Para quem olhasse inadvertidamente, aquela citação de Santo Anselmo da Cantuária, que São Tomás faz consignar no artigo primeiro desta questão 21, poderia induzir a achar que, por ser misericordioso, Deus poderia ser arbitrário. De fato o grande Santo Anselmo, Doutor da Igreja, diz expressamente, no capítulo 10 da sua obra “Proslogion”, sobre a justiça de Deus, o seguinte: “Quando punes os maus, é justo porque está de acordo com os seus méritos; quando, ao invés, os perdoas, é justo porque é digno não dos seus méritos mas da tua bondade.

Poderíamos, então, perguntar a Santo Anselmo: mas seria justo que, com alguns, Deus usasse de bondade, e com outros, de punição? Não é verdade que uma das grandes conquistas do pensamento jurídico foi a de que a justiça envolve tratar igualmente aos iguais, e desigualmente aos desiguais? Como se poderia imaginar que Deus, com alguns, usasse o braço forte da justiça estrita, do tipo “fiat justitia, pereat mundi” (faça-se a justiça mesmo que o mundo acabe), e com outros ele agisse como um pai permissivo e mesmo bonachão, perdoando liberalmente e poupando das consequências ruins dos próprios atos e das próprias escolhas? Deus seria como um tirano arbitrário, distribuindo benesses a quem ele quer, enquanto pune implacavelmente aqueles que não gozam de suas preferências?

As coisas seriam assim se fosse possível separar a justiça de Deus de sua misericórdia. Neste caso, não haveria outra razão para que Deus fizesse justiça estrita e rigorosa a uns, punindo-os, enquanto age com benevolência com outros, perdoando-os. Isto parece confirmar-se na nossa experiência cotidiana – quantas vezes vemos os maus levarem vidas nababescas, e parecerem poupados das dores da vida, enquanto os bons são perseguidos e mesmo mortos. Esta constatação é antiga, e está, creio, no centro do próprio Livro de Jó, nas Escrituras.

Esta é o debate que faremos aqui. De fato, por que há fatos e ocorrências que parecem revelar um Deus complacente e misericordioso, por um lado, enquanto outros acontecimentos parecem revelar um duro sancionamento por parte de Deus? Será que Deus pratica atos de justiça desprovidos de misericórdia, por um lado, e atos de misericórdia que ignoram a justiça, por outro? Ou será que em todas as obras de Deus a justiça e a misericórdia se manifestam? A hipótese controvertida inicial, que provocará o debate, é a de que estes dois aspectos nem sempre estão inextrincavelmente unidos: “parece que nem sempre há simultaneamente misericórdia e justiça em todas as obras de Deus”.

São quatro argumentos em apoio a esta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento lembra que, de acordo com a revelação cristã, a justificação dos seres humanos extraviados, que os faz voltar a caminhar na graça, não decorre de merecimento humano; é obra, portanto, de pura misericórdia de Deus/ por outro lado, a condenação daqueles que rejeitaram Deus de modo livre, consciente e completo, por uma vida de adesão expressa ao mal, leva a pessoa à condenação eterna, por justiça divina. E o argumento repete uma citação bíblica já utilizada em artigos anteriores, da carta de São Tiago (2, 13): o julgamento será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. E disto o argumento conclui que as obras de Deus não necessariamente manifestam sempre sua justiça e sua misericórdia de modo simultâneo.

O segundo argumento é mais uma citação das Escrituras, desta vez Romanos 15, 8-9, na qual o Apóstolo Paulo parece atribuir a conversão dos judeus à justiça de Deus perante a promessa feita aos Patriarcas, enquanto a conversão dos demais povos decorreria da sua misericórdia pura e simples. Desta citação o argumento conclui que há atos de Deus em que apenas a justiça se manifesta, enquanto noutros se pode perceber apenas a misericórdia.

O terceiro é o argumento de Jó, ou seja, a constatação de que há justos sofredores neste mundo. Neste caso, diz o argumento, o sofrimento do justo é, em si mesmo, algo injusto. Logo, as obras de Deus nem sempre manifestam simultaneamente a justiça e a misericórdia.

O quarto argumento também é teológico, e parte do fato da criação. Se todo ato de justiça e todo ato de misericórdia devem ter um objeto prévio, sobre o qual a justiça ou a misericórdia são exercidos e se manifestam, o que dizer, então, do ato criador, que tirou todas as coisas do nada? Se a criação se dá ex nihilo, quer dizer, se ela não pressupõe nada a não ser o poder criador de Deus, então ela não e nem um ato de justiça, nem, a rigor, um ato de misericórdia, porque, antes da própria criação, nada haveria sobre o qual se pudesse exercer justiça ou misericórdia. Daí o argumento conclui que a justiça e a misericórdia não estão necessariamente unidas nos atos divinos, e, a rigor, pode até existir um ato divino que não manifeste nem justiça, nem misericórdia, como seria o caso da criação ex nihilo.

O argumento sed contra é mais uma citação bíblica. Trata-se de Salmos, 25 (24), 10: os caminhos do Senhor são amor e verdade. Ou seja, não se pode separar a justiça de Deus da sua misericórdia.

Mas como conciliar isto tudo? É o que veremos no próximo texto, no qual examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.