Neste artigo, São Tomás propõe um debate que, mesmo na época dele, já era muito agudo, e encontrava posições muito diversas entre aqueles que defendiam várias visões da natureza. Havia os que negavam completamente a providência, diante da realidade do mal. Havia os que, com Demócrito, defendiam uma natureza totalmente entregue ao acaso, em seres que se formavam pelo encontro fortuito das partículas fundamentais de matéria – posição que, parece-me, voltou a ser predominante em nossos tempos. Havia, ainda, os que concebiam a providência como o governo da natureza, fazendo-a incidir naqueles casos em que a natureza se encaminha necessariamente a um só fim – aquilo que chamamos hoje de “forças naturais”. Assim, em última instância, Deus seria responsável pelas forças da natureza como a gravidade, a força eletromagnética ou até mesmo a programação inserida nos genomas dos seres vivos; mas ele não se intrometeria no campo daquilo que é fortuito, como o encontro entre predador e presa numa floresta, ou mesmo no campo do livre arbítrio humano. Por fim, havia os que enxergavam as inter-relações naturais e as forças básicas da natureza como uma espécie de “mecanismo automático”, reservando a providência divina exatamente para o campo dos acontecimentos contingentes e da liberdade humana.

São Tomás quer provocar o debate sobre esta questão tão fundamental e estruturante. Em todo caso, precisaremos enfrentá-la sempre com a lembrança de que a Suma e uma grande construção, uma bela catedral medieval, e não alguma enciclopédia caótica de saberes acidentalmente reunidos. É preciso ter em conta todos os princípios já estabelecidos por São Tomás nas questões anteriores, a fim de perceber a elegância e a precisão das soluções que ele propõe agora. São, além disso, posições que são perfeitamente conciliáveis com a ciência que temos hoje – aliás, talvez mais capaz de dar razão dela do que a própria filosofia que alegadamente a fundamenta.

A hipótese controvertida inicial, que provocará o debate, é a de que parece que nem todas as coisas estão sujeitos à providência divina. Como conciliar liberdade, necessidade, contingência, o mal natural, a imperfeição, a precisão das forças naturais, tudo isto por um lado, com a providência bondosa de um ser perfeitíssimo que governasse a criação inteira, por outro? Não é uma tarefa fácil, e não é a toa que o artigo é tão longo. Há, aqui, cinco argumentos objetores bem fortes, para apresentar as dificuldades desta reconciliação e apoiar a hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento afirma que não se poderia admitir que alguma coisa que está entregue à providência divina estivesse sujeito, ao mesmo tempo, ao acaso e ao caso fortuito. A providência divina implicaria que Deus já tivesse previsto e determinado todas as coisas. Mas é uma experiência comum, diz o argumento, que o acaso e o acontecimento fortuito existem. Logo, o argumento conclui que, embora possamos até admitir que Deus pudesse exercer sua providência sobre as regularidades naturais, certamente esta providência não poderia estender-se àquilo que está sujeito a acasos e acontecimentos fortuitos.

O segundo argumento é o velho argumento da existência do mal. Se Deus é o governante perfeito e providente de todas as coisas, ele necessariamente excluiria delas todo o mal. Mas testemunhar o mal na criação é uma experiência cotidiana para todos nós, lembra o argumento. Logo, ou Deus não pode ou não quer impedir o mal; logo, diz o argumento, se admitirmos que sua providência chega a todas as coisas, teríamos que admitir que ele não é onipotente. Ou, continua o argumento, se afirmarmos que ele é onipotente, teríamos que concluir que sua providência não chega a todas as coisas.

O terceiro argumento diz que a providência não precisa chegar ali onde não há contingência, ou seja, nas coisas que, por força de sua natureza, só podem ocorrer de uma única maneira. Assim, se as coisas sofrem a gravidade, não é necessário pleitear uma providência divina para a força gravitacional. Esta é uma objeção mecanicista, vale dizer, que vê a estrutura do universo como um grande relógio que já não precisa do relojoeiro. E o argumento conclui que somente seria necessário pensar em providência divina ali no campo do fortuito, do contingente, naquelas coisas que podem ocorrer de várias maneiras, nas quais se pode falar em escolha e discernimento. Portanto, o argumento conclui que a providência divina não se estende a toda a criação.

O quarto argumento traz uma citação das Escrituras (Livro do Eclesiástico, 15, 14, texto muitas vezes citado em apoio à noção de livre arbítrio), “Desde o princípio ele criou o homem e o abandonou nas mãos de sua própria decisão”. E o argumento parte do princípio de que aquele que está entregue às suas próprias mãos não depende da providência de nenhum governante. Este argumento, portanto, tem um forte sabor kantiano, uns quinhentos anos antes que o próprio Kant existisse. Em suma, o argumento lê este versículo no sentido de que a autonomia é uma característica humana natural, é parte dos planos de Deus para o homem, e que, portanto, aquilo que cai no âmbito reservado à autonomia não pode estar sujeito à providência divina. Quer dizer, o que está submetido à autonomia humana escapa da providência divina, porque a noção de que o próprio Deus criou a autonomia humana se opõe, segundo o argumento, à noção de que ele exerça alguma providência neste campo. Assim, o argumento diz que a providência divina não se estende até o campo da autonomia humana, e que, portanto, ela não se estende a todas as coisas. Este é um argumento profético e muito importante para a nossa contemporaneidade, porque poderia ser subscrito por muitos de nós hoje.

Por fim, o quinto argumento cita a primeira Carta aos Coríntios, (9, 9), no versículo em que São Paulo afirma: “Acaso Deus se preocupa com os bois?”. Desta citação, o argumento diz que a providência divina não se ocupa de bois, nem dos outros seres irracionais; logo, diz o argumento, ela não chega a todas as coisas.

O argumento sed contra cita o Livro da Sabedoria (8, 1) diz que a sabedoria “se estende com vigor de um extremo ao outro do mundo e governa o universo com bondade”; vale dizer, a providência amantíssima e poderosa de Deus se ocupa de todas as coisas criadas.

Posto o debate, veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.