Pensar em providência divina não é pensar em fatalismo, em determinação irresistível e rígida dos acontecimentos por Deus; ao contrário, é mergulhar no mistério daquele que, de fora do tempo, guia a criação nos caminhos do amor, por meios que não são claros para nós. De fato, muitas vezes na história fomos tentados a imaginar que Deus não liga para o mundo, ou para os acontecimentos, ou que simplesmente não é bom. Exatamente este estado de espírito, que nega a providência de um Deus bom, talvez explique o espírito de pessimismo que domina nossos tempos.
Para São Tomás, não era difícil conciliar a maravilhosa providência divina com a liberdade humana e a consistência do criado; Deus é amor, e o poder de Deus se manifesta no amor. A sua transcendência explica como ele pode ao mesmo tempo guiar infalivelmente a história e ao mesmo tempo não ser ameaçado pela consistência do universo e pela liberdade humana. Não há oposição entre o poder infinito de Deus, eterno, transcendente e amoroso, e a consistência causal do universo, em especial a liberdade humana. Mas este é assunto para o próximo artigo.
Aqui, é a partir do amor que São Tomás começa a responder. Deus é fonte de todas as coisas, ou seja, tudo aquilo que nas coisas é um bem vem de Deus. É preciso lembrar que, na filosofia escolástica, o bem não é uma qualidade, alguma coisa que se acrescenta ao ser das coisas – como é a nossa noção hodierna de “valor”. Lembrando, portanto, a doutrina dos transcendentais do ser, que já discutimos quando debatemos os artigos da questão seis, precisamos reafirmar que o bem não é um mero “valor”, mas o próprio ser, sob a razão da relação com uma vontade. Ou seja, tudo o que é, tendo sido pensado e querido por Deus, é um bem, simplesmente por ser.
Mas aquilo que a coisa é, faticamente, num determinado momento histórico, ou seja, aquilo que se manifesta da coisa num determinado momento, não esgota o próprio ser da coisa. Tudo o que existe como criatura necessariamente existe como um composto de ato e potência, vale dizer, não manifestou ainda todas as perfeições para as quais o seu ser aponta. Por isto, São Tomás explica que o bem das coisas não se esgota na sua substância, mas também no fato de que todas as coisas apontam para um fim além delas mesmas, ou seja, apontam para desenvolver todas as perfeições contidas potencialmente na sua essência. E, como vimos quando debatemos a quinta via de São Tomás, na questão dois, todas as perfeições das coisas estão primeiramente em Deus. Por isto, Deus é a origem última de todas as criaturas, por sua bondade (já que foi por um ato de vontade, gratuito, um ato de absoluta bondade, que as coisas foram criadas e existem) e, por esta mesma bondade, é seu fim último, porque a ele se ordenam, em última análise, todas as potências, já que ele guarda em si todas as perfeições. Portanto, Deus, por sua bondade, explica não somente a bondade atual, substancial das coisas, como também explica a sua ordem interna, o fato de que todas as coisas apontam para um fim, sua própria perfeição, que é, em última análise, o próprio Deus.
E São Tomás conclui: se Deus é causa da existência das coisas, tanto quanto é causa do fato de ordenarem-se ao fim, então guarda em si não somente a razão da bondade substancial das coisas, mas também a razão da ordem das coisas para o fim, que necessariamente deve existir primeiro na mente divina para que possa existir na criação (a palavra “primeiro”, aqui, está sendo usada no sentido lógico, não no sentido cronológico. Em Deus não há tempo, mas posse completa da simultaneidade).
Ora, São Tomás nos lembra que a providência consiste exatamente em ordenar as coisas adequadamente para o fim, ou seja, para a perfeição. Ele destaca que a virtude da prudência, em nós, pode ser definida como possuindo três elementos: 1) a capacidade de lembrar das coisas passadas e 2) a capacidade de discernir sobre as coisas presentes, de modo a 3) poder ordenar as coisas para o futuro.
Em nós, lembra Tomás, a virtude da prudência tem duas dimensões: 1) descreve a nossa capacidade de ordenarmo-nos, ou seja, conduzirmo-nos nós mesmos para o fim – e aquele que é capaz de encaminhar-se a si próprio livremente para o fim é chamado de “prudente”; e 2) descreve a capacidade de ordenar as outras coisas, das quais temos o governo. Assim, é chamado prudente aquele que administra bem os seus negócios, a sua família, participa adequadamente da condução da cidade ou mesmo insere-se responsavelmente no aperfeiçoamento do mundo. E São Tomás lembra que é neste sentido que o evangelista Mateus diz que aquele que o Senhor constituiu para administrar a criadagem deve ser um “servo fiel e prudente” (Mt 24, 45).
Aquele sentido da prudência que diz respeito à condução da sua própria pessoa à perfeição não se aplica a Deus. Ele é a perfeição plena, o fim último, não se pode falar, portanto, que de qualquer maneira ele se dirija a um fim. Deus não passa por nenhum processo hegeliano de aperfeiçoamento dialético, ou por algum processo panteísta de evolução. Ele simplesmente é, e é de modo pleno tudo o que há em si mesmo para ser. Neste sentido, do autoaperfeiçoamento, seria inconveniente atribuir a Deus a virtude da prudência.
