Os termos do debate estão colocados, então São Tomás passará a dar a sua resposta sintetizadora. Na qual ele começa logo e sem hesitação proclamando o amor universal de Deus por todas as criaturas. Deus ama tudo o que existe, diz São Tomás, pelo simples fato de que a própria existência é boa; toda criatura, pois, tem em si ao menos o bem da existência, além, é claro, do bem representado pelas outras perfeições que possui.

Este existencialismo alegre de São Tomás é mais do que um simples otimismo; é a percepção de que o bem lastreia a própria existência, e que ela não é um dado sem significação, como querem os existencialistas modernos e sua melancolia molenga; a existência é um bem, porque é um dom, algo que vem de fora e nenhuma criatura pode dar a si mesma. Não é um vazio esperando que a liberdade de cada um a preencha, mas um presente, o maior presente que Deus pode dar a sua criatura. Nenhum lugar, aqui, para angústias existenciais ou niilismos românticos, senão para a percepção de que a maior riqueza consiste naquilo que não tem preço e fundamenta o nosso próprio ser. Trata-se de um universo lastreado no júbilo, na gratuidade e no dom, de uma existência em que a alegria é o princípio e o bem é o significado. O amor, portanto, de Deus por todas as suas criaturas fundamenta-se, em última instância, naquilo que é, nelas, a um só tempo, o mais profundo e o mais banal – o bem de existirem.

Mas é aqui que São Tomás introduz o que é mais importante: a existência das coisas é boa porque ela é gerada por Deus. As perfeições das coisas são boas porque são dom de Deus. Trata-se, pois, de uma cosmovisão do dom e da gratuidade; tudo o que há de melhor é aquilo que não tem preço, que não tem valor – economicamente falando – porque é pura doação de Deus. É a doação de Deus, seu dom da existência, seu dom de criar, que gera a bondade em tudo o que existe.

Há, portanto, uma peculiaridade do amor de Deus, relativamente ao nosso. Enquanto o nosso amor se atrai pelas coisas porque, uma vez que elas são boas, elas são capazes de atrair nossa vontade. Com Deus não é assim. Uma vez que Deus ama, e uma vez que Deus cria, é ele quem gera o que há de bom em tudo o que existe. Amando, Deus faz com que as coisas existam, e, uma vez que elas são fruto do amor de Deus, elas são boas, e podem ser amadas por nós.

Eis que, para São Tomás, a criação é um grande intercâmbio de amor. As coisas criadas existem, e existem com suas perfeições e potenciais peculiares, porque Deus as amou primeiro, as concebeu e as chamou à existência. Ele não amasse alguma coisa ela simplesmente não existiria. Se toda existência é um bem, e é um dom, então é fácil concluir que Deus ama todas as coisas, com amor universal, porque se ama, e porque, sendo ele próprio a causa de tudo, ama tudo.

Percebendo, pois, que tudo o que existe é bom, notamos que tudo o que é fruto de amor, e portanto é, em si mesmo, amável. Então as coisas, todas as criaturas, despertam nossos desejos, exatamente porque são, em si mesmas, fruto do amor de Deus. Amando as coisas ordenadamente, como criaturas que são, amamos ao criador também, quando amamos nelas as marcas de bem que ele depositou nelas. Reconhecendo sua criaturalidade, podemos viver num mundo amável, desde que não esqueçamos da origem deste amor – o amor de Deus.

Este é, então, o esquema pedagógico da resposta de Tomás: o amor de Deus é causa do bem nas coisas, que são causa do nosso amor por elas. O amor de Deus é causa, o nosso é causado. O amor dele é fundante, o nosso é derivado. Quando, portanto, recebemos a criação como um dom e trabalhamos nela para desenvolver suas potencialidades e virtualidades, para maior glória de Deus – já que todas as perfeições estão nele em primeiro lugar – colaboramos para descobrir nas coisas o bem que elas têm e acrescentar-lhes o bem que ainda não têm, mas podem vir a ter – agimos como filhos, como cooperadores do amor. Eis uma visão nobre do significado do trabalho humano na lógica da criação, que despontará, séculos mais tarde, na Doutrina Social da Igreja.

