Debate interessantíssimo. Deus tem preferências? Será que ele pode amar alguma coisa mais do que outras? Este é exatamente o debate proposto aqui por São Tomás. Será que em Deus existe um igualitarismo, um indiferentismo que o leva a distribuir o amor igualmente para todos os lados? Será que alguma criatura pode merecer mais o amor de Deus, por ser melhor que as outras, ou será que é o amor de Deus que faz com que uma criatura seja melhor que as outras? Existem criaturas melhores que as outras?

São muitas interrogações, mas a hipótese controvertida, aqui, é simplesmente a de que Deus ama igualmente todas as criaturas. E São Tomás trará três argumentos objetores para apoiar a hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento é bíblico. Trata-se de uma citação do Livro da Sabedoria (6, 7): Deus, que criou a todos, cuida de todos igualmente. Desta citação o argumento quer concluir que Deus não pode amar alguma coisa mais do que outra.

O segundo argumento é teológico: se a essência de Deus é o amor, então o amor, em Deus, é sempre absoluto, e não está sujeito a medida ou quantificação. Assim, o argumento conclui que Deus não pode amar alguma coisa mais do que outra.

O terceiro argumento diz que, uma vez que o conhecimento que Deus tem das criaturas não pode ser graduado – é sempre pleno, completo – e a vontade de Deus quanto à criaturas também não conhece graduação (não se pode dizer, segundo o argumento, que ele queira alguma coisa mais intensamente do que quer outra), então o argumento conclui que ele também não pode amar alguma coisa mais do que ama outra.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que ensina que Deus ama tudo o que criou, mas ama mais as criaturas racionais; e, dentre estas, ama mais aquelas que receberam a filiação adotiva e são parte do Corpo de Cristo. Por fim, diz Santo Agostinho, é claro que, dentre todas as coisas, ele ama mais do que tudo ao seu unigênito. Há, portanto, segundo este argumento, uma verdadeira graduação no amor divino – um cristocentrismo que, no logos que deu origem à criação, determina um antropocentrismo “teologal”, se é que podemos dizer assim.

Postos os argumentos em conflito, São Tomás nos apresentará sua resposta sintetizadora. E ele começa fazendo uma distinção interessante: o amor, diz ele, consiste em querer bem a alguém. Há nele, portanto, dois elementos, 1) o querer e 2) o bem que se quer ao outro. O querer, ou a vontade do que ama, pode variar em nós, humanos. De fato, nós, humanos, queremos mais umas coisas que outras, e isto em nós é natural. Mas neste aspecto, o aspecto, digamos, subjetivo, o amor de Deus não pode variar como o nosso, porque Deus é, em si mesmo, simples e perfeito. Assim, quanto ao querer, ele quer com um só ato da vontade, sempre total e perfeito. A vontade de Deus não é, como a nossa, sujeita a variação de intensidade.

No que diz respeito, porém, à parte objetiva do amor, isto é, ao bem que se quer ao outro, o amor de Deus pode variar, sem contradições, dentro do seu plano maravilhoso. Neste ponto, São Tomás lembra o princípio teológico de que o amor de Deus não é causado pelo bem que há nas coisas, mas, ao contrário, é causa de todo o bem que existe. Deus não é como nós, neste ponto; nós amamos aquilo que, por ser bom em alguma medida, é capaz de despertar amor em nós. Deus, ao contrário, quando ama alguma coisa, faz com que esta coisa seja boa e amável, mais perfeita, melhor. Deste modo, poderíamos dizer que Maria é cheia de graça porque está plena do amor de Deus, e não que ela está plena do amor de Deus porque ela é cheia de graça. É por ser amada por Deus que ela está plena de graça, e não o contrário.

Não há dúvida, portanto, que Deus quis a Maria um bem maior do que quer para mim, e isto não deve ser problema para ninguém; ao contrário, quando nos deparamos com alguém em quem o amor de Deus fez maravilhas (como Nossa Senhora diz no Magnificat, Lc 1, 46 e seguintes), isto não nos deve despertar ciúmes ou qualquer outro sentimento de inferioridade e despeito. Ao contrário, devemos ser como aquele pescador de pérolas que se depara com uma pérola valiosa: deveria ser, para nós, uma fonte de muita alegria amar aqueles que Deus amou mais. Como dizia Santa Terezinha de Jesus:

“se todas as florezinhas quisessem ser rosas, a natureza perderia sua gala primaveril, não haveria mais campos esmaltados de pequenas flores”. E ela continua: “ “Dá-se o mesmo no mundo das almas, que é o jardim de Jesus. Quis Ele criar os grandes Santos, os quais podem comparar-se aos lírios e às rosas; mas criou também os menores, que podem contentar-se em ser malmequeres ou violetas, destinados a deleitar os olhos do Bom Deus, quando calca-os a seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos”. Esta é a origem da diversidade de dons na natureza: a infinita liberdade de Deus de amar quem ele quer, como ele quer.

Agora São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor diz que as Escrituras (Sab 6,7) nos revelam que Deu cuida de tudo com o mesmo cuidado, e conclui que o amor de Deus não pode variar. São Tomás explica que, de fato, Deus cuida igualmente de todas as coisas, mas isto não quer dizer que ele entregue os mesmos bens a todas as criaturas, como se fosse um destes ditadores comunistas igualitários. Ele distribui seus bens conforme quer, mas governa tudo com a mesma sabedoria e bondade.

O segundo argumento objetor lembra que, se a essência de Deus é amor, então o amor jamais poderia ser quantificado em “mais” ou “menos”. São Tomás responde que a objeção procede, quanto à intensidade do amor de Deus: ele é sempre infinito em si mesmo, porque ele é igual à própria essência divina. Mas isto não significa que Deus queira sempre o mesmo bem, objetivamente, a todas as coisas: ele quer bens diferentes para cada criatura, e, portanto, quanto ao bem que Deus quer aos seus amados, o amor de Deus pode e deve variar.

O terceiro argumento objetor lembra que Deus entende todas as criaturas sem graduação, integralmente, e que as quer do mesmo modo, sem medida; disto ele conclui que o amor de Deus tampouco pode ter graduação ou medida. São Tomás lembrará que os atos de entender e querer têm sua perfeição e completude no próprio Deus, sem envolver outros objetos que não aquilo que é entendido ou querido. Mas o amor divino, por sua significação, envolve criar no amado um bem que não está em Deus, mas no objeto amado, e, portanto, pode ser medido e variar, porque Deus ama para dar ao amado um bem criado.

Esta riqueza do amor divino, sua liberdade, explicada por São Tomás, é capaz de explicar a maravilhosa diversidade do mundo. O generoso e multiforme amor de Deus é capaz de criar a diferença que enriquece.