Aqui, Tomás trata de uma questão interessante: em que sentido podemos interpretar a vontade divina, como podemos perceber, a partir do real, qual a intenção por trás do gesto? Será que podemos imaginar que é possível perceber, em Deus, sinais desta intenção, contemplar a vontade pessoal de Deus através daquilo que contemplamos aqui na criação? Ou seja, é possível de fato inferir, a partir dos acontecimentos concretos, qual a vontade divina que se manifesta neles? A vontade de Deus inclui, em suma, a possibilidade de que possamos distinguir a pessoalidade do gesto que a concretiza, ou seja, será que Deus permite e quer que estabeleçamos uma relação real com ele, discernindo sua vontade nos sinais que nos cercam? A vontade de Deus inclui a intencionalidade por trás dos acontecimentos, de tal modo que possamos tomá-los por sinais desta pessoalidade divina que preside, com seu amor e sua providência, o caminhar da criação?
A hipótese controvertida aqui é a de que não se podem distinguir sinais da vontade de Deus, de modo a discernir sua intencionalidade pessoal por trás dos acontecimentos. A providência na criação seria, assim, uma “matéria bruta”, que deveríamos simplesmente aceitar como fato, como acaso ou como destino, sem possibilidade de uma “leitura” amorosa da providência nos acontecimentos que nos encaminhasse a uma relação pessoal com Deus pela compreensão de algum sentido que ele pudesse nos imprimir na história. A hipótese inicial, portanto, é no sentido de que Deus não nos manda sinais; ele simplesmente faz o que quer, e pronto.
O primeiro argumento objetor, no sentido da hipótese controvertida, diz o seguinte: ninguém procura “sinais da inteligência de Deus” nas coisas e nos acontecimentos. Mas a inteligência de Deus é causa das coisas, assim como a sua vontade. Logo, conclui o argumento, tampouco devemos procurar sinais de sua vontade.
O segundo argumento diz que um sinal sempre significa aquilo de que é sinal; por exemplo, a fumaça é sinal de fogo. Mas quando buscamos discernir sinais da vontade divina, diz o argumento, ficaríamos com a seguinte situação: ou estes sinais são falsos, são falhos, porque não revelam a verdadeira vontade divina (imaginemos os falsos profetas que tomam eclipses e catástrofes naturais como sinais da vontade divina, e o interpretam de modo catastrofista, para fins muitas vezes inconfessáveis de dominação religiosa), ou são verdadeiros, e portanto supérfluos (como no caso de alguém interpretar que se as coisas existem, então elas são conformes à vontade de Deus, e cair num conformismo até mesmo pecaminoso). Disto, o argumento conclui que Deus não manda sinais de sua vontade, mas simplesmente age.
Como argumento contrário, São Tomás traz mais uma citação bíblica. O argumento sed contra inicia lembrando que a vontade de Deus é una, como é una a essência divina. Mas uma vez que a criação é composta e complexa, a vontade divina se manifesta na criação de modo plúrimo, variado, complexo, de modo a permitir sua leitura, ou a reconstituição desta integridade essencial, a partir das diversas manifestações concretas desta vontade na criação. É possível, então, tomar os diversos acontecimentos e manifestações concretas como verdadeiros sinais da vontade divina em sua inteireza original, percebendo a pessoalidade da mão amorosa do criador a partir do que sucede concretamente na criação em relação com ele. Esta pluralidade concreta, que sinaliza para a pessoalidade do amor divino que subjaz ao seu agir na criação, segundo o argumento, se revela em passagens como o Salmo 11, 2: “Grandes são as obras do senhor, dignas de estudo para quem as ama”. Assim, o argumento conclui que se inclui na vontade de Deus que possamos compreender a sua vontade por sinais.
