Esta discussão é interessantíssima: Deus tinha que nos criar, ou ele livremente nos escolheu para existir? As consequências disto são as mais agudas, tanto para o próprio modo de ser do universo, quanto para a nossa relação com Deus. Se nós somos um fruto necessário do agir de Deus, então a nossa existência é, de algum modo, automática, casual, impessoal na sua origem. De certa forma, é esta a estrutura filosófica que subjaz no nosso pensamento contemporâneo. Seríamos todos nós, todos os seres, frutos do acaso e da seleção natural. Não frutos de uma eleição livre de amor, de um Deus pessoa que nos fez existir sem nenhuma necessidade, apenas para entrar nesta relação maravilhosa de amor com ele. Não estamos discutindo aqui os erros e acertos do evolucionismo, nem contrapondo fé e razão. A discussão é mais profunda; quaisquer que sejam os “mecanismos” que a ciência contemporânea, com seus instrumentos maravilhosos e suas descobertas fantásticas, desvenda, o certo é que o debate aqui é mais profundo; trata-se da origem mais profunda, do fundamento mais original de tudo o que há.

Este fundamento, portanto, está para além da ciência, embora não a contradiga, e parece insinuar-se no próprio fato de que fazer ciência é possível, e, além disso, no fato de que estamos aqui para fazê-la. Concretamente, a criação revela que as condições para que existamos e sejamos o que somos estão dadas pelo universo de uma forma desafiadora para a ciência, mas inegável. Atribuir este fato ao acaso, à necessidade ou ao amor livre e infinito de Deus está além da fronteira da ciência – embora alguns cientistas, mesmo de boa fé, entrem nesta discussão como se científica fosse. Não é. É essencialmente especulativa, e, aqui, ajudada pela Revelação que nos interpela como crentes. Será que defender que o universo foi criado por um ato de vontade, por um ato de eleição de Deus, contradiz a razão? É exatamente este o debate proposto agora por São Tomás. Não se trata de saber apenas se a vontade de Deus pode dirigir-se para fora de si mesmo. Isto já restou claro nos debates anteriores. Trata-se de saber se é esta vontade, libérrima e amantíssima, que, dirigindo-se para fora, é a causa mais fundamental da própria existência do universo.

Assim, a hipótese controvertida proposta para iniciar o debate, aqui, é que as coisas não foram causadas por Deus por vontade, ou seja, que ele não criou tudo voluntariamente. E São Tomás apresentará quatro argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento se argumenta numa analogia feita pelo [pseudo]-Dionísio. Ele diz que, assim como o sol não escolhe nem sequer raciocina sobre as coisas que ele ilumina, do mesmo modo Deus espalha sua bondade por todas as coisas, apenas pelo fato de que Deus é essencialmente bom. Então, conclui o argumento, se Deus espalha sua bondade assim como o sol espalha sua luz, então Deus não precisa nem pensar nem escolher, para fazê-lo, porque o faz em virtude da sua bondade essencial, não a sua vontade.

O segundo argumento também parte da ideia de que Deus não é causador do mundo por escolha, mas por força da sua própria essência. O argumento lembra que o fogo, conforme se acreditava na física da época, consistia na própria substância do calor, representando o calor substancializado. Assim, o calor é a sua própria essência. E o argumento prossegue, dizendo que Deus é, essencialmente, a causa primeira de tudo; assim, o argumento conclui que Deus age porque é da sua essência, não por vontade ou escolha.

O terceiro argumento vai na mesma linha. Segundo o argumento, tudo aquilo que produz um efeito em razão da sua própria natureza, causa este efeito de modo natural, e não voluntário. A água molha porque é água, não porque escolhe molhar. O fogo queima porque é fogo, não porque escolhe queimar. Mas aquilo que causa um efeito voluntariamente não o faz em razão de sua natureza, mas em razão de sua vontade. Assim, um arquiteto constrói uma casa porque escolhe construí-la. Neste ponto, o argumento junta uma citação de Santo Agostinho, que diz “Existimos porque Deus é bom”. Mas se a bondade é a própria essência de Deus, conclui o argumento, então ela causa nossa existência não por vontade, mas por efeito de sua natureza, do mesmo modo que o fogo causa o incêndio, e não de um modo similar ao que o arquiteto gera a casa.

O quarto argumento inicia logo afirmando que cada coisa tem a sua causa, e ponto. E o argumento lembra que, na questão 14, art. 8, ficou determinado que a inteligência de Deus é que é a causa das coisas. Daí o argumento conclui: se a causa das coisas é a inteligência divina, então não pode ser a sua vontade. Logo, diz o argumento, não se pode apontar a vontade de Deus como causa das coisas.

Como argumento sed contra, São Tomás traz uma citação das Escrituras, nos mostrando mais uma vez a força da interpelação que a revelação cristã faz à filosofia clássica, uma interpelação que a impele a ficar ainda mais racional e consistente, e a leva mais longe do que ela havia chegado sozinha. A citação é Sb 11, 26: “como poderia subsistir alguma coisa, se não a tivesses querido?”

A resposta sintetizadora de São Tomás será uma aula sobre a liberdade de deus e sua relação de amor com a sua criação, que resulta de seu amor, e não de algum tipo de necessidade ou automatismo. Veremos no próximo texto.