No texto passado, vimos um pouco sobre a hipótese proposta por São Tomás para provocar o debate: parece que as obras de Deus não são simultaneamente justas e misericordiosas. E ele colecionou quatro argumentos neste sentido, e em seguida juntou uma citação bíblica no sentido contrário.

O que vai nos surpreender aqui não é tanto o fato de que a misericórdia e a justiça são inseparáveis, no agir de Deus. Sabemos que é uma característica estritamente humana este agir fracionado, esta justiça dura, esta necessidade de deixar bem claro o momento da retribuição, da punição, por um lado, e da generosidade, da misericórdia, do outro. Em Deus as coisas não são assim, e se estamos dispostos a evitar qualquer tipo de projeção antropomórfica sobre Deus então devemos estar prontos a perceber e nos alegrar com aquilo que é especificamente divino, e muito diferente nele do que é em nós. O problema é que, muitas vezes, descobrimos que esta diferença não só torna Deus muito melhor do que jamais sonhamos, como também torna-o muito melhor para nós do que jamais esperaríamos. Estamos dispostos a acreditar em algo que ultrapassa as nossas expectativas mais otimistas? Fomos treinados, na nossa contemporaneidade, a desconfiar daquilo que ultrapassa para melhor as nossas próprias expectativas, imaginando que, neste caso, trata-se de uma projeção da nossa própria vontade, e não de Deus em si mesmo. Mas jamais poderíamos projetar aquilo que supera mesmo os nossos sonhos mais delirantes, em termos de bondade.

O que nos surpreende é que São Tomás afirme que a misericórdia, em deus, é mais fundamental que a Justiça. De fato, esperaríamos que a misericórdia fosse aquilo que superasse a justiça, aquilo que abunda depois que a justiça se realiza plenamente. Não é assim, como nos mostrará São Tomás. Em Deus, a misericórdia é mais fundamental que a Justiça – porque Deus é amor, e tudo se funda antes em sua bondade do que em sua equidade. Mas deixemos de digressões.

Nas objeções, vimos como parece claro que, mesmo em Deus, aquilo que diz respeito à sua justiça é diverso daquilo que diz respeito à sua misericórdia; no argumento sed contra, porém, São Tomás nos mostra que, conforme a Revelação cristã, pode não ser bem assim. E é esta linha que ele seguirá agora, em sua resposta sintetizadora.

São Tomás já começa afirmando que em toda obra de Deus apresentam-se inseparavelmente a verdade e a misericórdia. De fato, esperaríamos que São Tomás dissesse que a justiça e a misericórdia apresentam-se inseparavelmente, mas ele traz, aqui, em vez de justiça, a verdade. E faz sentido: Deus não é misericordioso pela mentira, como um pai complacente que se negasse a encarar os fatos para não ter que tomar atitudes enérgicas a respeito dos filhos. A misericórdia de Deus não consiste em fazer vistas grossas, em ocultar, em ignorar a transparência dos fatos, em distorcer as coisas. Consiste, isto sim, em levar plenamente em conta a verdade na hora de distribuir o amor, seja na medida da justiça, seja na medida da misericórdia.

Para começar a responder com clareza, São Tomás vai em busca da noção adequada de miséria – j[a que a misericórdia consiste em remediar a miséria. O que é exatamente a miséria? É um defeito, mas não qualquer defeito, diz São Tomás. A miséria é uma espécie do gênero “defeito”, e se especifica por ser um defeito próprio dos seres que têm uma natureza racional. Por que? Porque a miséria se define como “o oposto da felicidade”; e somente os seres racionais são propriamente capazes de felicidade. Esta noção tem consequências ontológicas, e especialmente consequências éticas, importantíssimas; uma vez que a felicidade é o fim último do ser humano, a miséria é o defeito por excelência, ou seja, a frustração deste fim último. Um miserável é o oposto de um bem-aventurado.

É necessário, dizia São Tomás, que em toda obra de Deus haja simultaneamente verdade e misericórdia; e ele nos dará agora as razões para esta necessidade.

