Neste artigo, São Tomás debate a relação entre a vontade de Deus, que sempre se realiza, e a contingência das causas criadas. Trata-se, como discutimos no último artigo, de mostrar como a liberdade infinita de Deus, sua vontade maravilhosa e onipotente, é capaz de respeitar a consistência da criação e a liberdade humana, com todo seu potencial de falhar, para criar uma síntese de bem na qual a contingência e a liberdade das criaturas não entram em concorrência com a vontade de Deus, mas são integradas para realizar o bem mais elevado. Vimos a hipótese controvertida de que a vontade de Deus impõe necessidade a tudo o que ele quer, e o argumento sed contra, que absolutiza, por outro lado, o livre arbítrio criatural frente à onipotência divina. Estamos muito necessitados, portanto, da resposta sintetizadora de São Tomás.

São Tomás vai começar explicando que a vontade de Deus impõe necessidade a certas coisas que ele quer, mas não a todas. Vale dizer, aquilo que Deus quer acontecerá inevitavelmente, mas o modo pelo qual isto acontecerá pode decorrer de necessidade ou de contingência. Deus, como veremos, na visão de Tomás, é capaz de determinar que aquilo que ele quer aconteça necessariamente a partir de causas necessárias ou causas contingentes, respeitando, a um só tempo, a causalidade contingente e conduzindo toda contingência, numa síntese perfeita, a produzir aquilo que ele quer, sem violar sua contingência.

Como se dá isto? São Tomás diz que alguns foram buscar uma analogia com alguns seres que têm uma natureza de “causa primeira” em algum grau, como o sol. Para estes, a vontade de Deus se produz necessariamente quando se relaciona com causas necessárias, mas se produz contingentemente (vale dizer, pode ou não se produzir) quando se relaciona com causas intermediárias contingentes. No caso do sol, embora emitir luz e calor seja um efeito necessário seu, seu poder de fazer brotar as sementes das plantas é contingente, e ocorrerá conforme encontre sementes saudáveis, solo bom e água. Caso estas outras condições não se façam presentes, este efeito germinativo do sol não ocorrerá. Mas São Tomás diz que esta analogia não é boa, por dois motivos. Primeiro, porque a vontade de Deus, embora respeite a própria eventual contingência das causas intermédias, jamais pode ser impedida pela deficiência da sua contingência. Diferentemente do sol, a vontade de Deus, a um só tempo, respeitará a contingência das causas secundárias e ocorrerá necessariamente. O segundo motivo é que, nesta analogia, o fato de que as chamadas “causas segundas” são necessárias ou contingentes independentemente da causalidade do sol torna a situação completamente diferente da relação entre a criação e a vontade de Deus: as coisas criadas não são causas necessárias ou contingentes por alguma circunstância alheia à vontade de Deus, como se o livre arbítrio fosse alguma coisa que veio a acontecer na criação sem que o próprio Deus o tenha querido e criado. Diferentemente da ação do sol sobre a semente – em que as concausas, ou causas secundárias que influenciam no efeito são relativamente independentes do próprio poder causal do sol – a ação de Deus sobre a criação pressupõe um jogo de causalidade secundária que foi inteiramente concebido e querido pelo próprio Deus. Assim, seria inadmissível que Deus concebesse a criação de um jeito tal que sua vontade pudesse ser impedida de realizar-se pela contingência de uma causa secundária. Isto tornaria a própria criação irracional, sujeita ao acaso e à aleatoriedade, sem propósito, o que seria contrário não somente ao dado revelado, mas à própria constatação filosófica.

