No texto anterior, acompanhamos o debate a respeito da extensão da providência divina. Deus cuida e governa todas as coisas? Existe algo como o acaso e o caso fortuito? E a autonomia humana, como se relaciona com a providência divina? E o mal, como poderia estar presente se houvesse uma providência divina de um Deus amantíssimo e perfeito? Qual o sentido de se imaginar que Deus exerce sua providência sobre seres irracionais? São, pois, questões não somente muito importantes, como perfeitamente atuais. Não nos deixemos enganar pela metodologia e pela linguagem de São Tomás, que nos parecem anacrônicas. Ele enfrenta temas que são caros ainda hoje, e dá respostas que são ainda mais valiosas hoje.
Outro ponto digno de nota é que São Tomás não é um metafísico preocupado com abstrações intocáveis, mas pouco atento à concretude da vida. Ao lado dos argumentos propriamente filosóficos, como a questão do mal e da autonomia humana, e dos argumentos teológicos, como o do Livro do Eclesiástico e do Livro da sabedoria, São Tomás apela para a experiência humana cotidiana do acaso, da imperfeição, do caso fortuito, para estabelecer a natureza e a forma da providência divina. Ele não teme enfrentar os argumentos que brotam de todos os lados.
É hora de examinar, portanto, a resposta sintetizadora de São Tomás. Ele inicia pelo exame das posições filosóficas que encontra ao seu redor, que são:
1. Aquela posição nascida do atomismo de Demócrito e do epicurismo. De fato, a posição de Demócrito antecipa as posições do que descrevemos hoje como cientificismo materialista: todas as coisas são formadas de algumas partículas básicas, que se encontram casualmente e eventualmente interagem – e evoluem, acrescentaríamos – para formar e corromper todas as coisas que existem. Se, portanto, a explicação última de todas as coisas, de sua origem e corrupção, de suas qualidades e interações, está na reunião casual de partículas, não há lugar para se falar em nenhum tipo de providência divina.
2. A posição deísta, ou seja, aquela posição que, em nome da preservação da transcendência de Deus, nega a ele qualquer contato com a realidade material, histórica, contingente, colocando-o em relação apenas com as realidades eternas, imutáveis, ou mesmo com os seres não sujeitos à história, como os anjos e as almas dos falecidos. Com relação à história, Deus cuidaria apenas da estrutura geral, do “projeto” da máquina do universo – as ideias, as espécies, as forças que mantêm as coisas andando. O funcionamento da própria criação seria mecânico, automático, independente, portanto, do governo divino direto. Alguns deístas chegam a afirmar que, se Deus é um criador perfeito, ele pode criar um universo que não precise da sua intervenção corretiva para seguir funcionando sozinho como um relógio perfeito. Assim, para estes, Deus não cuida de indivíduos, mas apenas dos “universais”. Alguns que seguem nesta linha, da indiferença de Deus para com a concretude individual, chegam a citar as Escrituras em seu favor (Jó, 22, 14), no trecho em que Elifaz atribui a Jó as seguintes palavras: “As nuvens encobrem-no e impedem-no de ver, quando passeia pela abóbada do céu”.
3. São Tomás recolhe, ainda, a posição do Rabi Moisés Maimônides, que, embora aceite de modo geral a posição deísta, considera que o ser humano, embora corruptível e histórico, é objeto do cuidado providencial de Deus, pela peculiaridade da sua inteligência esplendorosa, que o capacita a considerar as coisas eternas. Mas as outras coisas corruptíveis seriam indignas da providência divina.
O próprio Tomás, porém, reafirma sem hesitar a posição teísta plena, quer dizer, afirma categoricamente que é necessário admitir que todas as coisas estão totalmente sujeitas à providência divina, tanto na sua universalidade, ou seja, como concepções, ideias e espécies, como na sua singularidade material, contingência histórica, enfim, a providência divina se estende completa e infalivelmente a toda a criação. E São Tomás passa a demonstrar esta afirmação.
