidos por Deus, e que independeria da primeira. Não é assim, não é tão simples. A relação entre as duas coisas é muito mais complexa e misteriosa do que pode parecer à primeira vista.
Além disso, não se está buscando, aqui, estabelecer elementos que permitam a cada um, individualmente, sondar quanto à sua própria eventual predestinação. A predestinação individual, ou seja, saber concretamente se Deus me predestinou ou não para a felicidade, como veremos, é alguma coisa que deve estar ordinariamente além do conhecimento humano, e veremos a razão no final deste artigo. Mas prossigamos.
São Tomás coleciona, aqui, quatro argumentos objetores, que defendem que não há, nem pode haver, nenhuma predestinação humana para a graça e para a glória, por Deus.
O primeiro argumento cita São João Damasceno: “Sabemos que Deus prevê tudo, mas nem tudo ele predetermina. Assim, Deus sabe por previsão tudo o que há em nós, mas não o predetermina”. E o argumento prossegue, dizendo que, de fato, é por sermos senhores dos nossos atos que podemos ter méritos e deméritos por causa deles. Ou seja, o mérito e demérito estão indissoluvelmente ligados ao livre arbítrio, que seria afastado se houvesse algo como uma predestinação divina para o nosso agir. Portanto, o argumento conclui, não pode haver nada parecido como uma predestinação para o ser humano.
O segundo argumento retoma a noção de “providência divina”, discutida na questão anterior, para dizer que a providência se estende a todas e a cada uma das criaturas; nenhum ser criado está fora do alcance da providência. A providência divina estabelece, para todas as criaturas, para a criação inteira, quais são os fins e qual a razão que conduz ao fim. Mas ninguém diz, por isto, que a criação é “predestinada aos fins”, senão que ela é preordenada providencialmente por Deus. Assim, diz o argumento, não haveria razão para falar de nenhuma predestinação com relação aos seres humanos, senão apenas para admitir simplesmente a providência divina, com a preordenação ao fim, assim para os seres humanos como para todas as criaturas.
O terceiro argumento introduz a questão dos anjos. Seres incorpóreos, mas pessoais e inteligentes, a existência dos anjos como seres pessoais e inteligentes tem perfeita coerência com o sistema de pensamento tomista; de fato, rejeitando a noção de que haja um “reino separado das ideias” ao modo platônico, São Tomás constrói sua própria visão a partir da noção de que as ideias separadas existem sempre e somente numa inteligência; assim, estão na mente de Deus, que concebeu a criação inteligentemente, e existem como criaturas nos anjos, que, sendo puras formas, só podem subsistir imaterialmente por serem capazes de inteligir a si próprios. Vale dizer, seres que subsistem como puras formas devem necessariamente ser inteligentes, e inteligentes num grau muito mais elevado do que os seres materiais eventualmente inteligentes. É que a sua própria subsistência decorre da capacidade da sua própria inteligência de conhecer completamente a sua forma. Anjos, portanto, não podem ter alguma coisa como um “inconsciente freudiano”; são completamente cognoscíveis para si mesmos. Mas estudaremos a natureza angelical mais à frente. Por ora, basta sabermos que, sendo inteligentes, e capazes de conhecer o bem, são também capazes de querê-lo, e, neste processo, de alcançar a felicidade. Mas o fato de que são completamente transparentes para si mesmos impede que haja, no anjo, algo análogo à “queda de Adão e Eva”, ou seja, um estado decaído do qual possam ser resgatados. Se optam pelo mal, fazem-no de maneira absoluta e irreversível; nada resta, neles, de incompreensão ou reserva, que pudesse ser resgatado para a felicidade.
Assim, diz o argumento, os anjos que optam pela felicidade verdadeira não partem de um estado decaído, mas de uma natureza íntegra; e por isto, o argumento diz que não se poderia conceber alguma coisa como uma predestinação à felicidade neles, uma vez que a predestinação, segundo o argumento, implica um resgate da miséria à felicidade, e os anjos que alcançam a felicidade não estão sendo, como nós, resgatados da miséria. Ora, se eles são criaturas inteligentes e não há sobre eles nenhuma predestinação, prossegue o argumento, tampouco haveria sentido em haver predestinação para nós, humanos.
O quarto argumento cita um trecho da primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios (2, 12), e que São Paulo diz que “não recebemos o espírito deste mundo, mas o espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons de sua graça”. Desta citação, o argumento retira a ideia de que, se houvesse algo como uma predestinação à felicidade, então os predestinados receberiam do Espírito Santo o conhecimento de que o são. Mas não há tal conhecimento, nem mesmo entre aqueles que nos parecem mais próximos de Deus. Logo, diz o argumento, não há nenhuma predestinação.
Como argumento sed contra, São Tomás coleciona uma citação bíblica que dispensa comentários. Rm 8, 30: “E aos que predestinou, também os chamou.”
Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás, bem como suas respostas aos argumentos objetores iniciais, em nosso próximo texto.
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