Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida de que Deus não necessariamente ama mais os seres melhores, e os cinco argumentos objetores, e por fim o argumento sed contra. Veremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás, na qual ele colocará em ordem a nossa noção de “melhor” e, ao mesmo tempo reafirmando a perfeição como melhor do que a imperfeição, afasta os riscos de transformar Deus num ser esnobe e elitista, e nos transformar em farisaicos buscadores e ostentadores de perfeições. Conciliar a infinita misericórdia de Deus com tudo o que há, em nós, de miséria e imperfeição, por um lado, com a única força aperfeiçoadora, que é o próprio amor de Deus, por outro.

Deus é o bem, e não há outro. Todas as coisas são ditas boas apenas analogicamente, por participação no bem que é Deus. Assim, é forçoso admitir que é o amor de Deus que cria o bem nas coisas, pois não é possível participar da bondade de Deus sem ser por ele amado. Assim, é forçoso concluir, como faz São Tomás logo nas primeiras linhas da sua resposta, que Deus ama mais as coisas melhores; isto pelo simples fato de que ele não as ama mais por serem melhores, mas, ao contrário, elas são melhores porque ele as ama mais. Isto é um paradoxo que deveria dar um nó na nossa cabeça contemporânea, e de fato dá. Coloca em ordem o universo, retira a economia do centro da visão de mundo e estabelece a necessária humildade antropológica para rearrumar a criação a partir de um critério mais sólido. Deus ama mais alguma coisa do que outra na exata medida que ele deseja a esta um bem maior do que à outra. E o bem maior, não podemos nos esquecer, é ele mesmo. Quanto mais uma coisa puder participar da bondade divina, tão melhor ela será. Esquematicamente, diríamos que as coisas inanimadas participam apenas da existência pura e simples. Os vegetais participam da vida e da fecundidade divinas. Os seres sensíveis interagem com o mundo que os cerca, absorvendo os seus estímulos sensoriais e movendo-se para eles como fins. Os seres inteligentes refletem, participam do sentido da criação e podem conhecer a Deus conscientemente, e eventualmente, dentre estes, participar de sua vida bem-aventurada. Por fim, a própria criação pode participar, como encarnação, da intimidade de Deus, na ressurreição do Filho,pela qual a humanidade ingressa na vida mais íntima da Trindade. Esta é, simplificando absurdamente, a hierarquia da participação no bem, e, por consequência, a hierarquia do amor divino pela criação. É preciso, no entanto, muito cuidado para não desprezar nenhuma manifestação do amor de Deus, por considerá-lo menor com relação a umas criaturas que a outras. Em si mesmo, objetivamente, o amor de Deus é sempre infinito, e cada ser tem sua dignidade por participar, em qualquer grau, deste mesmo amor. Nada na criação é desprezível por estar numa escala inferior nesta maravilhosa hierarquia do ser: em cada coisa há a manifestação do amor infinito do criador, conforme os limites que o próprio criador inscreveu nela. A hierarquia não é de domínio, de poder ou de orgulho arrogante; é sempre e tão somente uma hierarquia de amor.

De fato, ao admitir que as coisas são tão melhores quão mais amadas por Deus elas são, teremos que rearrumar todas as prioridades de nossa vida. O mais importante não será mais aquilo que foi objeto de trabalho humano, de produção industrial, de engenho ou tecnologia, mas aquilo que culmina a criação, ou seja, a natureza com sua beleza infinita e, nela, os seres inteligentes. E dentre estes, o Filho. O engenho humano é importante, essencial mesmo para a caminhada da espécie, mas é de segunda ordem. Este princípio pode, inclusive, explicar razoavelmente a chamada “doutrina social da Igreja”, e implicar uma vida melhor para nós no interior do universo.

Colocada esta resposta (e as nossas digressões sobre ela), São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.

