Será que Deus quer o mal? Estudamos a hipótese controvertida de São Tomás, que provocou o debate, e seus argumentos objetores, no último texto. Veremos agora a resposta sintetizadora de Tomás, bem como a refutação dos argumentos objetores iniciais.
A resposta sintetizadora de São Tomás marca sua noção de “bem”, tão diferente da noção que temos hoje. Hoje, “bem” é aquilo que alguma norma, emanada de algum poder, definiu como bom, ou seja, como desejável, obrigatório ou necessário. No tempo de Tomás, “bem” era um transcendental, ou seja, uma faceta do ser que se caracteriza por atrair a vontade. “Bem”, portanto, é, para toda a tradição na qual São Tomás se insere, a relação entre o ser e a vontade. O bem é o ser quando se relaciona com um apetite, atraindo-o. Note-se que a noção clássica de “apetite” inclui as tendências naturais dos seres inanimados, como a tendência dos corpos materiais de se atraírem pela força da gravidade – seguir no sentido da atração gravitacional seria o “bem” dos corpos materiais, e a ação de impedir que a força da gravidade se encaminhe a esta atração seria sempre “violenta”. Assim, quando os corpos inanimados seguem, uma “força” natural, ou quando os seres vivos seguem suas inclinações naturais, crescendo, alimentando-se, reproduzindo-se, estão todos inclinando-se ao bem. No caso dos seres inteligentes, eles são caracterizados pela capacidade de aprender conscientemente qual é o bem a que devem inclinar-se, e dirigir inteligentemente suas inclinações para ele.
É por isto que o apetite dos seres inteligentes, que é capaz de ser comandado por seu intelecto, chama-se “vontade”. A vontade é o apetite dos seres inteligentes inclinando-se conscientemente para o bem. Note-se que São Tomás acharia absurda a definição dada mais tarde por Guilherme de Ockham de que a verdadeira liberdade consiste em poder escolher livremente entre o bem e o mal, e negasse qualquer inclinação natural da vontade para o bem. Para Tomás, uma ideia desta tornaria irracional a própria noção de bem, porque esvaziaria seu significado: se o bem é aquele ser que atrai um apetite, e se não existe a inclinação para o bem, mas a indiferença entre o bem e o mal, então a palavra “bem” passa a não ter mais sentido. Se o mal é capaz de atrair a vontade também, não há mais diferença possível entre o bem e o mal, senão a obediência a um poder superior que seja capaz de impor juridicamente suas escolhas aos seres inferiores. Mas deixemos de digressões e voltemos a Tomás. E deixemos de lado, por enquanto, a noção de “liberdade de indiferença” de Ockham para adotar de novo a noção clássica de “bem” de Tomás.
Se é assim, se o bem se define pela capacidade que tem o ser de atrair um apetite, prossegue São Tomás, é impossível, por definição, que o mal possa atrair qualquer apetite. O mal é exatamente aquilo que repugna, que não move, que não atrai. Como explicar, porém, que ocorra o mal?
O mal atrai por acidente, diz São Tomás. Ele atrai porque apresenta algum bem ao apetite, ou seja, ele atrai na justa medida em que conduz ou induz algum bem. Nenhum agente, natural ou inteligente, busca a privação ou a destruição por si mesmas; com a destruição de uma forma, o que apetece é a geração ou a conservação de outra. Esta parece ser uma visão bem otimista de São Tomás, muito mais otimista do que a visão de bem e mal que temos hoje. (Ou mesmo da visão de natureza como competição para evolução, na qual a destruição é cega e a seleção, casual). E São Tomás, para ilustrar o que diz quanto aos seres irracionais, dá o exemplo do leão que caça uma gazela: não é a morte, a destruição da gazela em si que apetece o leão, mas o alimento que o mantém vivo, que não pode ser obtido sem esta destruição.
