Até a questão 21, estávamos debatendo as operações divinas relacionadas com a vontade de Deus, especificamente seu amor, sua justiça e sua misericórdia; agora, debateremos aquelas operações em que a vontade e o intelecto estão envolvidos, e em especial, neste artigo, a providência divina. Fazendo uma analogia entre as operações de Deus e as virtudes humanas, São Tomás nos explica que a providência, em Deus, guarda analogia com a prudência, em nós. Se em nós a prudência é aquela virtude que envolve o intelecto e a vontade, e nos capacita a discernir e agir da forma mais conveniente em cada caso concreto, e providência divina vai, é claro, muito além; concerne à própria maneira com que Deus rege a sua criação. A providência, portanto, é a operação virtuosa de governo universal da criação, exercido por Deus.

Mas em que sentido se poderia dizer que Deus rege a criação? E em que sentido poderíamos dizer que ele o faz providencialmente? A nossa experiência cotidiana parece indicar o contrário, que o cosmos vive de acaso e não revela nenhuma providência amorosa, mas a crueldade da cegueira. Perdemos, hoje, aquele espírito otimista que se revela tão naturalmente em São Tomás, e podemos dizer que, de certa forma, somos pessimistas profundos quanto a identificar algum tipo de providência transcendente que governa a natureza. E criamos um Estado, uma estrutura impessoal e soberana em sua onipotência, que se propõe a constituir-se em providência universal, regulando e gerenciando tudo, desde os ciclos da natureza até a concepção humana, desde a narração do passado até a consumação do futuro. De certa forma, o estado se apresenta como as divindades gregas: conceitualmente divino, a sua operação não corresponde à sua propalada divindade, e quase sempre se constitui numa mistura de desastres e crueldade. Perdemos a fé em Deus, de certo modo perdemos também a fé no Estado e, no entanto, não conseguimos vislumbrar nenhuma outra instância providencial para cuidar de nós.

Como São Tomás via esta situação? Ele não conheceu nenhuma estrutura parecida com o Estado de hoje e suas pretensões; portanto, a questão da providência divina era muito mais aguda para ele do que é para nós. É por isto, pela importância do tema numa realidade em que não há uma estrutura humana que reclama para si a providência universal como nossos Estados contemporâneos, que é essencial discutir a providência divina. E especialmente porque, conhecendo-a, podemos compreender melhor as pretensões do Estado moderno e criticá-las.

A hipótese controvertida proposta aqui por São Tomás é a de que a noção de providência não é adequada a Deus. Em suma, o debate proposto é o de saber se Deus exerce a providência da criação.

São Tomás vai juntar três argumentos objetores, no sentido da hipótese inicial, que tentam provar que Deus não exerce a providência na criação.

O primeiro argumento entra na teoria das virtudes, fazendo a analogia entre a prudência, em nós, e a providência, em Deus. Citando o escritor romano Túlio, o argumento nos diz que a providência é parte da virtude da prudência. Mas se a prudência consiste em discernir o bem, ou seja, orientar-se a ele, então não seria nada adequado, diz o argumento, imaginar que Deus pudesse ter dúvidas de orientação, ou mesmo necessidade de algum discernimento, como se precisasse de uma virtude capaz de aconselhá-lo no sentido do bem. Assim, o argumento conclui que não se pode falar de uma “providência”, em Deus.

O segundo argumento parte da noção de que tudo em Deus é eterno. Portanto, diz o argumento, uma vez que somente se poderia falar em “providência” com relação à criação, vale dizer, a seres não eternos, contingentes, imperfeitos, então a própria providência seria algo não eterno, mas profundamente envolvido na história. Disto, o argumento tira a conclusão (deísta) de que não é próprio falar de uma providência divina. Ou seja, Deus não se envolve com sua criação; fica lá na sua eternidade, alheio ao que acontece “aqui embaixo”. Esta concepção, de um Deus sem contato com a criação, é chamada de “concepção deísta” de Deus, em oposição à concepção teísta, que diz que a criação está aberta a uma relação permanente com Deus, que a criou, conserva e dirige ao seu fim; há. Além disso, a concepção ateísta, que nega simplesmente que Deus sequer exista. O presente argumento adota, com relação à providência, a concepção deísta, negando que ela seja sequer conceitualmente pensável.

O terceiro argumento diz que a providência necessariamente envolveria dois elementos, um elemento de inteligência, capaz de discernir e projetar, e um elemento de vontade, capaz de eleger e realizar. Seria, pois, uma noção composta. Mas Deus é a simplicidade por excelência, e não pode haver nele nenhuma composição. Portanto, aplicar a noção de providência a Deus seria totalmente inadequado, conclui o argumento.

No sentido contrário, São Tomás coleciona um argumento bíblico; é uma citação do Livro da Sabedoria de Salomão, que diz, em 15, 1-3, que Deus governa o universo com sua providência benigna.

Veremos no próximo texto a resposta sintetizadora de São Tomás.