Nos textos anteriores, examinamos o debate proposto por São Tomás a respeito da extensão da providência divina, os argumentos colecionados no sentido de que esta providência não pode se estender a todas as coisas e, por fim, a resposta sintetizadora de São Tomás.

Agora examinaremos as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.

A primeira objeção declara que nada do que está previsto é fortuito; resgatando, pois, a experiência comum de que muitas coisas acontecem por caso fortuito e pelo acaso, em nossas vidas, o argumento nega que a providência divina possa dar conta de tudo o que acontece na criação.

Para responder, São Tomás fará uma distinção entre as causas particulares e as causas universais, para afirmar que alguma coisa pode escapar da ação de uma causa particular, mas não pode escapar à ordem de uma causa universal. Ele dá o exemplo de uma tora de madeira a que se ateia fogo: o fogo é causa particular de combustão daquela tora, e a água pode impedir a ação do fogo, apagando-o. Um outro exemplo: alguém pode livrar-se dos efeitos de uma doença gravíssima, utilizando-se de um remédio; mas nem ele, nem o remédio, podem escapar da atuação do tempo, que inevitavelmente levará aquela pessoa à morte e aquela substância que compõe o remédio à corrupção e à decomposição.

Posto isto, São Tomás nos explica que, naquilo que diz respeito à ordem da causalidade particular, pode acontecer o caso fortuito ou o acaso; mas com relação à ordem universal, não é possível que isto aconteça. Por isto, aquilo que, para nós, aparece como um resultado do acaso, e parece escapar de qualquer explicação causal, na verdade nos parece assim porque não temos, naquele momento, pleno conhecimento do plano das causas universais, do qual nada pode escapar. E ele dá o seguinte exemplo: imaginemos que dois empregados da mesma empresa sejam mandados para cumprir uma tarefa num mesmo lugar, sem que um deles tenha conhecimento de que o outro recebeu aquela tarefa. Assim, quando eles se encontrarem lá, a eles parecerá fortuito o encontro, porque nenhum deles deu causa, nem há nenhuma causa evidente para que eles tenham se encontrado. Mas para o gerente da empresa, que sabe das tarefas dadas aos dois, o encontro não tem nada de fortuito. Assim, o acaso nas causas particulares não está excluído da providência divina geral; ao contrário, faz parte integral dela.

O segundo argumento objetor nega a universalidade da providência divina a partir da constatação, também fenomenológica, de que o mal existe na criação. Se podemos constatar que é próprio de um providente sábio afastar as deficiências daquilo que ele rege, a presença do mal na criação parece afastar a ideia de que haja uma providência universal a cargo de um ser perfeito (como Deus).

São Tomás fará, para responder, outra distinção necessária: governar alguma coisa particular é diferente de ter o governo universal da criação. Não se pode simplesmente tomar a experiência de um regente particular e aplicá-la para explicar ou negar o governo universal exercido pela providência divina. De fato, aquele que governa um pequeno aspecto da realidade, ou mesmo aquele que rege algumas coisas, busca sempre eliminar as deficiências, aperfeiçoar os procedimentos, corrigir os defeitos e levar aquilo que governa à maior perfeição possível. Mas aquele que rege universalmente a criação não está submetido às mesmas regras. De fato, no governo universal, é possível que se permita alguma deficiência particular a fim de não impedir o bem do todo. É preciso lembrar, aqui, os debates que nós já fizemos anteriormente a respeito da questão da permissão que Deus dá ao mal. Ela não implica que ele seja causa do mal, nem sequer que ele queira o mal, muito menos que ele não seja capaz de impedi-lo. Trata-se apenas de não impedi-lo, em alguma situação particular, uma vez que se tem o governo pleno da situação geral, da qual nenhum ser particular escapa. Assim, diz São Tomás, muitas vezes a destruição de um espécime é necessária para a geração ou preservação de outro, embora, para aquele que foi destruído, a situação é inegavelmente ruim. Mas neste caso a eliminação de um exemplar envolve o bem da conservação das espécies, e se explica no contexto do governo universal. Não se trata de um mal menor… trata-se do bem maior, que exige que se permita o sacrifício do bem particular, algumas vezes.

E São Tomás nos trará dois exemplos que trazem sutilezas que ele não esclarece aqui, mas que devem ser bem compreendidas no todo da sua exposição, isto é, na arquitetura da nossa catedral que é a Suma. O primeiro exemplo é o do leão, cuja sobrevivência depende da morte das suas presas. Neste caso, o conflito de interesses tem em Deus sua causa indireta, porque o bem das espécies, que está envolvido aqui, tem em Deus a sua causa direta.

O outro exemplo é o dos carrascos que serviram àqueles governantes que, por ódio à fé, martirizaram cristãos. Neste caso, não se pode buscar em deus nem a causa direta, nem mesmo a causa indireta do agir do carrasco. A sua permissão, neste caso, é apenas o não impedimento, capaz de harmonizar tal sofrimento com a bondade num plano mais alto – a profundidade do testemunho de fé e paciência que os mártires nos legam, bem como a glória eterna que recebem em Deus. Tudo isto brota do martírio, e demonstra como Deus somente permite o mal porque é capaz de retirar dele um bem ainda maior, como lembra Santo Agostinho, citado aqui por São Tomás.