No caso dos seres inteligentes, e do mal moral, São Tomás diz que neste caso o mal vem sempre com aspecto de bem, entremeado com ele. E dá o exemplo do viciado em sexo: pela objetificação do outro, transformado em mero supridor de concupiscência, o viciado em sexo busca o prazer, mas o prazer, neste caso, não se separa da deformidade da culpa de quem consome, objetifica, apossa-se do outro egoisticamente. Mas este mal, da redução do outro a uma coisa, a um “isto” a ser utilizado, consumido e descartado, nunca moveria a vontade humana, nunca atrairia a vontade humana se ela não apetecesse o bem do prazer sexual mais do que lhe pesa a supressão do bem da dignidade pessoal do outro, ou seja, busca o bem do prazer sexual apesar do mal da degradação do outro. Trata-se, pois, de um equívoco na reta ordenação dos fins. Dentre o bem mais alto da dignidade pessoal do outro, e o bem mais baixo do meu próprio prazer sexual, a vontade torta do ser humano busca o bem mais baixo em prejuízo do bem mais elevado.
Este, em resumo, é o próprio conceito de pecado, diríamos numa breve digressão. Segundo Santo Agostinho, trata-se de uma “aversão a Deus, conversão às criaturas”. Quer dizer, o mal moral consiste em violar a hierarquia dos bens, deixar-se inclinar pelo bem menor, egoisticamente, permitindo ou causando a supressão de um bem mais alto. Vale dizer, aos filhos de Deus todo bem é permitido, desde que haja o respeito à ordem dos bens. Eis porque o eventual sacrifício de um bem menos elevado para obter um bem mais elevado não representa o mal no seu sentido próprio, embora, certamente, represente um mal particular para aquele bem que foi sacrificado. É o caso do martírio: o mártir sabe que a sua própria morte é um mal, mas ele o aceita porque ordena retamente a sua própria existência colocando o amor por Deus acima da consideração pela sua sobrevivência pessoal. Ele não quer o mal da morte, mas aceita-o heroicamente, quando se recusa a abjurar sua fé, para testemunhar o reto ordenamento da sua vontade ao amor de Deus acima da sua inclinação à sobrevivência física pessoal.
E quanto a Deus?
Em Deus a ordenação ao bem é perfeita. É claro que a própria essência divina representa o bem por natureza, e a ela Deus ordena em primeiro lugar a sua vontade. Havendo-nos criados para gozar livremente da sua infinita felicidade pelo gozo da sua bondade incondicional, Deus respeita a possibilidade de que as suas criaturas escolham desordenadamente, porque o gozo da bem-aventurança não pode ser imposto, sem contradição lógica, a um ser inteligente. É inevitável, porém, que, ao abusar da sua liberdade para deixar-se atrair pelas criaturas com desprezo ao criador, os seres humanos estão também renunciando ao único bem que os poderia preencher de gozo pleno. Deus aceita, então, que a privação do gozo pleno da bem-aventurança eterna nele próprio seja a consequência inelutável do abuso da liberdade humana, embora isto represente, para aquele que abusou da liberdade, a pena eterna da condenação – excluir-se do céu. Deus aceita e permite o mal da pena, embora não o queira em si mesmo, e o permite por um motivo perfeitamente razoável, ou seja, como consequência inelutável do fato de que somente na liberdade se pode gozar do amor divino.
Do mesmo modo quanto ao mal na ordem natural, exemplificado acima no caso do leão e da gazela: este mal é permitido por Deus, que quer o bem da ordem da natureza, e por isto permite que alguns bens particulares se corrompam naturalmente, em razão desta mesma ordem. Por isto, querendo a justiça, Deus quer a pena como um mal particular, e querendo a ordem da natureza, permite a eventual supressão de um ser em particular.
São Tomás passará, agora, a responder às objeções iniciais. A primeira objeção, como já vimos, parte da distorção de uma citação agostiniana. Diante da afirmação de Santo Agostinho de que, embora as coisas más sejam, em si mesmas, más, é bom que elas existam, no conjunto das coisas. Disto, o argumento diz que é bom que coisas más sejam feitas, e conclui que Deus quer o mal.
São Tomás vai responder que esta interpretação é equivocada, porque confunde o fato de que o mal acidentalmente se ordena ao bem, que é verdadeiro, com a ideia de que, pelo fato de que há esta relação acidental, o mal seria essencialmente bom – já que ele se entremeia com algum bem, o pode ser a ele reconduzido.
