Em eras pré-nominalistas, havia num nome mais do que um simples rótulo gratuito que se impõe às coisas para fins de dominação. No nome há referência a um conceito, que é a expressão do “verbo mental” – vale dizer, a expressão comunicada da própria forma da coisa, assimilada de modo intencional pela inteligência. O nome, portanto, remete à própria forma da coisa, possuída intencionalmente pelo intelecto. Em tempos não tão economicistas como os nossos, a única forma de efetivamente possuir alguma coisa era contemplá-la e assimilá-la. Conhecê-la era realmente tê-la na inteligência. Contemplar é adquirir. Hoje, adquirir é comprar.
Mas, na concepção clássica da nomeação, nomear é, de algum modo, possuir a coisa nomeada. E com Deus? Poder nomeá-lo seria, portanto, de alguma forma possuí-lo, assimilá-lo. É possível nomear Deus?
Somente duas vezes em toda a Escritura aparece algo como um “nome de Deus”. A primeira é em Êxodo 3, 14, na famosa cena da sarça ardente. Em resposta à indagação direta de Moisés, que pergunta a Deus pelo seu nome, ele responde: “eu sou aquele que sou”, ou, em outras traduções, “eu sou aquele que é”. Este nome, tão profundamente filosófico, pode ser mais um encobrimento do que uma revelação, uma negativa de dar um nome do que propriamente uma nomeação. Se os filósofos gregos, mais tarde, lutarão tão profundamente com a noção de “ser”, apresentar-se como “aquele que é” é, ao mesmo tempo, declarar-se como existência plena e recusar-se qualquer limite.
A outra nomeação está na Primeira Carta de São João, 5, 16. Deus é amor. A questão desloca-se, pois, profundamente, do âmbito ontológico, quase filosófico, no qual tinha se instalado, para o âmbito da relação, em sua dimensão mais profunda. Dizer que Deus é amor não contradiz a noção de que ele é aquele que é. Mas a completa de forma surpreendente e maravilhosa: aquele que é descreve-se como aquele que se doa completamente. E esta noção deve subjazer a toda tentativa de falar sobre Deus, de abordar seu mistério maravilhoso. Falar sobre Deus é falar sobre aquele que é o ser, mas cujo movimento essencial é doar-se.
Mas chega de exegese amadorística. Voltemos a São Tomás. Estamos entrando na questão 20, que tratará do amor de Deus. Em sua pedagogia maravilhosa, ele começa esta questão tratando da vontade humana, para estabelecer um critério para estudar a vontade em Deus. Em nós, seres humanos, a vontade é o apetite que se relaciona com a inteligência. Nela, segundo a psicologia de São Tomás, encontram-se tanto as chamadas “paixões” (aquilo que recebemos, e que mais propriamente hoje descreveríamos como “emoções”, como a ira, a alegria, a tristeza, etc.) quanto os chamados “hábitos morais”, ou virtudes morais, como a justiça, a fortaleza e a temperança. As paixões, como o próprio nome diz, trazem uma noção de passividade, ou seja, descrevem aquilo que mais propriamente acontece conosco, é causado em nós a partir de fora, do que propriamente aquilo que fazemos. As paixões são causadas, são “sofridas”, mais do que atuadas ou “agidas”. As virtudes, por outro lado, são cultuadas, adquiridas, mediante nossas escolhas adequadas ou nossas renúncias conscientes. Virtudes não são propriamente ações; seriam antes capacidades adquiridas em razão da busca deliberada pelas ações adequadas. Ambas, paixões e virtudes morais, habitam em nossa vontade, caracterizando-a.
E em Deus? Haverá em Deus paixões, no sentido de receber passivamente, em sua vontade, algum estímulo que lhe desperte emoções? Será que Deus tem virtudes, no sentido de capacidades cultivadas que o habilitem a agir bem? São Tomás explica, então, que passará a debater, agora, sobre a própria vontade de Deus, em si mesma, perquirindo em que medida se pode falar em “paixões divinas” (o amor, especificamente), e em que medida se pode falar em “virtudes divinas” (a justiça e a misericórdia, especificamente, que serão debatidas na questão 21).
Com relação ao amor em Deus, ou mais propriamente o amor de Deus, a proposta é desconcertante; São Tomás propõe que debatamos se existe amor em Deus, para começar. Em que sentido podemos falar de “amor”, quando falamos de Deus? Em Deus o amor implica uma passividade, um “receber”, ou seja, falta alguma coisa em Deus que ele venha a desejar? E qual o objeto deste amor divino, ou seja, o que será que Deus ama? O amor de Deus é causado pela bondade e beleza das coisas? Mas não é Deus a perfeição suprema? Como poderia ele ser atraído pelo bem que há nas coisas, se ele é o bem por excelência? E em que medida alguma coisa poderia atrair mais a vontade de Deus do que outra; será que Deus tem preferências? Será que ele prefere as coisas melhores? São as coisas melhores que têm o poder de despertar o amor de Deus, ou será que alguma coisa é melhor porque Deus a faz assim? Não seria injusto que Deus preferisse alguma coisa, se ele criou todas? Deus não deveria ser indiferente com relação a todas as coisas que criou? Não é injusto que Deus ame individualmente, especificamente cada coisa, em vez de espalhar um amor genérico e impessoal sobre toda a criação indiscriminadamente? Deus pode ter preferências?
São muitas perguntas, e São Tomás não compartilha da minha ansiedade; ele é de outro tempo. Vamos, então, ao debate. No ritmo de São Tomás. Ou melhor, no ritmo do amor de Deus.
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