A primeira objeção lembra que Deus não poupou seu filho único em resgate por toda a humanidade, e quer concluir daí que Deus ama mais a humanidade do que ama seu filho. Mas se o Filho é Deus, ele tem que ser melhor que a humanidade, e disso o argumento conclui que Deus não ama necessariamente o que é melhor.

São Tomás responderá com firmeza: Deus ama seu Filho mais do que ama toda a humanidade, e mesmo mais do que ama toda a criação. Mas o amor de Deus, ainda que se possa falar, nele, em “mais” ou em “menos”, não implica de modo nenhum desprezo ou descuido pelo que é menor. E, de fato, embora entregando seu filho em resgate da humanidade – e com ela da criação inteira – Deus lhe deu a glória, o poder, “o nome que está acima de todo nome”, e na sua paixão, morte e ressurreição fez manifestar seu amor infinito e seu senhorio total. Neste sentido, diz São Tomás, manifesta-se a superioridade do amor de Deus por seu filho maravilhoso: nele, não apenas concedeu o resgate de tudo, como entregou-lhe o senhorio mais perfeito e mais absoluto sobre toda a criação. Esta é a manifestação absoluta do amor de Deus em Jesus. Portanto, o argumento se equivoca.

O segundo argumento diz que, segundo o salmo 8, o ser humano está abaixo dos anjos; mas foi em favor dos seres humanos, e não dos anjos, que Deus mandou seu Filho.

São Tomás fará uma daquelas distinções maravilhosas e pedagógicas quanto aos sentidos em que se pode dizer que os anjos são melhores que os seres humanos. São três os sentidos de comparação:

1. Com relação à natureza humana assumida pelo Verbo encarnado em Jesus Cristo, ela é melhor que todos os anjos, sobretudo em virtude da sua união com uma das pessoas divinas. Não há discussão, portanto, quanto ao fato de que Deus ama mais a natureza humana do seu Filho do que a natureza angelical em geral.

2. Com relação à destinação final para a graça e para a glória, há uma igualdade entre a natureza humana e a angelical. Ambos, seres inteligentes que são, são chamados igualmente por Deus, e igualmente podem rejeitá-lo e perder-se. E São Tomás cita, neste passo, o Livro do Apocalipse (21,17), que diz que o anjo mediu a muralha da cidade celeste usando medidas humanas, para concluir que a mesma é a medida do ser humano e do anjo.

3. Finalmente, quanto à natureza própria, o anjo está acima do ser humano, concede São Tomás. Mas Deus não assumiu a natureza humana porque amasse mais aos homens, diz Tomás, mas porque os seres humanos, tendo caído pelo pecado original, precisavam mais da redenção do que os anjos. Neste ponto, São Tomás esclarece que mesmo um pai de família humano às vezes dá o alimento mais precioso a um servo doente do que a um filho saudável.

Portanto, a resposta sobre a afirmação de que um anjo é melhor do que um ser humano não é simples. Mas é profundamente esclarecedora.

A terceira objeção lembra que as Escrituras dizem que João era “o discípulo que Jesus mais amava”, mas, no final do Evangelho de João, Jesus pergunta a Pedro se o ama mais do que os outros, e concede-lhe o pastoreio do rebanho. Este paradoxo escritural é resolvido por São Tomás com os elementos de interpretação bíblica que ele dispõe em seu tempo.

A primeira interpretação ele vai buscar em Santo Agostinho. Este Padre da Igreja afirma que São Pedro representa a vida ativa, que demonstra mais amor a Deus porque, enfrentando as dificuldades desta vida, deseja mais ardentemente libertar-se delas e alcançar Deus no paraíso. Por outro lado, Agostinho diz que Deus ama mais a vida contemplativa, simbolizada por João, porque a contemplação não se interrompe com a morte, diferentemente da ação.