Mas quanto ao governo de todas as coisas para o fim, e que se chama propriamente de “providência”, ela encontra seu sentido primeiro no governo que Deus tem da criação. A providência divina é a razão da ordem de todos os seres para o seu fim, que preexiste em Deus. É por isto que São Tomás cita, aqui, Boécio, que registra que a providência divina é a própria razão divina, que, constituída como parte do próprio ser de Deus que é o soberano regente da criação, dispõe de todas as coisas. Para compreender isto muito bem, registre-se, temos que lembrar que Deus não existe na história, mas na eternidade, e que, portanto, não se submete à sucessão dos acontecimentos, na sua maravilhosa providência. Respeita, no entanto, a consistência do tempo, na sua maravilhosa providência, mas não está submetido a ele.
E São Tomás dá uma última palavra, sobre o trecho em que Boécio diz que Deus, em sua providência, dispõe de todas as coisas. Esta disposição, diz São Tomás, tanto se manifesta como ordem das coisas para o fim, como já vimos, como também se manifesta como ordem das partes para o todo. Poderíamos concluir, portanto, que Deus tem o governo, digamos, “horizontal” da criação, mantendo a cada momento a sua unidade interna, quanto o seu governo “vertical”, conduzindo-a ao seu fim – que é, afinal, ele mesmo.
Havendo, pois, registrado sua síntese, São Tomás vai enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que a providência é parte da virtude da prudência, e envolve a capacidade de deliberar bem. Mas deliberar envolve esclarecer-se de modo a eliminar dúvidas, e Deus não tem dúvidas nem passa pelo movimento de esclarecimento, porque já é perfeito em sabedoria. Assim, segundo este argumento, não se poderia dizer que Deus é providente.
São Tomás nos dá, agora, uma breve aula sobre a virtude humana da prudência – que estudaremos mais profundamente na parte I-II da Suma, e especificamente na questão 47 da parte II-II, se Deus quiser. Por agora, São Tomás esclarece que a prudência é a virtude de determinar-se concretamente de modo adequado com aquilo que a reta vontade (eubulia) aconselha e a perspicácia (sínese) discerne. E São Tomás explica que, embora de fato Deus não delibere (no sentido de tomar decisões entre coisas que lhe seriam duvidosas), mas ele é quem elege e prescreve sobre tudo o que deve ser ordenado ao fim, e tem em si as razões retas desta mesma ordenação. E São Tomás lembra que as escrituras revelam que Deus “estabeleceu uma lei que jamais passará” (Salmo 148, 6). Como veremos adiante, a providência divina se consubstancia na lei eterna, que não é um mero ato de poder, mas uma ordenação de razão. Neste ponto, São Tomás tem uma teoria legal muito distante das teorias que conhecemos hoje em dia. A lei, para Tomás, é um ato de providência que permite a ordenação prudente das vontades e das potências, e não um ato de autoridade incondicionada, de arbítrio prepotente.
Neste sentido, Tomás completa que a ordem, que é o próprio conteúdo da lei providente de Deus, pode ser chamada de “conselho”, não porque represente o discernimento em meio a dúvidas, mas porque representa a medida certa da vontade divina. A vontade de Deus, ainda que possa ser chamada de onipotente, não é arbitrária, mas harmoniza-se perfeitamente com a onisciência divina, ou seja, tem a justa medida na sua inteligência. É por isto, diz Tomás, que as Escrituras nos revelam que Deus faz tudo “segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1, 11).
A segunda objeção lembra que tudo o que há em Deus é eterno, mas a providência seria necessariamente histórica, contingente, temporal, portanto inadequada para Deus. É a objeção deísta, ou seja, que nega qualquer possibilidade de relação entre a transcendência de Deus e a contingência criada. São Tomás responderá bruscamente que falar de providência é falar das razões eternas que ordenam a criação, e que estão na inteligência divina eternamente. São Tomás denuncia que a objeção confunde a providência divina, que é eterna, com o governo da criação, que é histórico, contingente e temporal. Do governo da criação São tomás falará no artigo 3 desta mesma questão. Mas, aqui, ele simplesmente descarta a objeção provando que a providência, sendo eterna por definição, não pode ser considerada como incompatível com a natureza eterna de Deus, muito ao contrário.
A terceira objeção, por fim, nega que se possa falar de uma providência divina porque, uma vez que a providência se relaciona com a prudência, e esta envolve a vontade e o intelecto, a noção de providência necessariamente é composta, pois envolve aspectos intelectuais e volitivos do sujeito. Uma vez que Deus é simples, nenhuma noção composta seria, segundo o argumento, adequada a ele.
São Tomás dá mais uma pequena lição de ética das virtudes. Ele nos explica que, de fato, a providência é uma realidade propriamente intelectual, quer dizer, encontra-se no intelecto, mas pressupõe a eleição do fim, que é própria da vontade. Ninguém pode ordenar as coisas para o fim se não houver um fim; quem ordena é o intelecto, mas quem elege e põe o fim é a vontade. É por isto, diz São Tomás, que a prudência pressupõe que a vontade seja reta, ou seja, que o apetite busque ordenadamente o bem. Mas, quanto a Deus, esta riqueza da estrutura interna da prudência não exclui que se possa atribuir-lhe propriamente a providência – mesmo porque, ainda que envolva a inteligência e a vontade, isto não implicaria, em Deus, nenhuma composição – já que, em Deus, a inteligência e a vontade são uma coisa só.
No próximo artigo São Tomás tratará da universalidade da providência divina – ou seja, da relação entre a providência, o acaso e o mal que há no mundo. Temas interessantíssimos, portanto.
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