A argumentação de São Tomás parte da causa final. Como é sabido, na filosofia aristotélica, todo ser carrega em si atualidades e potencialidades, e portanto de certa forma sua existência se protrai no tempo, porque nunca se dá integralmente num determinado momento temporal. A fenomenologia da coisa, diríamos hoje, não esgota suas potencialidades. As potencialidades estão, além disso, inscritas no próprio ser da coisa, em sua forma substancial, e apontam para a perfeição daquilo que a coisa pode ser. Uma semente de feijão aponta para um pé de feijão, e não, digamos, para um pé de milho. Um diamante é capaz de cortar vidro, coisa que um pedaço de carvão não pode fazer. Neste sentido é que São Tomás nos diz que “todo agente age para um fim”, quer dizer, não há causalidade eficiente cega, na natureza. Diferentemente do que se pensa, em certa filosofia anti-aristotélica popular, não existe aqui a afirmação de que as coisas, notadamente aquelas inanimadas, têm a consciência de perseguir um fim, quando interagem de modo eficaz com outras coisas, produzindo efeitos. Trata-se simplesmente de reconhecer que as causas eficientes apontam para um fim e não para outro. Uma pedra de gelo não pode incendiar madeira, uma tocha não vai congelar a água. Pode-se dizer, portanto, que, sendo causa eficiente do resfriamento de algum líquido, o gelo tem por fim resfriar, e não aquecer.
Mas uma vez que os fins para os quais apontam as potências das coisas nunca se dão fenomenologicamente de forma completa, mas sempre provocam os mesmos resultados quando acontecem de modo homogêneo (como o gelo que resfria e a tocha que aquece), é necessário admitir que este direcionamento do poder causal das coisas não é casual, mas ordenado.
É neste momento que São Tomás introduz a noção de “agente primeiro”. De fato, quando alguma coisa acontece, podemos acompanhar o desenvolvimento da causalidade eficiente até o seu fim, como acontece quando colocamos um gelo na água: vemo-lo derreter paulatinamente, enquanto a água em volta se resfria. Sua causa eficiente de resfriamento prossegue até o seu total derretimento, que marca o limite da sua capacidade de resfriar a água ao seu redor. Se, no momento mesmo que o gelo acaba de derreter dentro do copo, a água que estava ali não estiver mais fria, podemos ter certeza de que alguma outra coisa impediu o resfriamento, por exemplo, alguma fonte de calor fora do copo o aqueceu.
Mas tudo o que existe na criação obteve o seu ser de Deus, e, como vimos, o seu ser não se limita ao que é dado fenomenologicamente num dado momento, mas tudo o que está inscrito naquele ser como ato e como potencialidade. Tudo isto faz parte do ser da coisa, que ela recebeu inteiramente de Deus.
Isto significa que, se admitirmos que a providência de Deus não se estende a tudo quanto existe, em todas as suas relações, em toda a sua causalidade eficiente e final, então teríamos que admitir que alguma outra coisa pode ser fonte do ser das coisas, além de Deus, e é capaz de alterar ou impedir o livre agir de Deus. Mas não há nada assim. Deus é o único princípio do ser, tanto das atualidades quanto das potencialidades, portanto não há nenhuma ordenação a um fim, na criação, que não tenha sua origem primeira em Deus. Tanto os universais, que existem sempre como ideias numa mente qualquer, quanto as coisas particulares, contingentes e temporais, como nós próprios. Tudo aquilo que é, é ordenado por Deus a um fim, e é exatamente esta a definição de providência divina. E neste ponto, São Tomás traz uma citação da carta aos Romanos, que diz (13, 1): não há autoridade que não venha de Deus, e todas as que existem foram estabelecidas por ele.
Assim, mesmo aquelas coisas que têm a capacidade de alterar a causalidade eficiente natural de outras, de modo a impedi-las de alcançar seu fim natural ou levá-las a um fim diverso, como somos nós humanos, através do nosso livre arbítrio, também receberam seu próprio ser de Deus, e por isto também têm sua ordenação ao fim estabelecida por Deus. Nem os nossos atos deliberados escapam da ordem da providência divina; de que modo isto acontece, veremos adiante. Por enquanto, ficamos com a conclusão de São Tomás: as coisas têm de ordenação a um fim tanto quanto têm de ser; tudo o que é, está ordenado substancialmente a um fim; e recebeu de Deus, na mesma medida, o seu ser e a sua ordenação ao fim.
Ouso acrescentar que esta conclusão tem importantes reflexos éticos; de fato, diferentemente da moral e do direito contemporâneos, que são vistos como o ordenamento externo de seres que são, em si mesmos, neutros quanto ao bem, para São Tomás o ser e o bem têm total identidade entre si – o bem é o ser ordenado ao fim, e esta ordem é estabelecida na própria criação por Deus; ser e bem têm a mesma extensão. Diferem, somente, quanto à razão: o bem é o ser que consuma em si a plenitude de sua ordenação ao fim. Esta é a chamada “doutrina do ser e seus transcendentais”.
Estes temas todos são muito profundo, e serão a cada vez retomados e aprofundados por São Tomás.
No próximo texto veremos as respostas às objeções iniciais.
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