O debate aqui é interessantíssimo, e envolve a possibilidade de mudar a vontade de Deus. Será que existe esta possibilidade? Ela fundamenta, em nós, a oração e a própria esperança. Mas como pode ser isto? Como poderia Deus mudar a sua vontade, querer ora uma coisa, ora outra? E se ele não muda, que tipo de relação podemos ter com ele? Como imaginar a possibilidade de oração, ou mesmo a consistência da criação, se Deus já predeterminou tudo solidamente, imutavelmente, desde sempre?

Nem todas estas perguntas vão ser respondidas aqui, no presente debate, mas certamente haverá o lançamento de boas bases para respondê-las no tempo oportuno. Por ora, a questão diz respeito apenas à firmeza da vontade de Deus e sua relação com uma criação contingente, dinâmica e mutável. Como pode ser a relação de Deus, imutável em sua vontade, com as mudanças que vemos todos os dias em todas as coisas?

É por isto que a hipótese controvertida aqui é a de que parece que a vontade de Deus muda. E o primeiro argumento neste sentido é bíblico. O argumento lembra o Livro do Gênesis, 6, 7, em que, ameaçando o dilúvio, Deus diz a Noé, a respeito da criação: “arrependo-me de os ter feito”. E o argumento conclui: se Deus se arrependeu é porque mudou de opinião, logo, houve mudança em sua vontade.

O segundo argumento é mais uma citação bíblica. Jr 18, 8, que diz assim: “Se esta nação, contra a qual falei, se converte de sua perversidade, então me arrependo do mal que jurara fazer-lhe”. E deste trecho o argumento conclui que a vontade de Deus muda.

O terceiro argumento também parte da Revelação, constatando que a lei de Deus foi alterada ao longo da história. De fato, para nós, cristãos, muito daquilo que para os antigos judeus era lei de observância estrita é, agora, uma indicação, como é o caso da observância do sábado – para nós, a ressurreição determina guardar os domingos, e com um espírito totalmente diferente, ou seja, sabendo que o dia santo é para os homens, e não os homens para o dia santo. Assim, o argumento percebe que Deus não faz sempre as mesmas coisas, e conclui que a vontade de Deus é mutável.

O quarto argumento parte da constatação, firmada nos artigos anteriores, de que nem tudo o que Deus quer, ele o quer por necessidade. Desta constatação, ele conclui que Deus pode eleger, ou seja, adotar, com relação à mesma coisa, a postura de querê-la ou de não querê-la. E o argumento conclui, a partir disto, que se Deus pode eleger, e pode ora querer isto ora aquilo, sua vontade é mutável.

O argumento sed contra é mais uma citação bíblica (demonstrando o quanto o debate aqui envolve a questão da Revelação). O trecho citado é Nm 23, 19: “Deus não é um ser humano, para que minta, nem como os filhos de Adão, para que volte atrás.” E desta citação o argumento conclui que a vontade de Deus não muda.

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás inicia com toda a clareza: a vontade de Deus é totalmente imutável. E ele faz uma daquelas distinções maravilhosas; a vontade de Deus é imutável, mas ele pode querer, com vontade imutável, que as próprias coisas sejam mutáveis!

São Tomás vai explicar como isto pode ocorrer, tomando a nós por analogia. Nós podemos querer que agora as coisas sejam de um jeito e depois elas sejam de outro, sem que nossa vontade mude por isto. É só imaginar a vovó na cozinha, preparando um bolo: ela prepara o bolo, sem dúvida, para ser comido gostosamente pela família. Mas, enquanto ela o está preparando, ela não quer que um de seus netinhos entre na cozinha e coma um pedaço do bolo antes da hora da refeição, na qual a família toda estará reunida. Ou seja, quando ela começa a preparar o bolo, ela já tem, na sua vontade, a resolução de que o bolo não deve ser comido antes da hora da refeição, mas que ele pode e deve ser inteiramente comido naquele momento. Neste caso, a vontade da vovó, com relação ao bolo, não mudou, embora envolvesse uma mudança da relação do bolo com a nossa vontade de comê-lo.

É diferente a situação, digamos, se ela houvesse preparado o bolo apenas para o vovô, mas, surpreendida com uma visita inesperada dos netinhos, ela resolve fazer uma bela mesa de lanche e oferecer a todos o bolo que originalmente se destinava apenas para ele. Neste caso, há uma verdadeira mudança de vontade, na vovó, com relação ao bolo.

A mudança da vontade, em nós, diz São Tomás, pode dar-se de duas maneiras: quando ha uma mudança em nós, ou na situação que estávamos vivendo, de tal modo a tornar atrativo aquilo que antes não era. E ele dá um exemplo: no tempo de calor, sentar-se perto do fogo é desagradável, mas num dia frio de inverno pode ser muito convidativo. Assim, nossa vontade de sentar perto do fogo pode mudar, conforme muda a temperatura do ambiente. É este o caso da vovó que serve aos netinhos, que a visitam de surpresa, o bolo anteriormente destinado apenas ao vovô.

