No texto passado, vimos como São Tomás apresenta o debate sobre o amor de Deus. Ele apresenta a hipótese controvertida de que parece que não há amor em Deus, e três argumentos objetores, em respaldo a esta hipótese. O primeiro argumento diz simplesmente que o amor é uma paixão, no sentido de que é algo que se sofre, que se recebe e reage, não algo que se faz; o segundo argumento diz que as paixões são classificadas por contrários, como o ódio, a ira, a tristeza, a alegria, etc. Uma vez que não se pode falar propriamente de ira, ódio ou tristeza em Deus, então também não se poderia falar propriamente de amor, nele. E o terceiro argumento diz que, uma vez que o amor é uma força unitiva, ele pressupõe a composição, ou seja, a união de dessemelhantes. Mas, sendo Deus a unidade plena e perfeita, a rigor ele não se une a nada, porque não precisa de nada para ser pleno. Estes três argumentos objetores concluem, portanto, que não é próprio falar de amor em Deus. Como argumento sed contra, porém, São Tomás traz uma palavra revelada, das escrituras: “Deus é amor”, (1Jo 4, 16). Aqui, mais uma vez, São Tomás usa a Revelação para forçar seus debates filosóficos a irem mais longe sem perderem sua razoabilidade intrínseca.

Veremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás. E ele começa logo de modo firme: é necessário afirmar o amor em Deus. E ele vai começar, como é usual, dando-nos uma aula sobre o que é o amor.

O amor, diz São Tomás, é o primeiro movimento da vontade, ou de qualquer virtude apetitiva. Esta é uma definição genérica, ainda não se está falando especificamente de Deus, aqui. Trata-se de notar, dentro da concepção aristotélico-tomista, que as coisas se inclinam, são atraídas, tendem a mover-se para além de si mesmas, do seu repouso, da sua estabilidade inicial. Mesmo as coisas inanimadas, como no caso da gravidade, que inclina as coisas umas às outras, pela atração recíproca. No tempo de São Tomás, a física julgava que o centro do universo era o centro da Terra, para onde todas as coisas pesadas inclinavam-se naturalmente. Hoje, a física sabe que não é assim, mas a teoria gravitacional também pode servir de sustentação à filosofia aristotélico-tomista no particular. Neste sentido, pela definição que São Tomás apresenta aqui, a força da gravidade é também uma forma de amor. Assim, qualquer tendência, inclinação, apetite ou vontade tem o seu primeiro movimento naquilo que São Tomás chama de “amor”. E mais propriamente, a vontade, que é o apetite relacionado à inteligência, inclina-se àquilo que é inteligido – ao que conhece e reconhece como apetecível, a vontade ama, e portanto se inclina em sua direção.

Portanto, ele chama de amor à vontade que sai de si mesma, que se inclina para alguma coisa. Mas o que é isto a que a vontade se inclina? Poderia ser o bem ou o mal, se a vontade fosse indiferente. Mas ela não é, e São Tomás já demonstrou isto em textos anteriores, em debates que já tivemos a oportunidade de comentar aqui. A inclinação da vontade é sempre para o bem, por si mesmo. Mas ela pode se inclinar eventualmente para o mal (considerado como o oposto do bem).

Em si mesmo, o mal, por definição, é aquilo que não atrai a vontade. Acidentalmente, no entanto, quando este mal é reconhecido, pela inteligência, sob alguma razão de bem, ele pode atraí-la. Portanto, diz Tomás, do mesmo modo que o bem tem prioridade sobre o mal, quanto a mover a vontade, então os atos da vontade – e dos apetites em geral – que dizem respeito ao bem têm prioridade sobre os atos que dizem respeito ao mal. Por isto, diz São Tomás, a alegria tem prioridade sobre a tristeza, porque esta se define como a dor causada pelo mal apreendido como presente. Ora, o mal presente só causa dor porque ele repele a vontade, isto é, porque a vontade, que se move pelo bem, percebe que há algo presente que não lhe provoca um movimento de inclinação, de atração, mas de repulsa, por ser mau. Ou seja, todos os atos da vontade que se relaciona com o mal são, diríamos, subsidiários com relação àqueles que se relacionam com o bem. É neste sentido, portanto, que São Tomás diz que o amor tem prioridade sobre o ódio, a alegria sobre a tristeza, a esperança sobre o desespero, e assim por diante.

Colocada esta ordem de prioridade do bem sobre o mal, e do amor sobre o ódio e todos os seus consectários (que pode nos parecer inusitada e injustificadamente otimista, num tempo tão niilista e deprimido como o nosso, mas é rigorosamente razoável), São Tomás passa a estabelecer outro pressuposto, um pressuposto de generalidade: entre a verdade geral, ampla, e verdades particulares, o intelecto busca sempre a verdade geral. Todos nós sentimo insto em nossa experiência cotidiana: ninguém se satisfaz em saber alguma parte da verdade, ou mesmo algum aspecto dela; é próprio do ser humano a busca pela verdade inteira.

Também é assim com o amor: o nosso apetite, a nossa vontade, nunca repousa naquele pouquinho de bem que alcança. É próprio da vontade buscar sempre mais. E São Tomás vai nos descrever a relação da vontade com o bem; aquele bem alcançado, presente, possuído, gera em nós a alegria e o prazer. Aquele bem que se almeja, mas que ainda não se alcançou, gera em nossa vontade o desejo e a esperança de obtê-lo. Em ambos os casos, porém, há a inclinação fundamental e incondicional da vontade para o bem, ou seja, o amor – que é exatamente esta inclinação da vontade para o bem em geral, quer aquele que já se tem e se goza, quer aquele que se deseja e se espera obter de alguma maneira. Enquanto a alegria, o prazer, a esperança e o desejo relacionam-se com o bem de maneiras parciais, específicas, o amor relaciona-se com o bem de maneira universal, geral. Ele é, por assim dizer, a raiz de todas as outras maneiras de relação entre a vontade e o bem. É o primeiro movimento, ou seja, aquilo que faz com que a vontade saia da inércia. Por exemplo, o próprio ódio se desencadeia porque alguém reconhece em outro, ou em alguma situação, algo que se opõe ao bem amado. A alegria acontece porque alguém reconhece a presença do bem amado; a tristeza, porque alguém vivencia a ausência do bem amado, e assim por diante. Pode-se dizer, pois, que o amor é o primeiro motor de todas as inclinações, de todas as paixões, de todos os movimentos daquele ser. Não poderíamos ver, na raiz do desânimo que é epidêmico na nossa sociedade contemporânea, exatamente uma fraqueza no amar? Não seria este exatamente o vício que os antigos chamavam de “acídia”, e que traduzimos hoje por preguiça, mas é muito mais profundo – e poderia ser descrito como a recusa de amar?

Portanto, se alguém tem uma vontade, necessariamente há de ter amor, porque, eliminado o amor, elimina-se a própria vontade. É por isto que São Tomás nos lembra que nossos debates nas questões anteriores – em especial na questão 19 – já nos fizeram ver que Deus tem uma vontade. Isto nos obriga a admitir, portanto, que Deus ama.

São Tomás passará, agora, a responder às objeções iniciais. É o que veremos no próximo texto.