Deus é o bem perfeito, e também, num único e mesmo ato, a felicidade perfeita. Como poderia ele amar todos os seres? Seria próprio de Deus amar aqueles que são amáveis, que igualmente são felizes e plenos, e abandonar os maus e os infelizes? Não seria muito desagradável para Deus ocupar-se daqueles seres muito maus, muito insignificantes ou muito infelizes, que poderiam turvar sua própria felicidade? Esta é a hipótese controvertida, aqui, proposta por São Tomás para provocar o debate, que trata da universalidade do amor de Deus. Segundo esta hipótese, o amor de Deus não se estende de modo universal, e exclui pelo menos algumas coisas; na formulação de São Tomás: parece que Deus não ama todos os seres. E ele vai colecionar quatro argumentos adversos, para introduzir o debate, em apoio à hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento adverso lembra que é próprio do amor fazer com que aquele que ama de certo modo saia de si e habite no amado. De certo modo, portanto, quem ama de verdade se exterioriza de si mesmo e se transfere ao outro. Mas como Deus poderia transferir a si mesmo para uma criatura, como poderia habitar em seres criados? Somente Deus, diz o argumento, é digno de receber-se, de apresentar habitação digna do próprio Deus, vale dizer, segundo o argumento, somente Deus é um receptáculo digno do amor divino. Daí o argumento conclui que Deus não ama aquilo que é diverso de si mesmo.

O segundo argumento objetor até admite que Deus possa amar aquilo que é diverso de si mesmo, mas apenas enquanto as coisas estão nele próprio, como concebidas. O argumento lembra que o amor de Deus é eterno por definição, mas as coisas não são eternas em si mesmas. As coisas têm, porém, uma dimensão de eternidade porque são total e eternamente concebidas em Deus antes de serem efetivamente criadas e existirem. E é desta maneira, segundo o argumento, que Deus as ama; ele ama a concepção que tem da criação, ou seja, a razão que as coisas têm nele mesmo, antes (ou mais precisamente além) da própria existência concreta das criaturas. Em suma, Deus ama as criaturas apenas enquanto elas existem nele mesmo, porque, então, não são diferentes dele próprio. Quanto ao próprio universo criado, extenso e subsistente como diverso de Deus, ele não o ama. E o argumento conclui que, mesmo amando as criaturas enquanto são concepções em si mesmo, ele não ama nada diferente de si mesmo. Este é, diríamos hoje, o argumento deísta: Deus existe ele nos criou, mas já não cuida de nós nem se importa conosco, porque tem mais o que fazer.

O terceiro argumento objetor classifica o amor em amor de concupiscência e amor de amizade, ou de benevolência. Esta classificação é muito séria e importante, não só na antropologia filosófica como até na teologia cristã: o amor de concupiscência é aquele que deseja algo no outro que não tem em si; é o amor que cobiça no outro aquilo que lhe falta, que precisa para se completar. Na bela encíclica “Deus Caritas Est”, o Papa Bento XVI explica que este primeiro amor, embora imperfeito, é necessário para a criatura que, percebendo que o outro lhe completa, sai de si para encontrar-se no outro. A falta deste amor induz, diríamos hoje, a depressão, a acídia e o impulso orgulhoso de autodestruição. O segundo tipo de amor, chamado de “amor de amizade” por Aristóteles e de “amor de benevolência” por Santo Agostinho, é aquele impulso de amor que nos leva a nos doar ao outro, a querer servir-lhe, a querer compartilhar para o outro aquilo que nós próprios somos. E o argumento prossegue, dizendo que seria indigno de Deus mover-se por um amor de concupiscência, porque Deus é perfeito e completamente feliz, e não precisa de nada além dele mesmo. Além disso, o argumento prossegue, Aristóteles lembra que o amor de amizade pressupõe que amante e amado sejam seres inteligentes, já que tal amor sempre envolve reciprocidade. Portanto, diz o argumento, ainda que pudéssemos admitir que Deus amasse os seres inteligentes, que são, em algum grau – ainda que mínimo – capazes de retribuir o seu amor, seria impensável que Deus amasse as criaturas irracionais, e menos ainda as inanimadas. Assim, o argumento conclui que Deus não ama todas as coisas.

O quarto argumento objetor lembra que, segundo as Escrituras (Sl 5, 6) Deus odeia quem pratica a iniquidade. E o argumento prossegue nada pode ser ao mesmo tempo amado e odiado. Logo, Deus não ama todos os seres.

Por fim, o argumento sed contra também é escriturístico, retirado do Livro da Sabedoria (11, 24): Tu amas tudo o que existe, e não odeias nada do que fizeste. Nesta citação, a Revelação nos apresenta a universalidade do amor de Deus pelas suas criaturas.

Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.