O outro caso de mudança de vontade, em nós, envolve uma mudança em nosso conhecimento. Trata-se do caso em que passamos a conhecer alguma coisa como boa, quando antes a ignorávamos. São Tomás nos explica que a nossa vontade pressupõe e depende do conhecimento para deliberar. Assim, conhecedores, por exemplo, de que um determinado remédio pode nos fazer bem, passamos a querer ingeri-lo, apesar de ter um sabor muito ruim para o nosso paladar.

Estas duas hipóteses de mudança de vontade, ensina-nos São Tomás, são inadequadas para falarmos de Deus. No primeiro caso, não se pode imaginar que alguma mudança externa pudesse provocar mudanças no próprio Deus, uma vez que ele é imutável em si mesmo, substancialmente perfeito. Nada o surpreende. Assim, ele não teria razão para mudar de vontade em razão de uma alteração inesperada em sua própria substância ou na Criação.

Na segunda hipótese, não poderíamos imaginar algum conhecimento imperfeito em Deus, que o levasse a apreender algo que ele não sabia antes, e causasse nele uma mudança de vontade. O conhecimento de Deus é perfeito, como já tivemos oportunidade de debater em textos anteriores. Assim, não haveria como imaginar que Deus pudesse mudar de opinião por vir a conhecer alguma coisa que desconhecia antes.

Havendo estabelecido, portanto, os termos do problema em sua resposta sintetizadora, São Tomás passará a responder às objeções iniciais.

A primeira objeção é aquela que cita a passagem do Gênesis em que Deus declara a Noé que se arrependeu da criação, e que portanto a destruirá. São Tomás nos dará, então, uma aula de exegese bíblica: não podemos compreender esta passagem de modo literal. Trata-se, aqui, de uma metáfora, ou seja, de uma descrição da atitude de Deus pela utilização de uma linguagem que o torna semelhante a nós, e que deve ser tomada com todo cuidado, porque Deus não é semelhante a nós – ainda que eventualmente nós sejamos semelhantes a ele. No caso concreto, diz São Tomás, mesmo pensando humanamente, nada exclui que tenhamos feito uma coisa e depois venhamos a destruí-la, sem que haja uma mudança de vontade em nós; quando construímos, por exemplo, uma estrutura provisória de sustentação para uma ponte, que é demolida assim que a ponte fica pronta. Desde o início havia a vontade de destruir a estrutura provisória, e não se pode dizer que esta destruição implique uma mudança de vontade nos construtores. Do mesmo modo, diz São Tomás, esta passagem da Escritura fala que “Deus se arrependeu” apenas para descrever uma atitude semelhante por parte de Deus, sem implicar em mudança de vontade.

A segunda objeção cita o Livro de Jeremias 18, 8, em que Deus diz, pelo profeta, que, se o povo se converter, ele se arrependerá do mal que prometeu. E o argumento conclui que é possível falar de mudança na vontade de Deus.

São Tomás fará uma resposta mais longa e sutil, aqui. Ele lembra da questão da causalidade secundária, ou derivada, ou intermediária, que as coisas realmente têm. E lembra que a vontade de Deus, como causa primeira e universal, não pode excluir as causas segundas; mas as causas segundas, ou intermédias, não esgotam a causalidade de Deus na ordem da criação. E dá o exemplo da ressurreição de Lázaro. Pelas causas intermédias, não haveria como saber que a vontade de Deus era que Lázaro ressurgisse dentre os mortos; neste caso, pode-se dizer que Deus permitiu a morte de Lázaro, conforme as causas naturais, e provocou sua ressurreição de modo sobrenatural; ambas as coisas estavam na sua vontade. Assim, no caso da passagem citada, São Tomás explica que Deus anuncia, pelo profeta, um futuro contido nas causas naturais, mas este futuro não ocorre porque outra coisa estava determinada na causa superior divina, desde toda a eternidade. E cita ainda mais uma passagem bíblica, na qual Deus revela a Ezequias que ele morrerá (Is 38, 1), mas outra coisa acaba acontecendo, ou seja, aquilo que estava inscrito na vontade de Deus, por causalidade primeira, desde toda a eternidade. Em nenhum destes casos, diz Tomás, as escrituras estão falando de mudança na vontade de Deus, portanto. Mas simplesmente de necessidade de mudança na nossa própria vontade, a fim de ajustar-se aos desígnios eternos de Deus.

O terceiro argumento é aquele que lembra que a própria lei divina foi alterada ao longo da história, para concluir que a vontade de Deus muda. São Tomás vai dizer, simplesmente que isto não prova que a própria vontade de Deus mudou, mas apenas que a sua vontade eterna inclui a possibilidade de mudança na ordem das coisas.

Por fim, o quarto argumento dá como comprovado aquilo que se debateu nos artigos anteriores, no sentido de que nem tudo o que Deus quer, ele o quer por necessidade, para argumentar que a vontade de Deus pode ser contingente e, portanto, sujeita a mudanças. São Tomás será mais uma vez muito breve na sua resposta; ele nos ensina que, de fato, não é por necessidade que Deus quer alguma coisa além de si mesmo. Mas, uma vez que ele o quer, a sua vontade imutável torna aquilo necessário, inevitável e irremediável.