Este é um tema particularmente caro ao Papa Francisco, que tem nos chamado a atenção para a misericórdia de Deus. Em seu papado, ele tem reiteradamente registrado que a Igreja deve se parecer muito mais com um hospital, onde se pratica a misericórdia, do que com um tribunal, no qual a justiça esgota a relação entre Deus e a humanidade.

A misericórdia, no entanto, parece sofrer um enorme desprestígio, reduzida a uma espécie de complacência anárquica, uma permissividade enfraquecedora, uma falta completa de autoridade, talvez. A misericórdia seria a marca da emotividade complacente de um Deus que se pareceria mais com um avô do que com um pai. Como compatibilizar o poder de Deus, a sua justiça perfeita, com a ternura materna de uma misericórdia entendida como amolecimento emotivo? Além disso, uma vez que a justiça sempre envolve o equilíbrio numa relação, como ser misericordioso com alguém sem ser injusto com um dos lados da relação?

É por isto que a hipótese controvertida, aqui, introduz exatamente este debate: parece que não é adequado dizer que Deus tem misericórdia. E São Tomás vai introduzir aqui dois argumentos em favor desta hipótese objetora inicial.

O primeiro argumento diz que a misericórdia pode ser definida como uma espécie de sentimento de tristeza que surge no coração daquele que contempla a miséria alheia. Mas em Deus não há, nem pode haver, nenhuma espécie de tristeza. Disto, o argumento conclui que Deus não pode sentir misericórdia.

O segundo argumento define a misericórdia como um tipo de suspensão, de relaxamento ou preterimento da justiça. Mas se é assim, ela não pode ser conveniente para Deus, porque a justiça de Deus, sendo perfeita, não comportaria exceções, exclusões ou preterimento – e neste ponto o argumento cita 2Tim 2, 13, para afirmar que, mesmo que nós eventualmente sejamos infiéis, Deus permanece fiel, porque não pode renegar-se a si mesmo. E o argumento prossegue: ora, se ele renegasse a própria justiça, excepcionando-a por misericórdia, negar-se-ia a si mesmo. A justiça de Deus, para este argumento, seria como que indisponível para o próprio Deus. Logo, o argumento conclui que Deus não pode ser chamado adequadamente de misericordioso.

Mas São Tomás coleciona aqui um argumento sed contra, mais uma vez uma interpelação das escrituras, que vai levá-lo a repensar a inflexibilidade que os argumentos anteriores colocaram na justiça divina. Ele cita o Salmo 116 (114-115), 5: O senhor é justo e clemente, nosso Deus é compassivo. E daí conclui que Deus é misericordioso, de acordo com a Palavra revelada.

Colocado o problema, São Tomás passa à sua resposta sintetizadora, para esclarecer que não somente pode-se atribuir misericórdia a Deus, como também que se lhe deve atribuir a misericórdia em grau máximo. Mas com um pequeno cuidado: não se pode imaginar que a misericórdia em Deus seja um sentimento, uma emoção, mas apenas como o efeito maravilhoso do seu amor infinito pelas criaturas. E São Tomás vai explicar como se pode atribuir a Deus os efeitos da misericórdia sem lhe atribuir nenhuma tristeza ou emoção sentimental, como ocorre com a misericórdia humana. Ou seja, qual é a natureza da misericórdia divina e como ela se diferencia da nossa.

Para início de conversa, e dentro do espírito rigoroso da argumentação de São Tomás, ele vai estabelecer a noção de misericórdia com a qual está trabalhando. Ele define, então, o misericordioso, como aquele que possui o coração compassivo, e que é capaz de condoer-se com a miséria do outro, ou seja, deixar que a miséria do outro se aninhe em seu próprio coração, como se fosse a sua própria miséria. A partir desta compaixão, deste “sofrer junto”, o misericordioso move-se para eliminar, para superar a miséria do outro, como se fosse sua; e de algum modo de fato é, porque o seu coração acolheu o outro e a sua miséria. A compaixão, vale dizer, o sofrer junto, é, portanto, o centro da misericórdia.

Mas como se poderia dizer que Deus pudesse sofrer, ele que é plena alegria e completude, plena bem-aventurança? Este é o grande mistério do Deus cristão, e se resolve no mistério da encarnação, morte e ressurreição de Jesus, que faz com que Deus introduza a condição humana, e como ela o nosso sofrimento, em sua própria essência. Mas estamos adiantando demais as coisas, aqui. São Tomás ainda não precisa do mistério da encarnação para explicar como pode ser que a misericórdia esteja ali mesmo no centro da justiça divina.