São Tomás registra outras exegeses que dizem que São Pedro amou mais a Jesus nos seus membros, isto é, na Igreja, enquanto João o amou mais pessoalmente, e por isto recebeu dele a sua mãe, Maria (Jo 19, 26). Outros ainda dizem que não se pode dizer ao certo qual o amou mais com amor de caridade, ou qual deles alcançou maior glória na eternidade. Em todo caso, o desenvolvimento da exegese, hoje, aportaria ainda outras interpretações, como a que vê na figura do discípulo amado não a pessoa do apóstolo João, mas, simbolicamente, os discípulos de todos os tempos, quando se reclinam no peito de Jesus – descobrem a profundidade do seu amor. Enfim, São Tomás conclui que este é um falso problema, porque não dá para dizer qual dos dois é mais amado a partir dos dados revelados que temos, e seria presunção julgar e pesar os espíritos. O argumento, portanto, não é válido para refutar o princípio estabelecido na resposta sintetizadora.

O quarto argumento cita as Escrituras para afirmar que, uma vez que há mais alegria no céu por um pecador arrependido do que por um justo que não precisa de conversão, pareceria que Deus ama mais o pecador que se converte do que alguém simplesmente inocente. Depois de afirmar que a reconciliação e a inocência estão entre si como aquilo que transborda a medida está para a própria medida, São Tomás estabelecerá uma série de comparações para mostrar que não seria contraditório que Deus amasse mais o reconciliado do que o inocente, porque o que importa é a graça em que cada um vive, e isto não se pode discernir desde fora, apenas julgando e presumindo a partir de um estado de arrependimento ou de inocência. De fato, alguém pode ser um inocente morno, a quem São Tomás compara com um soldado que nunca fugiu do combate, mas também nunca atacou com fervor o inimigo. Por outro lado, um soldado que, a princípio aterrorizado com a guerra, tenha fugido, e depois converteu-se num bravo lutador, pode ter mais valor para o general do que aquele tépido. Ou ainda, o perdão, para o arrependido, pode ser recebido como o pobre recebe um pedaço de pão, enquanto o justo pode reagir à graça com a mesma tepidez om que um rico recebe uma moeda de ouro. Em suma, São Tomás reafirma aqui o velho princípio de que, perante Deus, não há justos, e que uma aparente inocência pode esconder a soberba do coração, enquanto o arrependimento sincero de quem se reconhece pecador perante Deus representa a maior oportunidade para que a graça possa agir. É claro que a pureza, a inocência, é admirável; mas no fundo ela também é um dom de Deus para uma criatura, em si mesa, existencialmente miserável. Portanto, tampouco aí há uma objeção válida ao princípio estabelecido na resposta sintetizadora.

O quinto argumento compara alguém que hoje vive na graça, e por isto vive mais no amor de Deus do que um pecador inveterado; mas este mesmo pecador receberá a graça da conversão no último momento e entrará na glória, enquanto aquele que vive hoje na graça pecará mortalmente e perder-se-á no momento da morte. O argumento afirma que, no momento em que vive em graça, ele é melhor do que o pecador impenitente, mas Deus ama mais ao pecador do que àquele justo que cairá, porque reservou para aquele um bem maior do que para este.

São Tomás lembra que a bondade de qualquer pessoa decorre sempre da graça, isto é, do amor que Deus lhe tem. Mas Deus é eterno, enquanto nós somos temporais. Assim, enquanto viveu na graça, aquele justificado gozou mais do amor de Deus; mas ao pecador inveterado estava reservada a glória pela conversão, e portanto ele gozará mais do amor de Deus na eternidade. Em todo caso, lembremos, ambos são melhores ou piores em função da graça de que gozam em algum momento, ainda que, por seu próprio livre arbítrio possam vir a desperdiçar esta graça ou a própria glória. Veremos mais sobe isto quando estudarmos o mérito e a predestinação.

E assim chegamos ao fim deste maravilhoso recanto da nossa Catedral, dedicado ao amor de Deus. Em seguida visitaremos a sua justiça e a sua misericórdia, temas, aliás, caríssimos para mim, que sou jurista de profissão, e para o querido Papa Francisco, que vem falando tanto da misericórdia de Deus e da justiça que deve brotar na vida do cristão.