O debate aqui trará uma questão semântica importante: o que significa exatamente ser “melhor”? Recentemente, acompanhei um debate sobre animais domésticos em que um dos interlocutores acusava os seres humanos de serem “antropocentristas”, e presumirem que de algum modo são melhores do que o resto dos seres. A questão me pareceu então (como me parece ainda agora) envolver exatamente o sentido da palavra “melhor”.

Contemporaneamente, imbuídos da mentalidade economicista, tendemos a pensar em tudo em termos de “valor”(mas “valor” é uma palavra econômica que ingressou no mundo filosófico após a derrocada da noção de “transcendentais do ser”, no começo do renascimento). Assim, “melhor”, para nós, é aquele que acumula mais valor, e portanto tem mais poder. Isto dá origem a uma noção de “melhor” que envolve exercer um poder cada vez mais irrestrito sobre o outro e sobre as coisas; a reação, dentro desta lógica, não é a de repensar especificamente o que pode significar “ser melhor” – como nós vamos fazer neste debate – mas negar que alguma coisa tenha valor, comparativamente com outra. “empoderar” algo para limitar a arbitrariedade de outrem, este é o caminho contemporâneo. O nosso caminho é outro, é descobrir que a visão antropocêntrica distorcida do “valor” e do “poder” não pode ser superada simplesmente desvalorizando o ser humano e supervalorizando as outras coisas, radicalizando uma visão que, ainda assim, está presa no mesmo parâmetro que quer negar – o parâmetro do “valor” e do “poder”.

No presente debate, São Tomás vai introduzir um termo na equação – o critério para alguma coisa ser melhor, para ele, envolve o amor. Melhor, portanto, não é aquilo que tem mais ‘”valor”, ou aquele que tem mais poder. Melhor é aquilo que é mais amado.

Como se dá isto? É preciso recordar que, na estrutura desta “catedral” tomista, tudo é muito rigorosamente estruturado. Sabemos exatamente o que São Tomás está falando, quando ele fala de Deus – é só olhar a questão 2, em que ele estabelece o significado do termo “Deus” na estrutura do seu pensamento, através das chamadas “cinco vias”. Muito mais do que categorias apologéticas – a que foram reduzidas por certo racionalismo teológico – as cinco vias são categorias analíticas, que dão rigor ao debate subsequente. “É disto que falamos quando falamos de Deus”, diz Tomás ali, num refrão muito significativo. Também a noção de amor foi estabelecida com muito rigor aqui, ao longo desta questão 20. Nada tem a ver com romantismo, sentimentalismo ou sexualidade, mas com um querer que, saindo de si, deseja o bem do outro. Aliás, fazendo uma pequena digressão, podemos lembrar que, nos termos aristotélicos, o natural é que a vontade se incline para o bem próprio – esta ideia de que a perfeição do amor consiste numa vontade que se inclina para o bem do outro, num trasbordar generoso, é muito cristã. Mesmo quando fala em amizade – noção em que Aristóteles enxerga esta capacidade de alegrar-se com o bem do outro – a sua visão grega busca alguma reciprocidade, alguma equiparação entre os amigos. Somente com Jesus ficou estabelecida esta noção de que Deus não ama porque precisa, ou porque espera alguma reciprocidade. Ele ama porque é Deus.

Colocadas estas coisas, passemos ao debate proposto por São Tomás, tendo em mente que é preciso lembrar sempre que o amor de Deus não se dirige à eventual bondade que pudesse preexistir nas coisas. Como debatemos no último artigo, Deus não ama alguma coisa porque ela é boa. Ao contrário, alguma coisa é boa porque Deus a ama. Ao amar, Deus gera bondade no objeto do seu amor.

A hipótese controvertida aqui é simplesmente a de que “parece que Deus nem sempre ama mais aquilo que é melhor”. E São Tomás vai apresentar nada menos do que cinco argumentos no sentido desta hipótese objetora inicial.

O primeiro argumento objetor toma o exemplo da paixão de Jesus Cristo. Estabelecida claramente a noção de que Jesus Cristo é Deus e homem, o argumento lembra uma passagem da Carta aos Romanos (8, 32): Deus não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós. Desta citação bíblica, o argumento conclui que, embora Jesus Cristo seja melhor do que todo o gênero humano, no entanto Deus amou mais o gênero humano do que Jesus, pois o entregou por nós. Logo, diz o argumento, Deus não ama necessariamente mais as melhores coisas.

O segundo argumento também é bíblico. Ele cita o Salmo 8, 6, em que a Bíblia diz que Deus criou os seres humanos “quase igual aos anjos”, ou “um pouco abaixo dos anjos” (conforme a tradução). Assim, os anjos são, segundo a Revelação, melhores do que os seres humanos. Mas, prossegue o argumento, Deus amou mais os seres humanos do que amou os anjos, porque a própria Bíblia, em outra passagem, diz que Deus não veio em favor dos anjos, mas da descendência de Abraão; disto, o argumento conclui que Deus nem sempre ama mais aquilo que é melhor.

O terceiro argumento também é escritural. Lembra que as próprias Escrituras revelam que Pedro amava mais Jesus do que os outros apóstolos, conforme o Evangelho de João (21, 1 – 18). Disto, o argumento conclui que Pedro era melhor que João. Mas o argumento lembra que Jesus amou mais João do que Pedro, conforme testemunho do mesmo Evangelho, referido por Santo Agostinho (que afirma que estes trechos que revelam que, embora Jesus amasse a todos os discípulos, mas João se distinguia por ser o mais amado). Disto, o argumento diz que Deus não necessariamente ama mais os melhores.

O quarto argumento compara os inocentes com os penitentes, ou seja, aqueles que nunca pecaram pessoalmente, como as crianças ou os recém-batizados, com aqueles que, havendo pecado, obtiveram o perdão pelo sacramento da confissão e penitência. O argumento afirma que os inocentes são obviamente melhores que os penitentes, porque nunca fenderam a Deus pessoalmente. O sacramento da reconciliação seria uma “segunda tábua, depois do naufrágio”, diz o argumento, citando São Jerônimo. E o argumento cita a Bíblia mais uma vez (Lc 15, 7), no trecho que diz que “haverá mais alegria no céu por um pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”. Ora, daí o argumento conclui que Deus ama mais os penitentes do que os inocentes, e, portanto, nem sempre ele ama mais aqueles que são melhores.

O quinto argumento compara alguém que, após receber o batismo, está justificado, mas Deus prevê que ele cairá irremediavelmente por um pecado mortal do qual não se converterá, e portanto não se salvará. No momento mesmo da justificação, no entanto, ele é melhor do que aquele pecador inveterado que, no entanto, está predestinado à vida eterna pela conversão no último momento. No entanto, segundo o argumento, Deus ama mais a este pecador inveterado do que àquele justo que cairá, porque reserva àquele a vida eterna na glória, enquanto para este está guardada a perdição eterna. Disto, o argumento conclui que Deus nem sempre ama mais os melhores.

Postos os cinco argumentos objetores, São Tomás apresenta um argumento sed contra, citando o Livro do Eclesiástico, que ensina (13, 19): todo ser vivo ama seu semelhante; ora, prossegue o argumento, aquilo que é mais perfeito é mais semelhante a Deus, e portanto mais próprio do seu amor. Assim, este argumento conclui que os seres melhores são mais amados por Deus.

No próximo texto veremos, na resposta de São Tomás, o quanto a noção que ele tem do que é “melhor” difere da nossa.