Estamos debatendo, agora, os argumentos apresentados inicialmente nesta discussão, que procuravam provar a inconveniência de se atribuir amor a Deus. Veremos como São Tomás usa estes argumentos de modo inteligente para purificar nossas próprias noções sobre o amor de Deus e, em vez de simplesmente afastá-los como maliciosos ou inadequados, incorpora-os para elevar o debate.

O primeiro argumento diz que não pode haver amor em Deus, porque o amor é uma paixão. No sentido clássico, a palavra paixão não descreve simplesmente aquela torrente de emoções e sentimentos que, hoje em dia, chamamos de “amor”. Paixão, no sentido clássico, é aquilo que acontece conosco, que nos é causado pela nossa relação com deus, com o mundo e com os outros. A paixão, portanto, no sentido clássico, é uma reação a uma interpelação externa que envolve sempre alguma alteração física em nós. Neste sentido, diz o argumento, se o amor é uma paixão, ele não pode ser encontrado em Deus, que não sofre nenhuma alteração, nenhuma interpelação que provoque nele emoções ou sentimentos, e principalmente alterações corporais. Deus, conforme o argumento, é absolutamente impassível, e portanto não pode amar.

São Tomás vai responder fazendo uma profunda análise antropológica, que estabelece um princípio que a pedagogia moderna redescobriu apenas recentemente: em nós, a capacidade de conhecer, ou faculdade cognoscitiva, somente nos move mediante a capacidade de querer, ou seja, a faculdade apetitiva. Vale dizer, por mais que conheçamos as coisas, elas não nos movem, não nos fazem sair de nós mesmos, enquanto não despertam de algum modo o nosso apetite.

E São Tomás prossegue em sua análise antropológica, estabelecendo que, mesmo no interior das nossas faculdades de conhecer, ou cognoscitivas, é a razão particular que tem a primazia, que provoca o primeiro movimento. Aquilo que nos interpela concretamente, aqui e agora, por meio dos nossos sentidos, é exatamente o que vai despertar a nossa curiosidade para que aprofundemos o nosso conhecimento. Interpelados pelo que é individual e concreto, através dos nossos sentidos, somos capazes de abstrair, julgar e raciocinar, e chegar ao conhecimento abstrato, universal, intelectual no sentido próprio, sobre a realidade. Assim, embora o primeiro e maior objetivo do intelecto seja atingir a verdade geral, universal, na prática ele parte da interpelação concreta da realidade para chegar ao conhecimento universal, abstrato e geral.

São Tomás faz, aqui, um paralelo entre o intelecto e a vontade: do mesmo modo que o concreto, o particular, interpela o intelecto em primeiro lugar, para encaminhá-lo ao seu objetivo mais profundo, que é a verdade em geral, igualmente as coisas concretas, sensíveis e particulares interpelam nossa sensibilidade e geram nosso apetite sensitivo, movendo-nos em primeiro lugar. É por isto que São Tomás diz que o apetite sensitivo é o primeiro motor do corpo. Na antropologia de São Tomás, portanto, a relação do ser humano com as coisas materiais, concretas, é essencial para movê-lo. São Tomás desconhece o desprezo do mundo no sentido de certas asceses gnósticas, e vê os apetites sensitivos como o começo da caminhada espiritual de descoberta e aprofundamento, em nós, do próprio amor a Deus. A relação de atração entre a criatura corporal inteligente e as coisas materiais, portanto, para São Tomás, é essencialmente boa, mas não deve ser um obstáculo para a ascese, no sentido de que não devemos nos deter nela. É um bom começo, que deve ser ordenado ao amor das coisas mais elevadas. É a interpelação que as coisas materiais fazem ao nosso apetite sensitivo que nos move em primeiro lugar, mas não devemos parar aí. No entanto, e prosseguindo, São Tomás dirá que, em nós, os atos do apetite sensitivo, que sempre precedem e acompanham os atos do apetite intelectual que é propriamente chamado de “vontade”, são inseparáveis entre si. Somos seres materiais, responsivos, e por isto não há, em nós nenhuma “vontade pura” que se apresente sem alterar a nossa corporeidade. Por isto, em nós, a alegria, o amor, o desejo, mesmo quando têm por objeto o dado inteligido, e não são simplesmente uma reação instintiva e animalesca, ainda assim são sempre paixões, no sentido de que resultam de interpelações sensíveis e são inseparáveis das alterações corporais que caracterizam os nossos atos de vontade. A apatia, no sentido estoico da “eliminação de todas as paixões” como “caminho de elevação espiritual”, não é parte do caminho espiritual tomista. Somos seres inseparavelmente espirituais e materiais, e portanto nossa vontade é inseparável de nossas paixões, embora o objetivo do humano seja sempre ordenar as paixões, submetendo-as à inteligência, de tal modo que, embora sempre interpelados por elas, não sejamos simplesmente conduzidos de modo cego, mas possamos nos conduzir inteligentemente aos nossos objetivos finais. Não se trata, pois, de negar que possamos sentir palpitações cardíacas de amor, ou mesmo sentir o coração saltar de alegria. Trata-se apenas de não confundir os sintomas com a causa, ou mesmo com a própria coisa.

