Se o amor é uma paixão, ou seja, se é algo que se sofre e não algo que se faz, como se poderia dizer que em Deus há amor? É este o problema proposto aqui por São Tomás. E não é um problema menor. De fato, embora tenham chegado na noção do “Motor Imóvel”, ou do “Demiurgo”, ou do princípio primeiro, os gregos jamais atinaram com a possibilidade de atribuir amor a Deus. Falo dos gregos por causa da complexidade de sua cultura, mas desconheço qualquer cultura ou religião que jamais tenha chegado à noção de que Deus, essencialmente, é amor.
De fato, sempre houve a ideia de que amar é, basicamente, sentir-se atraído por aquilo que não se tem, ou usufruir daquilo que se conseguiu. Estas ideias seriam, pois, incompatíveis para Deus: se Deus ama, então ele tem necessidade de alguma coisa que ele não tem, ou goza de alguma coisa que ele conquistou. Em qualquer caso, portanto, Deus não seria perfeito, porque a ele faltaria justamente aquilo que desperta-lhe amor. A ideia de perfeição divina, portanto, excluiria a ideia de que Deus pudesse amar. Exatamente porque é perfeito, porque é completo, porque não precisa de nada, e porque tudo o que está fora dele mesmo é imperfeito, incompleto e potencialmente sujeito à tragédia e a infelicidade é que, em sua completude e perfeição, Deus sequer poderia tomar conhecimento daquilo que está fora dele mesmo – salvo para submeter ao seu serviço despótico. Deus é puro pensamento, dizia Aristóteles, e pensamento que pensa somente em si mesmo – noeseus noesis. Mesmo a noção de “bem” como ideia suprema, de matiz platônica, não é uma noção que envolve a concepção do bem como pessoa, e portanto a ideia de “bem”, embora seja a culminação do sistema platônico, não pode amar.
Seria preciso esperar a revelação cristã de que “Deus é amor” para entender que o amor não se limita à concupiscência, à cobiça, à atração, ao gozo da conquista, mas supera-se como “amor de benevolência”, amor que se doa, que quer atrair todos e tudo ao bem que ele próprio é e espalha. Se Deus é amor, e se Deus é perfeito, em Deus o amor não é uma carência, mas uma superabundância, um movimento puro e completo de doação integral, não de cobiça. O amor de concupiscência é também uma dimensão de amor – como bem nos explica o papa Bento XVI na sua carta “Deus Caritas Est”, mas é uma dimensão de amor essencialmente criatural. O amor de benevolência é o amor característico de Deus, mas do qual podemos e devemos participar, quando a isto somos chamados e capacitados por sua graça. Nosso primeiro movimento de amor criatural, portanto, é inclinarmo-nos para aquilo que reconhecemos não ter. Mas a perfeição do amor é dividir aquilo que recebemos. Amar a Deus sobre todas as coisas, amar ao próximo como a nós mesmos. Toda a lei e os profetas, ensina Jesus, estão contidos nestes dois mandamentos.
O certo é que nossa contemporaneidade não chegou nem ao amor de concupiscência: reconhecer aquilo que não temos e desejá-lo, para usufruir da sua presença, é um traço humano pleno, porque pressupõe o discernimento inteligente do que somos e do que precisamos. Mas nós estamos presos, ainda, no campo da libido: somos conduzidos por nossos impulsos, não os conduzimos. Consideramos que nossos impulsos nos dominam, e que a razão é apenas uma estrutura de justificação para atitudes que são tomadas sem nenhum tipo de participação da inteligência. Nada mais distante da visão de Aristóteles, nada mais distante da visão de Tomás. Para eles, o que nos faz humanos é exatamente o fato de conduzirmos os nossos impulsos e as nossas emoções, em vez de sermos simplesmente conduzidos por eles. E somos tão mais humanos quanto mais possamos conduzi-los, pelo desenvolvimento daquilo que eles chamavam de “virtudes”. As virtudes, portanto, são exatamente aquelas aptidões que nos permitem o autodomínio, ou seja, o progressivo domínio do instinto ou do impulso irracional pela inteligência.
Voltemos, pois, a São Tomás. A hipótese controvertida, aqui, é a de que não pode haver amor em Deus. E esta hipótese inicial será defendida por três argumentos objetores de natureza filosófica e teológica.
O primeiro argumento constata que em Deus não há paixões. De fato, a paixão, compreendida como a reação passiva da nossa pessoa frente a interpelação que as coisas ou os outros nos fazem seria completamente inaplicável a Deus. Em Deus, lembra o argumento, nem pode haver passividade, no sentido de ser interpelado, surpreendido pelas coisas, de modo a provocar, em Deus, alterações emocionais e fisiológicas, nem sequer pode haver surpresas, ou seja, não é imaginável conceber que alguma coisa pudesse surpreender Deus e provocar nele reações passivas. Mas, segundo o argumento, o amor é exatamente uma paixão, porque é algo que se sofre, inclusive com alterações fisiológicas e emocionais. Logo, conclui o argumento, o amor é algo impróprio e incompatível com Deus.
O segundo argumento vai na mesma linha, de negar a possibilidade de paixões em Deus. As paixões se classificam, segundo lembra o argumento, por um quadro de oposições: o amor, o ódio, a ira, a tristeza, o prazer, estas todas são paixões que se opõem como contrárias. Ora, diz o argumento, se não se pode atribuir propriamente a Deus paixões como a ira e a tristeza, e apenas se fala de uma “ira de Deus” ou mesmo de uma “tristeza” de Deus de modo figurado, estritamente metafórico, então tampouco se poderia, diz o argumento, falar propriamente em amor, com relação a Deus. Assim, o argumento conclui que em Deus não existe propriamente o amor, e apenas em sentido figurado, metafórico, é que podemos atribuir amor a Deus.
O terceiro argumento parte da simplicidade de Deus, e de sua perfeição. O amor, diz o argumento, é uma força de união daquilo que, em si mesmo, é separado. O amor reúne concretamente algo com outro algo. Ora, diz o argumento, Deus é absolutamente simples e perfeito, e não tem sentido falar que Deus “se una” a algo. Assim, diz o argumento, não é possível falar propriamente de amor em Deus.
Por fim, o argumento sed contra faz aquela citação da qual havíamos mencionado acima, em que São João, na sua primeira epístola, nomeia Deus (1Jo 4, 16): “Deus é amor”. Vale dizer, a Revelação nos demonstra que se pode, sim, falar propriamente de amor, com relação a Deus.
No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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