Mais uma discussão maravilhosa, que merece uma vista de olhos. O que é o mal? Uma deficiência no ser, diriam os antigos. A impossibilidade de alcançar a perfeição, a opção deliberada pela incompletude, pelo que é menos em comparação com o que é mais. Esta foi uma noção, em grande parte, perdida por nós na contemporaneidade.

Hoje, tendemos a achar que o bem é aquilo que alguma lei decreta como esperado ou desejado, e o mal, aquilo que alguma lei proclama como proibido ou indesejável. Se é assim, por definição, aquilo que Deus quer, ele decreta como bem e pronto, e passa a ser bom por um ato de poder de Deus. O critério para discernir o bem do mal seria totalmente jurídico, e Deus seria o grande legislador fundamental.

Exatamente por intuir que esta visão de Deus está equivocada, e pressupõe um deus tirânico e autoritário até em sua eventual misericórdia, desenvolveu-se um humanismo que pretende estabelecer, com base no poder da humanidade, aquilo que é bom ou mau para nós, e chama de “direitos humanos” aquilo que decreta como bom, e de “tirania” aquilo que decreta como mau. E, por esta visão, o poder legislativo de Deus seria um mal em si, porque aliena (conforme denuncia Feuerbach) a humanidade da sua própria autonomia.

Mesmo que Deus se comportasse como misericordioso, paciente, compassivo, se ele for o legislador supremo e incontestável, com o poder de definir inapelavelmente o bem e o mal por um ato imotivado de vontade, ele é o supremo tirano por definição. E não pode haver bons tiranos, pensam os humanistas. E, aliás, penso eu também. Mas eu sei que Deus não é assim, e que o bem não é um problema jurídico apenas.

Mas, uma vez que a contemporaneidade rejeitou a própria metafísica, está aprisionada entre os que defendem a tirania de Deus, considerando que “religião” é “submissão que aceita sem questionar”, e os que defendem a necessidade de resistir a Deus a qualquer preço, considerando que enquanto houver Deus a humanidade não pode ser livre em sua autonomia. Vê-se, portanto, aí, mais um traço de contemporaneidade: duas correntes em oposição, no interior de uma mesma concepção, digladiam-se por um problema que não teria que existir em sua origem, se pudéssemos resgatar-nos dos pressupostos errôneos em que nos colocamos. E o pressuposto errôneo, aqui, é o de que o bem e o mal são assuntos jurídicos, e não metafísicos. Seria interessante, então, acompanharmos este debate, que São Tomás propõe neste artigo, para verificar se pode nos ajudar com nossos dilemas no assunto.

O mal existe, eis uma constatação fática que se chega pela simples razão de estar vivo e observar o mundo. Qual a relação deste mal que existe com a vontade de Deus? Como pode existir o mal num universo criado por um Deus que se quer, ao mesmo tempo, onipotente e bom? Eis o debate que São Tomás não teme enfrentar agora. Ele propõe, para inaugurar o debate, a seguinte hipótese controvertida: parece que Deus quer o mal.

E São Tomás coleciona os três argumentos objetores mais fortes que encontra nos debates de sua época – e que são muito mais sofisticados do que o debate entre submeter-se a um tirano divino ou resistir a ele, que é basicamente o debate de hoje em dia. O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que certa feita escreveu que “embora as coisas más sejam, em si mesmas, más, no entanto que não só as coisas boas existam, mas também as coisas más, é bom”. Assim, desta citação, o argumento conclui que Deus quer o mal.

O segundo argumento parte de duas citações similares, que relacionam a existência do mal com a ordem e a completude do universo. A primeira é retirada do [pseudo-] Dionísio, que diz que “o mal contribui para a perfeição do universo”. A segunda é mais uma vez de Santo Agostinho, que diz: “a beleza admirável do universo resulta de seu conjunto. Nele, mesmo aquilo do qual se diz que é mau, quando bem ordenado e posto em seu devido lugar, evidencia ainda mais as coisas boas, pois elas agradam ainda mais, e ficam ainda mais louváveis, quando se comparam com as más.” E o argumento conclui que, uma vez que Deus quer a perfeição e a beleza do universo, sendo esta a vontade mais elevada de Deus para as criaturas, então ele quer o mal.

O terceiro argumento tem um fundo lógico: “fazer o mal” ou “não fazer o mal” são opostos contraditórios. Mas, se Deus quisesse que o mal não existisse, e mesmo assim o mal existisse, então isto implicaria que a vontade de Deus pode falhar; logo, o mal existe porque Deus quer que o mal exista.

No argumento sed contra, mais uma citação de Santo Agostinho: “ninguém pode tornar-se pior em consequência do agir de um homem sábio. Ora, Deus está muito acima de qualquer ser humano, mesmo sábio. Assim, muito menos alguém poderia tornar-se pior em razão do agir divino. E é claro que falar do agir divino é falar do querer divino.” Então, conclui o argumento, nunca é por vontade de Deus que o mal entra na vida das pessoas. E daí ele conclui que Deus não quer o mal.

Veremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.