Quando há um débito a ser pago, decorrente da justiça divina, este débito pode dizer respeito ao próprio Deus ou a alguma criatura. Ou seja, em razão da justiça divina, algo pode ser devido a Deus ou a alguma criatura. Em qualquer das duas hipóteses, seja quando se relaciona consigo mesmo, seja quando se relaciona com as suas criaturas, nenhuma obra divina pode desconsiderar a justiça. De fato, não seria digno de Deus agir de uma maneira que não fosse inteiramente sábio e inteiramente bom, e por isto ele jamais poderia ser injusto para consigo mesmo; se ele é a própria sabedoria e bondade por essência, e por outro lado, agisse sem sabedoria e sem bondade, seria injusto consigo mesmo, porque não daria a si mesmo o que lhe é devido. Por outro lado, todo o seu agir com relação às criaturas é pleno de ordem e de proporção, ou seja, é pleno de justiça. Assim, necessariamente há justiça em tudo o que Deus faz.

E quanto à misericórdia? É exatamente aí que esperaríamos ver São Tomás dizer que, uma vez atendida a justiça em toda a sua verdade, Deus poderia se derramar em misericórdia para com a miséria de suas criaturas. Ou seja, esperaríamos que ele colocasse a justiça como uma dimensão mais fundamental, no agir de Deus, do que a misericórdia. É assim, por exemplo, com relação à atividade estatal – esperamos do Estado que seja justo antes que misericordioso. Mas em Deus não é assim, diz São Tomás. De fato, a justiça pressupõe algum critério de equidade que lhe seja anterior, e este critério, por sua vez, pressupõe algum fundamento que lhe seja anterior. Este fundamento, por sua vez, não pode deixar de ser justo, mas para ser justo é preciso que esteja conforme a um critério externo, anterior, pelo qual possa ser medido. Ou seja, esta é uma situação em que o regresso pode ir ao infinito, e há, portanto, a necessidade de um fundamento último que detenha a sequência. E este fundamento último é simplesmente a bondade de Deus, que se define como amor exatamente porque a sua bondade precede logicamente a sua justiça (lembremo-nos de que a precedência lógica decorre da precedência ontológica e não de alguma precedência cronológica. Deus não está sujeito ao tempo).

Para ficar mais claro, São Tomás nos dá um exemplo: Tomemos o caso do ser humano. Se o ser humano é simultaneamente um ser racional, criativo e material, é justo que ele tenha órgãos como as mãos, que lhe permitem relacionar-se criativamente com as coisas. Assim, a existência de mãos é uma resposta de justiça que Deus faz à sua criatura, e decorre da proporção entre inteligência, a criatividade e a materialidade, características propriamente humanas. Mas quanto ao próprio ser humano, não é por um imperativo de justiça que ele existe, mas por um ato de pura bondade de Deus. A existência em si não decorre de justiça, como se alguém pudesse reclamar a Deus sua própria existência. A existência de uma criação, fundamentada naquele primeiro ato de retirá-la do nada, é pura bondade. É por isto, diz São Tomás, que podemos afirmar que a misericórdia se manifesta radicalmente em todas as obras de Deus: chamando a criação do nada, ele a destina essencialmente à felicidade, aceitando, porém, que a criatura racional venha a desviar-se dela e perder-se – este é o preço da liberdade, que é, por outro lado, fundamento de qualquer resposta de amor.

A força desta misericórdia, diz São Tomás, alcança tudo o que vem em razão deste ato fundamental de criação, esse dom gratuito e fundamental de bondade que é o existir. É por isto, diz São Tomás, por ser mais fundamental, que a misericórdia é mais abundante, mais veemente na obra de Deus do que a própria justiça. Sim, porque, em razão desta bondade fundamental, Deus sempre proporciona à sua criatura muito mais do que seria estritamente devido a ela, ou seja, mais do que exigiria a mera proporção criatural. Para conservar a simples ordem da justiça, seria necessário que Deus distribuísse muito menos do que o que ele efetivamente distribui. E se ele distribui muito mais, é porque visa conservar a ordem da bondade, que a um só tempo é mais fundamental e excede em muito a ordem da estrita justiça. Deus não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas, diz o salmo 103 (102), 10. Não seria isto o que também nós deveríamos fazer para com os nossos semelhantes?