Mas em Deus não é assim. A vontade, em Deus, não pode ser pensada antropomorficamente. Se em nós, como seres materiais que somos, os atos da vontade estão sempre inextrincavelmente ligados à nossa corporeidade, isto não significa que seja da essência do ato de vontade envolver paixões e mutações corporais, de tal modo que tenhamos que negá-los de Deus para evitar o antropomorfismo. O que temos que negar é que estes atos propriamente da vontade, em Deus, estejam de qualquer maneira relacionados ou submetidos a sensibilidade material ou transmutação corporal. Assim, em Deus, o amor não é uma paixão, porque não envolve passividade e alteração emocional. Como a alegria, em Deus, tampouco é uma paixão. Em Deus, o amor e a alegria são atos unos e simples da vontade, puro gozo espiritual completo e indivisível. E São Tomás conclui – Deus ama sem paixão. O que não significa que ele ame menos, ou que se alegre menos. Ao contrário, é exatamente porque ama sem paixão, e porque se alegra sem palpitações, que o amor e a alegria, em Deus, podem ser infinitas.

A segunda objeção diz que as paixões se classificam por contrários, como o amor é contrário ao ódio. E conclui que, uma vez que um dos contrários não pode ser predicado de Deus (como no caso do ódio ou da ira), tampouco se poderia predicar dele o outro contrário, como o amor.

São Tomás vai nos dar outra aula de antropologia filosófica; ele distingue, nas paixões, uma parte estritamente “material” e outra parte “formal”. A parte “material” é aquela que designaríamos, hoje, de “fisiológica”, quer dizer, as alterações corporais resultantes da respectiva paixão, seja o amor, a ira, o ódio, enfim. A parte formal seria, propriamente, a parte do significado existencial da paixão. Assim, por exemplo, no caso da ira, a parte material seria o aumento da pressão arterial, a tensão muscular, a liberação de adrenalina no sangue, e assim por diante. A parte “formal”, ou significado existencial da paixão, seria o impulso de vingança. Por isto, em algumas paixões, diz São Tomás, há imperfeições mesmo na parte “formal”, digamos assim. Outras são perfeitas na parte formal, por implicar uma adequação, uma resposta conveniente à situação. Assim, no caso da ira, ela pressupõe uma tristeza causada ao sujeito, e o impulso de vingança, que pressupõe a vontade de realizar um mal ao outro; ou, no caso do desejo, ele é manifestado como um impulso em direção a algo que não se possui. Mas a alegria, que é o júbilo pelo bem presente, ou no caso do amor, que é a inclinação incondicional para o bem, não há nenhuma imperfeição pressuposta no sujeito, na parte “formal” destas paixões.

Assim, é claro que a parte, digamos, “material” das paixões nunca pode ser atribuída a Deus, porque Deus não é corporal. A parte formal das paixões, quando implica alguma imperfeição, é atribuída a Deus de modo impróprio, metafórico, como vimos na questão 19, porque não há movimento em Deus para o mal. Mas quanto às paixões que não implicam imperfeição formal, como a alegria e o amor, elas são atribuídas a Deus de modo próprio, pleno, originário; aliás, de modo plenamente perfeito e indivisível. Mas, uma vez que não implicam nenhuma materialidade, não podem ser chamadas exatamente de “paixões” senão de atos da vontade divina.

Por fim, a terceira objeção diz que o amor não pode ser atribuído a Deus porque o amor é sempre uma força de união, e Deus, sendo pleno e perfeito, não se inclina a unir-se a nada a não ser a si mesmo – mas nele mesmo não há, no sentido próprio, nenhuma “união”, senão a unidade perfeita. Assim, não há nele, propriamente, segundo o argumento, amor, porque não há nada que possa ser unido a Deus.

Mais uma vez, São Tomás vai dar uma aulinha, agora sobre a estrutura interna do ato de amor.

Agora, ele explica que o ato de amor tende sempre a dois objetos, o bem que se deseja a alguém ou a alguma coisa, e a própria coisa ou pessoa a quem queremos este bem. Por isto, quem ama a si próprio deseja o bem a si próprio, e, portanto, deseja unir-se com o bem ou usufruir dele. Neste sentido, uma vez que Deus é, essencialmente, o bem perfeito, o objeto do seu amor se dirige a si próprio como sujeito do bem, e ao seu próprio bem como objeto do gozo. É assim, diz São Tomás, que se pode falar de amor como virtude unitiva em Deus, embora nele não haja nenhuma composição. Ele quer o bem que ele próprio é, e o quer para si mesmo e para todas as criaturas.

Quando o amor tem por objeto a outro que não a nós mesmos, nós queremos a este outro o mesmo bem que queremos para nós mesmos, diz Tomás. Por isto é que amar ao outro sempre tem como pressuposto amar a si mesmo e a si mesmo querer o bem. Isto não é egoísmo nem egocentrismo, mas equilíbrio e discernimento. Ninguém ama sem amar-se, ninguém deseja o bem a outro sem vivê-lo em si próprio, e somente ama de fato quando ama o outro como um alter ego, um outro eu. E neste sentido o amor é uma força de união, porque nos faz referir ao outro o bem que a nós mesmos queremos, integrando-o perfeitamente em nós. É neste sentido que o amor é uma força de união em Deus, por representar sua coesão interna perfeita e por levá-lo a generosamente criar-nos para que possamos participar daquilo que ele tem de melhor – ele mesmo. Deus é o amor, e tão perfeito, que não poderia achar alguma coisa melhor para dar às suas criaturas senão ele mesmo.

Empolgante este pequeno canto da nossa catedral tomasiana. Faz-nos remeter a tanta coisa, à Trindade Santa, à encarnação, à paixão redentora de Jesus Cristo, ao Espírito Santo, enfim, tive que me conter para não divagar, e aprender, com São Tomás, a saborear uma coisa de cada vez, respeitando os degraus da sua construção maravilhosa – sem me render à tentação, tão contemporânea, de pular etapas e chegar logo ao fim. Precisamos redescobrir a contemplação.