São Tomás registra que alguns pensadores chegaram mesmo a dizer que, embora Deus não queira o mal, ele quer que o mal exista, ou que seja praticado, porque, segundo eles, mesmo o mal se ordena essencialmente a algum bem, e deduziam isto da afirmação de que “é bom que as coisas más existam”. Este é um raciocínio equivocado, diz Tomás. Não é por si mesmo, mas apenas por acidente, que o mal acaba se ordenando a algum bem. E ele exemplifica, para que isto se torne mais claro; tome-se o caso dos mártires. Nenhum tirano intenciona prestigiar a paciência dos mártires, ou comprovar a verdade da sua fé, quando decide pela sua execução. A intenção dele é a de eliminar o sujeito, não de transformá-lo num mártir. Portanto, quem comete o mal estabelece a desordem entre os bens, mas não com a intenção de fazer brilhar a verdadeira ordem, ou de algum modo ver o equilíbrio da justiça restabelecido pelo mal da pena contraposto. O que ele intenciona, ao querer o mal, não é que dele surja um bem maior, mas obter o bem menor em prejuízo do bem maior, mesmo. Não é em razão de sua intenção, portanto, que o bem maior vem a surgir mesmo quando o mal é deliberadamente praticado. Não se pode julgar o mal particular por aquilo que ele acaba acidentalmente resultando quanto ao bem maior. Nero não é um santo por ter dado oportunidade de termos tantos mártires no céu. Este é o erro no raciocínio desta primeira objeção, diz Tomás. Não se julga uma coisa pelo resultado que lhe é acidental, mas pelo objeto que lhe é essencial. Portanto, não é à essência do mal que a vontade de Deus se dirige jamais.
O segundo argumento objetor cita o [pseudo-] Dionísio, além do próprio Agostinho, para afirmar que, como o mal contribui para a perfeição do universo, ele é querido em si mesmo por Deus. São Tomás, aprofundando a resposta anterior, reafirma que o mal, por si mesmo, não contribui para a perfeição do universo – ele é, ao contrário, uma deliberada inversão na ordem perfeita. Acidentalmente, porém, uma vez que ordem sintetiza-se de um modo ainda superior do que a desordem causada pelo mal, em razão da própria providência divina da substancialidade do bem, o mal não pode prevalecer. Mas não se pode, daí, chegar à conclusão de que o mal, por si mesmo, contribui para a perfeição do universo. Esta é uma conclusão, diz São Tomás, que o próprio Dionísio considera inadequada, inaceitável, e a citação está, portanto, fora do seu contexto.
A terceira objeção é aquela que diz que, do ponto de vista lógico, a alternativa entre “fazer o mal” e “não fazer o mal” é disjuntiva exclusiva, do tipo “ou/ou”, vale dizer, apresentando-se uma delas, a outra está absolutamente excluída. Assim, se afirmássemos que Deus não quer que o mal seja feito, teríamos que admitir que, quando o mal é feito, a vontade de Deus não prevaleceu, e ele portanto não pode ser declarado como onipotente. Disto, o argumento retira a ideia de que Deus quer o mal.
São Tomás dirá que esta é uma conclusão equivocada; não se trata de uma disjunção exclusiva, porque há uma terceira possibilidade: a permissão divina. Entre querer que o mal seja praticado e não querer que o mal seja praticado não há uma relação de disjunção exclusiva, diz Tomás, fazendo uma análise muito adequada destas proposições. Posso não querer que o mal seja praticado sem necessariamente querer impedi-lo, e isto sem gerar nenhuma contradição lógica. Permitir o mal é diferente de querê-lo, conclui ele.
E esta distinção entre a permissão divina e a vontade de Deus, que considera a sua onipotência e a sua providência capaz de harmonizar contingência e necessidade, livre arbítrio e liberdade, e promover o bem comum como uma síntese mais elevada de tudo isto, é, me parece, a grande lição que devemos levar deste artigo.
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