Colocados estes fundamentos, São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira objeção diz que a justiça se manifesta sem misericórdia na eventual condenação dos ímpios, e a misericórdia independentemente da justiça, na sua eventual justificação. São Tomás explica que não é bem assim; de fato, diz ele, é possível atribuir a certas obras de Deus, predominantemente, a justiça, e atribuir a outras principalmente a misericórdia, No entanto, mesmo na punição aos condenados, diz São Tomás, embora a dimensão da justiça seja mais evidente, a sua misericórdia se manifesta porque, embora não sejam gratuitamente perdoados, não são punidos em proporção à sua culpa, e suas penas justamente devidas são misericordiosamente aliviadas, como nos lembra o salmo que citamos acima. Quanto à justificação, Deus perdoa os pecados por causa do amor manifestado na criatura, que ele mesmo infundiu previamente. E São Tomás lembra do caso da pecadora do evangelho (Lc 7, 47, que a tradição São Tomás conheceu identifica com Maria Madalena), a quem, por demonstrar muito amor, muito foi perdoado. Há, portanto, de uma forma inesperada, proporção justa entre o perdão e o amor, nos redimidos.

A segunda objeção cita a Carta aos Romanos para afirmar que a Revelação nos garante que a conversão dos judeus é obra da justiça divina, mas a dos gentios é obra de pura misericórdia. Lembrando o mesmo princípio da resposta anterior, São Tomás nos lembra que, em ambos os casos, tanto a justiça quanto a misericórdia se manifestam. No caso dos judeus, porém, a justiça pode nos ficar mais evidente por causa das promessas aos Patriarcas – que acrescenta ao seu caso um aspecto de justiça mais evidente do que no caso dos gentios, que não tiveram tais promessas explícitas.

A terceira objeção ressalta que muitos justos sofrem muito neste mundo, o que parece evidenciar que este sofrimento é desproporcional, e, portanto, injusto. São Tomás nos ensina que o sofrimento do justo neste mundo manifesta também a justiça e a misericórdia de Deus, não somente porque expiam quaisquer pecados e faltas mais leves que eles ainda cometam, quanto porque os separa dos prazeres e gozos mundanos e os eleva a Deus; citando São Gregório, ele nos ensina que “os males que nos afligem neste mundo nos dirigem até vós”. Acrescentaríamos que muitas vezes o sofrimento dos santos é oferecido a deus pelos pecadores, como aconteceu com a nossa redenção em Jesus e continua acontecendo com o tesouro de merecimentos dos santos, que a Igreja custodia e distribui pelas indulgências; este é mais um aspecto maravilhoso, acrescento, da comunhão dos santos, que implica a comunhão dos sofrimentos, também. Mas eu estou me adiantando a Tomás – paro por aqui.

Por fim, a quarta objeção registra que não se pode falar de justiça na criação, porque tirar as coisas do nada é um ato de pura misericórdia – não haveria nada antes ao qual se pudesse fazer justiça.

De certo modo, São Tomás já deu esta mesma resposta acima. Mas agora ele terá oportunidade de matizá-la de modo brilhante. Ele começa reconhecendo que a criação não pressupõe nada, ou seja, ela é de fato um ato de tirar do nada a existência. E neste sentido o argumento tem razão: não se pode falar em justiça para com as criaturas, no ato da criação, se as criaturas nem existiam antes de serem criadas. No entanto, há, mesmo aí, uma dimensão de justiça divina, de Deus para consigo mesmo, porque, embora a criação ex nihilo não pressuponha nada na ordem da existência, ela pressupõe a concepção inteligente das coisas na mente divina, e a respectiva eleição na sua bondade. É em proporção à inteligência e à bondade divinas, portanto, que as coisas recebem a existência – eis a dimensão de justiça. Mas retirá-las do nada é um ato de plena misericórdia – e eis aí, no fundamento de tudo, a justiça e a misericórdia divinas manifestando-se de modo pleno e inseparável.

E todo o sofrimento gratuito, como o das crianças devoradas pela fome? Ou os campos de concentração? O mistério do mal será discutido oportunamente. Mas do mesmo jeito que há a comunhão dos santos, há a solidariedade no pecado. Procuremos honestamente em nós mesmos a resposta. Ela pode não estar muito longe, como veremos adiante, quando estudarmos realidades como o pecado original.