Agora, São Tomás responderá aos argumentos objetores iniciais, completando e tornando mais precisa a sua resposta. A primeira objeção é aquela que lembra que amar é um sair de si, e que por isto Deus não pode amar as coisas criadas, porque não pode sair de si para residir numa criatura. São Tomás resgata a bela resposta mística do (pseudo-) Dionísio, para explicar que aquele que ama de fato sai de si mesmo e de certo modo transfere-se para o que é amado, porque quer o bem para o amado e age para que o amado atinja este bem. Devemos, pois, ter a ousadia de dizer com ele que aquele que é a causa de todo bem transborda o próprio amor que lhe constitui intrinsecamente, e neste transbordar de amor cria tudo o que existe e dirige toda a criação à perfeição, que é ele mesmo, pela sua amorosa providência. É assim que por superabundância o amor de Deus se derrama sobre todas as coisas.

A segunda questão é aquela que diz que Deus pode amar as coisas enquanto existem como razões eternas nele mesmo, mas não as coisas concretamente criadas, porque estão fora dele e são temporais, indignas, portanto, do amor eterno de Deus.   São Tomás nos lembrará que, de fato, as coisas só existem de modo eterno como razões na inteligência divina, que as concebe desde a eternidade. E é por estarem mais perfeitamente em Deus do que em si mesmas, por terem ali sua própria razão de existir, é que Deus as ama, porque as concebeu, as conhece e as quis. Também nós, o conhecermos as coisas, assimilamos em nós as suas formas, intencionalmente, e podemos amá-las porque, de certa forma, estão em nós. Aqui, vemos a força da gnoseologia tomista, do conhecimento concebido como verdadeira absorção da mesma forma.

O terceiro argumento objetor diz que Deus não pode amar os seres com amor de concupiscência, porque não precisa de nada, e não pode amar os seres irracionais ou inanimados com amor de amizade, porque o amor pressupõe reciprocidade em algum grau. São Tomás vai ordenar, aqui, o amor de Deus pela sua criatura de modo antropocêntrico, sem esquecer que o seu antropocentrismo é sempre e necessariamente teocêntrico. Ele dirá que, de fato, Deus tem para com sua criatura inteligente um amor de amizade, que não pode ocorrer com as outras criaturas. Com elas, Deus tem uma espécie de “amor de concupiscência”, não porque precise delas, mas porque as ordena para as nossas necessidades. E o seu amor de concupiscência, se é que se pode chama-lo assim, também se demonstra pelo fato de que criou e ordenou todas as coisas para alcançarem nele próprio a sua perfeição. Assim, poderíamos dizer que o ser humano, nesta concepção, é como o porta-voz de toda criação – tem todas as coisas ordenadas a si para ordená-las a Deus e, nele, a criação inteira poder retribuir sua amizade. Poderíamos dizer, então, que Deus não precisa da criação, mas no seu amor transbordante, ele quer, de certo modo, precisar de nós, para doar-se a nós, doando-nos todas as coisas de modo a que possamos nos aperfeiçoar nele.

A quarta objeção lembra que Deus odeia os malfeitores, e portanto seu amor não é universal, já que ele não pode amar e odiar o mesmo objeto. São Tomás lembrará o velho princípio cristão de que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Ele lembra que é possível amar alguma coisa sob algum aspecto, e odiá-la em outros. É assim que, odiando o pecado, ele ama o ser do pecador. O pecado não vem de Deus, mas do abuso da liberdade. Mas o ser do pecador, sua própria existência, vem dele. Portanto, diríamos, sob esta luz, Deus ama o próprio Satanás, senão ele já não existiria.