São Tomás vai dizer, logo, que não há lugar para tristeza em Deus, e nem para a miséria propriamente dita; por isto, não se poderia atribuir a ele, propriamente, comiseração, no sentido de que a misericórdia, nele, não se manifesta como uma absorção de infelicidade. No entanto, sendo ele a perfeição e o amor no mesmo ato, na mesma essência, é próprio de Deus eliminar aquilo que é limitado, imperfeito, defeituoso, uma vez que ele próprio é a bondade suprema e a perfeição absoluta. E é a origem de toda perfeição e de toda a bondade. E, no seu amor infinito, toda a sua bondade tende a difundir-se – bonum est diffusivum sui, diziam os escolásticos, e com eles São Tomás.

E como a bondade de Deus se comunica? A comunicação da perfeição divina, diz São Tomás, se dá em razão da bondade divina, da sua justiça, da sua liberalidade e da sua misericórdia – todos estes modos são comuns em pertencerem à mesma essência divina, que é amor, mas manifestarem-se de diversos modos, ou seja, por razões diversas. De fato, como vimos nos artigos anteriores, é por justiça que Deus comunica aquelas perfeições que são proporcionadas à própria quididade da coisa, vale dizer, dando, por exemplo, um órgão da inteligência, o cérebro, para um ser inteligente material, o ser humano.

Mas Deus vai além, e na sua liberalidade ele concede mais perfeição do que aquilo que se relaciona à função ou à essência da coisa. Deus não é um economista rigoroso, um engenheiro racionalista, que limita a forma à função. Pela sua liberalidade, teremos, por exemplo, paisagens encantadoras que jamais serão contempladas por olhos humanos, em recantos remotos do universo; temos pequenas flores de colorido maravilhoso, ou de aroma encantador, que ficarão para sempre desconhecidas de qualquer apreciação. Não é somente para a utilidade humana, ou mesmo para a função ecológica, que a criação é maravilhosa e bela; ela é bela e maravilhosa por causa da liberalidade divina.

E a misericórdia? Por sua misericórdia, os defeitos e imperfeições que se instalam nas coisas são eliminados, corrigidos, trazidos de volta ao seu caminho de progressivo aperfeiçoamento. Um animal ferido vem a curar-se, uma paisagem seca recupera sua vida após uma chuva, uma alma humana desfigurada pelo pecado reencontra, no caminho da conversão, o maravilhoso perdão e se reergue no caminho da santidade. E eis o bem sendo difundido por Deus pelo caminho da misericórdia.

Posto isto tudo, São Tomás vai passar a responder às objeções iniciais. A primeira, como sabemos, é aquela que afirma que, uma vez que se instala como tristeza, a misericórdia não caberia na felicidade plena e perpétua de Deus. E São Tomás vai concordar com a objeção, no sentido de reconhecer que, em Deus, a misericórdia não é um sentimento, uma paixão, como em nós, mas é parte da sua própria estrutura essencial, como movimento superabundante de comunicação de perfeição por bondade.

A segunda objeção nega que Deus possa ser misericordioso, porque seu agir jamais poderia contrariar a justiça, que determina que cada um deve receber aquilo que é adequado.

São Tomás conclui dizendo que a misericórdia de Deus não é a exclusão da justiça, mas aquilo que, realizando-a, vai além dela. E dá como exemplo aquele homem riquíssimo que, devendo cem reais de salário ao seu empregado, e percebendo que o pobre servo tem necessidades que os cem reais não são suficientes para saciar, entrega-lhe os cem e mais cem. Ao fazê-lo, retirando este dinheiro do seu próprio tesouro e portanto da sua superabundância de riqueza, por generosidade, não fere a justiça, mas a realiza e vai além – age por misericórdia. Agiria assim, também, aquele que, podendo punir a um agressor ou a um difamador, prefere perdoar a ofensa – o perdão é, de certo modo, uma doação generosa, diz São Paulo em Ef. 4, 32: sejam bondosos e compassivos, dando-se mutuamente o perdão como Cristo os perdoou. Portanto, ele conclui a misericórdia não suprime a justiça, mas leva-a à plenitude. E São Tomás vai citar mais uma vez as Escrituras (Tg 2, 13) numa frase magistral, com a qual encerramos também o nosso debate: “a misericórdia triunfa sobre a justiça”.