São Tomás passa a nos oferecer sua resposta sintetizadora. Nela, ressai a cautela nesta relação com Deus, em especial com a facilidade com que somos induzidos a tomar os acontecimentos como sinais da vontade de Deus e interpretar, por assim dizer, o “estado de espírito” de Deus a partir dos acontecimentos do mundo. Eis uma tarefa perigosa, que Tomás vai cercar com todos os cuidados.
Por um lado, não se pode limitar a relação com Deus à palavra expressamente revelada num livro sagrado, de modo a tornar a criação opaca e estranha à sua vontade.
Por outro lado, não se pode simplesmente interpretar o próprio Deus de modo antropomórfico, a partir dos acontecimentos da criação, porque, embora haja de fato uma analogia entre a criatura e Deus, é preciso lembrar que nós é que somos criados à imagem de Deus; isto significa resistir bravamente à tentação de criar, pela interpretação da natureza, um deusinho à nossa própria imagem e semelhança, projetando em Deus aquilo que é indigno dele. É por isto que o IV Concílio de Latrão, transcrito no Catecismo da Igreja Católica (§ 43), nos ensina que “entre o Criador e a criatura, não é possível notar uma semelhança sem que a dissemelhança seja ainda maior”.
São Tomás vai começar, então, lembrando que algumas coisas nós podemos afirmar de Deus de modo próprio, como a perfeição, o bem, a unidade, e assim por diante. Mas algumas coisas somente podemos afirmar dele de modo metafórico, em razão de alguma semelhança com a criatura – e sempre com a consciência de que essa semelhança sempre pressupõe uma dessemelhança ainda maior. Assim, quando interpretamos algum comportamento humano como sinal de alguma paixão, de alguma emoção em nós, temos que ter muito cuidado ao interpretar algum acontecimento como sinal de alguma paixão ou emoção em Deus. Neste caso, temos que ter consciência de que estamos no campo da metáfora, com todos os cuidados e limites que esta forma de falar pressupõe.
São Tomás nos explica que, muitas vezes, quando vemos os pais punindo uma criança, eles estão tomados pela ira, e punem apaixonadamente. Assim, quando vemos alguém sofrer as consequências ruins de sua conduta, algumas vezes, por metáfora, dizemos que ele sofre a ira de Deus.
São Tomás prossegue, citando um outro caso em que a metáfora é possível; trata-se de quando um superior hierárquico dá uma ordem ao subordinado. Neste caso, diz São Tomás, esta ordem é o sinal evidente de que a vontade do superior é que o subordinado adote a conduta prescrita na ordem. Pode-se dizer, então, que o comando emanado do superior hierárquico é um sinal da sua vontade.
Mais uma vez, então, podemos dizer, também metaforicamente, que tudo aquilo que está contido nos preceitos divinos revelados é um sinal da vontade divina, e é por isto que Jesus ensinou seus discípulos a rezar assim; “Seja feita a vossa vontade” (oração do Pai Nosso, Mt 6, 10).
Assim, diz-se que o preceito divino é um sinal da vontade divina, como o preceito humano é um sinal de uma vontade humana. E metaforicamente, chamamos a este sinal de “vontade de Deus”. Mas nós chamamos assim, lembra São Tomás, de maneira imperfeita, imprópria. Metafórica.
Para concluir, portanto, ele nos diz que há como discernir, de fato, sinais da vontade de Deus, como quando presumimos, nos acontecimentos que nos cercam, traços da pessoalidade divina, mas expressamos esta pessoalidade com palavras que incluem paixões humanas (como a ira), que só muito impropriamente se aplicam a Deus. Também é impropriamente, metaforicamente, que atribuímos aos preceitos revelados a condição de “vontade de Deus”, da qual eles são apenas o sinal, mas não a vontade em si.
Mas isto não significa que Deus não tenha uma vontade, em sentido próprio, e que, cada vez que falamos da vontade de Deus, estejamos falando sempre de maneira metafórica. Deus tem uma vontade, e esta afirmação não é metafórica. É em sentido próprio que Deus tem uma vontade. Mas esta vontade, que se confunde, em Deus, com sua essência mesma, é inesgotável e misteriosa para nós. Sempre a compreendemos de modo parcial, limitado, analógico, enquanto em si mesma ela é una, íntegra, perfeita e amorosíssima.