E São Tomás prossegue, para explicar que uma causa eficiente é tão mais eficaz quanto seu poder se estenda não somente ao que é produzido, mas também ao modo como é produzido. E exemplifica: uma vez que o ser humano, para ser causa eficiente de outro ser humano, depende de um meio contingente, a saber, os gametas sexuais, os defeitos nos gametas podem fazer com que o ser humano gerado seja também defeituoso. Vale dizer, a deficiência da causa intermediária, neste caso, impõe limites à causa eficiente primeira. Isto demonstra que o processo de geração humana não se pode comparar, em termos de eficácia, ao poder de criação de Deus. Em Deus, sua onipotência determina que não somente ele seja capaz de atingir, como causa primeira, os efeitos que quer, mas também que determine a maneira pela qual estes efeitos serão atingidos – se deseja efeitos contingentes, determina causas eficientes intermédias contingentes. Se deseja efeitos necessários, determina causas eficientes intermédias necessárias. Com isto, é capaz de garantir a ordem que deseja para o universo, que inclui a verdadeira causalidade das causas intermédias, e liberdade dos seres inteligentes e a contingência dos efeitos temporais. Inclui também a necessidade dos efeitos naturais, como descritos pelas leis físicas, naquilo em que os efeitos necessários são desejáveis pela ordem estabelecida por Deus. E neste jogo que inclui necessidade e contingência, ordem e liberdade, Deus é capaz de fazer, com seu poder infinito, com que sua vontade se realize plenamente. É preciso entender, com Tomás de Aquino, que não são as causas intermédias que condicionam o poder de Deus – como entendem aqueles que adotam uma visão mecanicista do universo, aquela visão que exclui a providência por compreender o universo como um “relógio” ajustado totalmente de modo necessário. Estes são “deístas”, vale dizer, acreditam que Deus criou uma máquina cósmica ajustada de modo necessário e se retirou para fazer outra coisa. Longe de São Tom´[as esta concepção. Ele compreende o poder divino como imediato e fundamental, inclusive sobre toda a causalidade existente no cosmos, e entende toda a causalidade criada não como limitador, mas como instrumento do poder imediato de Deus sobre a criação.

Tendo estabelecido isto tudo, ele vai passar a responder às objeções iniciais.

O primeiro argumento, como lembramos, parte de uma citação de Santo Agostinho, que diz que ninguém se salva a não ser que Deus o queira, e que é preciso pedir-lhe que queira, porque o que ele quer, é necessário que aconteça. São Tomás responde que a necessidade de que Santo Agostinho fala, aí, é uma necessidade condicional, não absoluta. Ou seja, não exclui o fato de que a vontade de Deus queira que algo se realize de modo contingente, e com a participação de causas contingentes. Este é o caso, dizemos nós, da salvação. Ela não exclui a participação das causas contingentes, ou seja, a nossa própria participação. E para completar minha digressão, lembro de uma outra citação de Santo Agostinho, na qual ele diz: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Mas a salvação, mesmo envolvendo a nossa colaboração, continua sendo de iniciativa divina, e um dom integral da sua graça. É um bom exemplo, portanto, de uma situação em que a vontade de Deus se realiza necessariamente num caso em que o efeito contingente depende de causas intermédias contingentes. Veremos isto na questão 23.

O segundo argumento objetor parte da ideia de que, uma vez que nada pode impedir a vontade de Deus, ela impõe necessidade àquilo que ela quer. São Tomás concorda que nada pode impedir a vontade divina. Mas acresce que a vontade divina envolve querer eventualmente efeitos contingentes, produzidos por causas contingentes. Então o fato de que a vontade de Deus não pode ser impedida não pode levar à conclusão de que tudo o que é da vontade de Deus é necessário, em meios e fins.

O terceiro argumento é aquele que parte de uma noção lógica, lembrando que em toda afirmação condicional, quando o antecedente é verdadeiro, é necessário que o consequente também o seja. E apresenta-nos a seguinte proposição lógica: “se Deus quer algo, isto tem de acontecer”; daí, conclui que a vontade de Deus impõe necessidade a tudo aquilo que quer. São Tomás fará uma de suas distinções maravilhosas: de fato, nas proposições, a conclusão tira sua necessidade do antecedente, mas ao modo do antecedente. Assim, não se pode concluir desta proposição que eus quer tudo necessariamente, mas apenas que, quando Deus quer que algo seja de modo contingente, assim o será, e quando quer que seja de modo necessário, assim será também.

Às vezes, nesta grande catedral que é a Suma, algum detalhe deve ser examinado mais de perto, como foi este aqui. É que, imperceptivelmente, aquilo que parecia apenas um simples detalhe pode se revelar como a ponta de uma fundação que se estende pela construção inteira. Parece ser o caso deste artigo aqui.