São Tomás conclui dizendo que o assunto debatido nestas duas respostas tem que ficar muito bem esclarecido; porque foi exatamente por não conseguir esclarecer estas objeções que muitos preferiram ensinar, equivocadamente, que as coisas contingentes, sujeitas ao acaso e ao mal, não estavam submetidas à providência divina.

A terceira objeção afirma que aquilo que acontece de modo determinado, por necessidade absoluta, não precisa ser guado por de nenhum governo providencial divino. O determinismo natural, a criação vista como um grande mecanismo, são suficientes para dar conta de tudo o que existe no campo do material. A providência ficaria restrita, portanto, ao campo do contingente, isto é, o campo do agir humano, no qual há deliberação e eleição.

São Tomás diz que isto é verdade com relação à prudência humana. A prudência não se estende àquilo que acontece inevitavelmente na natureza. Mas a providência divina não pode ser compreendida por meio de uma mera analogia com a prudência humana; isto seria, digo eu, antropomorfização de Deus. Não se pode admitir que a natureza é apenas um mecanismo, no qual Deus foi necessário para dar o peteleco inicial, mas agora é completamente desnecessário (palavras de Pascal, criticando o mecanicismo de Descartes). O universo, com sua estrutura hilemórfica, não subsistiria nem um minuto se fosse desprovido da atenção amorosa de Deus; já discutimos isto em questões anteriores.

São Tomás esclarece que, por não compreender os aspectos elucidados nesta resposta, alguns subtraíram os acontecimentos naturais da providência divina, citando o caso dos seguidores do modelo atomístico de Demócrito. Que, acrescento eu, é o modelo hegemônico na nossa contemporaneidade.

A quarta objeção é a inversa; Deus exerceria sua providência sobre todos os seres, menos sobre os seres humanos, cuja autonomia deixa entregue à própria sorte. Temos que ter atenção à resposta de São Tomás aqui, porque ela será o fundamento de toda a ética e de toda a política.

São Tomás vai ensinar que o fato de que o ser humano tem, de fato, a liberdade no agir, não exclui o fato de que a providência divina também o atinge. Isto revela simplesmente que, no acaso do agir humano, Deus não determinou que suas potências de agir sejam determinadas por um só termo, como no caso daqueles seres irracionais ou inanimados. No caso dos outros seres, sua natureza determina que suas potências dirijam-se sempre ao mesmo ato e de uma só maneira; pode-se dizer que são guiados desde fora para o seu fim. No caso dos seres racionais, a inteligência permite discernir os fins e o livre arbítrio permite que a pessoa se dirija ao fim por si mesmo, perquirindo, pesquisando, discernindo e elegendo. É neste sentido que as escrituras, na passagem citada, afirmam que o ser humano está entregue ao seu próprio conselho. Deus não criou autômatos humanos; criou seres dotados de livre arbítrio, com todos os riscos que isto implica, e que Deus quis assumir, porque é capaz de guiar sua criação em ordem ao fim determinado de antemão, sintetizando em sua vontade elevadíssima e universal a vontade particular de cada ser livre.

É bom lembrar aqui o princípio estabelecido na resposta à primeira objeção, acima: algo pode escapar à causalidade individual, por força, digamos, do abuso que um ser humano pratica em razão do seu livre arbítrio. Mas de uma maneira ou de outra ele recairá na causalidade universal e primeira de Deus, numa síntese mais elevada, da qual Deus extrairá um bem maior do mal eleito pelo abuso da liberdade humana. Não há concorrência entre a liberdade humana e a divina; elas estão em planos diferentes. Por isto, mesmo os maus, diz São Tomás, não se excluem da providência divina. Deus continua cuidando deles, mantendo-os na existência, corrigindo e punindo com justiça e misericórdia e sintetizando o mal particular que as criaturas inteligentes eventualmente fazem na bondade universal superior do seu agir divino amoroso. Com relação aos que foram justificados em Cristo, diz São Tomás, a providência divina vai além da conservação da existência e da síntese do mal em bem numa esfera superior; Deus efetivamente os protege e garante que, no fim, tudo contribua para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8, 28).

Por não ter conseguido discernir estas realidades, diz São Tomás, é que alguns negaram, seguindo o pensador romano Túlio, que a providência divina alcançasse o agir humano deliberado. É um engano.

Por fim, a quinta objeção cita São Paulo (1 Cor 8, 28), que diz que Deus não cuida dos bois, para concluir que a providência divina não se estende aos seres irracionais ou inanimados. São Tomás admite em parte, mas dá a reta interpretação deste texto: os seres racionais, como nós, em razão do seu agir, têm responsabilidade perante Deus, e por isto são objeto de um cuidado mais especial da providência: Deus não premia nem pune o agir dos irracionais, mas faz isto com suas criaturas inteligentes. É neste sentido que Paulo fala, não para excluir os outros seres da providência, mas para especificar a especialidade da providência com relação á responsabilidade do agir humano. Por não levar em conta estes aspectos, diz São Tomás, é que o Rabi Moisés negou que a providência de Deus chegasse aos indivíduos irracionais ou inanimados, afirmando que, deles, deus cuidava apenas genericamente, mas não individualmente. Ele estava errado, neste particular. Embora a objeção tenha alguma razão, já que a providência de fato alcança os indivíduos inteligentes de um modo especial, em razão do seu mérito e de sua culpa.