Assim, ao sinal da vontade de Deus chamamos de “vontade de sinal”, porque atribuímos ao próprio sinal a condição de “vontade de Deus” por metáfora. Devemos estar, pois, sempre muito conscientes desta limitação humana, quando nos relacionamos com os preceitos divinos revelados ou com a tentativa de interpretação teológica de acontecimentos.
À própria vontade de Deus, tal como é em si mesma, perfeita, amorosa e infinita, libérrima e inesgotável em sua dimensão de mistério, São Tomás chama de “vontade de beneplácito”, e nos ensina que esta nomeação não é metafórica, mas própria.
São Tomás passa agora a responder às objeções iniciais. A primeira objeção diz que, uma vez que ninguém fala em “discernir sinais da inteligência de Deus”, e a inteligência de Deus é tão causa da criação quanto a sua vontade, então tampouco poderíamos falar em “sinais da vontade de Deus”. São Tomás responde que a inteligência não é causa do que fazemos do mesmo modo que a vontade é. É somente através da vontade que a inteligência pode causar alguma coisa. Aquilo que sabemos transforma-se naquilo que fazemos quando queremos, quer dizer, é a nossa vontade que transforma o nosso conhecimento em ação. Assim, não é possível fazer um paralelo perfeito entre os sinais da vontade e os sinais da inteligência. Reconhecer diretamente os sinais da vontade é possível, a partir daquilo que é feito. Mas apenas indiretamente reconhecemos nisto os sinais da inteligência, Diz São Tomás.
A segunda objeção diz que, se aquilo que discernimos como sinal da vontade de Deus não corresponde plenamente a esta vontade, então é falso; mas se corresponde perfeitamente, então é redundante, e por isto não haveria sentido em falar de “sinais da vontade de Deus”.
São Tomás responde alertando que temos que ficar sempre bem conscientes dos limites do que nós falamos quando estamos mencionando os “sinais da vontade de Deus”. Trata-se da nossa forma limitada, analógica, de discernir, nos acontecimentos complexos, aquilo que em Deus mesmo é simples e inesgotável. Mas o fato de que esta é uma forma aproximada, imperfeita, limitada, não significa que ela seja falsa ou inútil. Significa, apenas, que devemos nos municiar sempre de humildade, quando usarmos esta forma de nos referir à vontade de Deus.
E ele exemplifica: muitas vezes chamamos uma punição de “sinal da ira de Deus” não porque Deus, à maneira de um pai humano, fique cheio de paixão e de emoção ao punir; mas que, como em nós a punição é sinal de ira, chamamos a punição divina de “ira divina”. Isto em si mesmo não é falso, nem a rigor é um modo inútil ou redundante de falar; mas devemos estar conscientes dos imensos limites que se devem estabelecer ao falar assim. É muito interessante perceber, por exemplo, que o preceito revelado – sinal da vontade de Deus – quando violado, nunca desperta a ira divina, mas a sua misericórdia infinita. É por isto que, quanto à efetiva vontade de Deus, São Tomás a chama de “vontade de beneplácito”, e ressalta o mistério da liberdade divina que a torna incompreensível para o nosso modo humano de falar. Ali onde esperaríamos a ira infinita, pela interpretação (que julgamos inequívoca) de sinais, Deus nos revela o seu infinito amor. Isto é, a um só tempo, inesperado e profundamente coerente.
Que debate bom! Destes ensinamentos de São Tomás jamais poderíamos deduzir uma religiosidade intolerante, odiosa, radical e destrutiva. Não há a possibilidade de construir um fundamentalismo religioso, um fanatismo qualquer, a partir do pensamento tomista. Exatamente pelo cuidado que São Tomás adota sempre com relação aos nossos limites, quando falamos de Deus.
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