Em um documento recente, a exortação “Gaudete et Exsultate”, o Papa Francisco adverte que “Só de forma muito pobre, chegamos a compreender a verdade que recebemos do Senhor. E, ainda com maior dificuldade, conseguimos expressá-la. Por isso, não podemos pretender que o nosso modo de a entender nos autorize a exercer um controle rigoroso sobre a vida dos outros”. Esta advertência (no § 43 do documento) encontra um eco perfeito aqui, neste artigo em que São Tomás vai proclamar, de um lado, que Deus está no comando, com sua providência infinita e amorosa, e que nada escapa à sua vontade benfazeja. Mas, por outro lado, há o mistério obscuro do mal, “mysterium iniquitatis”, que desafia a razão humana. Como pode ser que haja um Deus ao mesmo tempo onipotente e infinitamente benevolente, e ao mesmo tempo haja o mal na criação?
Isto deu origem a um conhecido paradoxo filosófico muito citado pelos militantes ateístas para negar a existência do Deus judaico-cristão. O paradoxo diz assim: se Deus é bom e o mal existe, então ele não é onipotente. Mas se ele é onipotente e o mal existe, então ele não é bom.
Alguns radicais religiosos, incapazes de responder racionalmente a este paradoxo, atribuem todo o mal existente na criação à desobediência humana, à infidelidade a Deus, que seria uma traição explícita de suas criaturas inteligentes ao seu poder infinito, ao qual a única resposta adequada seria a total submissão. Assim, para eliminar o mal, seria preciso simplesmente eliminar toda infidelidade da criatura inteligente, submetendo-a inteiramente à força de Deus. Ou seja, tentam fechar a equação pela ponta da onipotência, negando a bondade intrínseca de Deus.
Por outro lado, há os que negam a onipotência divina, propondo um deusinho fraco e bonachão que tem a infinita bondade mas não o infinito poder de fazê-la prevalecer. O problema com esta posição é que ela precisa, implicitamente, admitir que este deus não é o princípio de tudo o quanto existe na criação; se ele não é onipotente, é preciso pleitear que há um outro princípio para as coisas que não se harmonizam com sua bondade infinita. Cairíamos no dualismo maniqueísta, necessariamente.
São Tomás, mais uma vez, construirá uma resposta, que é provisória, limitada e frágil, como tudo o que tenta traduzir a relação de Deus com sua criação em termos de discurso humano. Mas, não obstante, é genial, porque preserva a humildade humana e a bondade divina, harmonizando-a com sua unidade plena e com sua onipotência, sem recorrer nem ao dualismo, nem a uma noção de que o mal é simplesmente uma revolta de infidelidade contra Deus que precisa ser eliminada, inclusive pela violência, como pregam certas correntes religiosas extremistas. Para isto, como veremos, introduzirá a noção de “vontade antecedente” e “vontade consequente” de Deus, além de distinguir entre as coisas que acontecem por vontade de Deus e as que acontecem por sua permissão, em razão da causalidade real de suas criaturas – que também é parte da sua vontade infinita – esclarecendo que Deus é capaz de permitir o mal porque é capaz de reconduzi-lo a um bem ainda maior, pelos mistérios de seus desígnios impenetráveis, nos quais depositamos a nossa esperança teologal. Preservados estão, portanto, a onipotência divina, a bondade infinita, a consistência causal das criaturas, o mistério divino, a obscuridade do mal e a abertura para as virtudes teologais. Claro que não encontramos tudo isto num único artigo, como o presente. Mas certamente o debate aqui proposto nos levará exatamente até aí.
Vamos ao artigo, pois. O debate proposto, aqui, é o de que parece que nem sempre se cumpre a vontade de Deus. Esta é uma constatação empírica, mas também é uma realidade metafísica: a criação tem limites, não é perfeita, pronta e acabada, e às vezes falha em atingir a perfeição para a qual aponta. Como isto pode ser possível?
São Tomás trará três argumentos objetores, em suporta à sua hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento parte de uma citação da primeira carta de São Paulo a Timóteo (2, 4): “Deus quer que todos os homens se salvem e que cheguem ao conhecimento da verdade”. Texto difícil, que tem dado margem a controvérsias enormes ao longo da história. Mas a dificuldade de uma controvérsia nunca intimidou São Tomás. O argumento acrescenta que há o fato incontroverso de que nem todas as pessoas escolhem aceitar a salvação de Deus. Então, diz o argumento, nem sempre se cumpre a vontade de Deus.
O segundo argumento lembra que o intelecto está para a verdade como a vontade está para o bem. E acrescenta: o intelecto divino contém toda a verdade, porque sabe tudo. Isto significa que a vontade divina quer todo o bem. Mas é fato incontestável, lembra o argumento, que coisas ruins acontecem. E que nem todo o bem se realiza. Logo, o argumento conclui que nem sempre se cumpre a vontade de Deus.
O terceiro argumento parte exatamente do fato de que as criaturas também têm poder causal, aina que de segunda ordem, mas real e efetivo. E prossegue, dizendo que uma causa intermediária entre deus e algum defeito pode ser deficiente, impedindo que a vontade de Deus se realize, como uma perna doente pode impedir que a vontade de caminhar não se realize para aquele indivíduo. E daí o argumento conclui que, se a vontade de Deus pode ser impedida de realizar-se por deficiência de uma causa segunda, então a vontade de Deus não se realiza sempre.
E, como argumento contrário, São Tomás cita de novo as Escrituras (Sl 115 [113-b], 11 [3]): “O nosso Deus está no céu, e faz tudo o que deseja”. Sinaliza, assim, a eficiência completa da onipotência divina.
No próximo texto, veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
Deixe um comentário