Eis um ponto excelente para ser estudado. A questão da vontade de Deus é central na passagem do pensamento antigo e medieval para o pensamento moderno e contemporâneo. De fato, enquanto os antigos e os medievais tinham uma visão de Deus na qual a sua vontade harmonizava-se de modo perfeito com a sua inteligência, de modo a possibilitar enxergar, naquilo que Deus quis criar, a ordem intrínseca da sua inteligibilidade maravilhosa, os modernos e contemporâneos tendem a atribuir a Deus uma vontade incondicionada por quaisquer traços de inteligibilidade, de tal modo que a criação não mais reflete em si mesma o logos que preexistiria em Deus; para salvaguardar sua onipotência, destruiu-se sua inteligência, ou sua inteligibilidade. E aquilo que para os antigos e medievais parecia certo – que é possível “ler” sobre Deus tanto nos livros revelados quanto no livro da criação – para nós hoje parece absurdo. O velho aforisma (ainda proclamado pela Igreja Católica) de que o exame honesto da criação evidencia ao ser humano, ao menos, que há um Deus, e que, portanto, o encontro com as razões criadas, pela razão humana, é um verdadeiro preâmbulo da fé, sobre a qual a graça pode construir-se (gratia non tollit naturam sed perficit), foi minado pelo laicismo selvagem, que nega enxergar aquilo que honestamente pareceria evidente, por um lado, e pela religiosidade do “sola scriptura”, que, ao lado do modo, digamos, muçulmano de crer – que exprime Deus como pura potência incondicionada à qual é devido, em primeiro lugar, a submissão, e apenas circunstancialmente o amor, parece muito mais contemporâneo do que a ideia medieval das “duas asas que nos elevam a Deus, a fé e a razão”, como disse João Paulo II na “Fides et Ratio”. Tendemos a balançar entre um Deus todo poderoso que não precisa fazer sentido, mas que revela num livro especial (e só ali) sua vontade absoluta, e na rejeição laicista a este “tirano prepotente”, que resulta num cientificismo voltado não à contemplação e conhecimento da natureza vista como um dom paterno para nós, mas apenas como massa passiva e sem sentido intrínseco que devemos dominar e organizar para nosso próprio gozo. É claro que tudo isto é uma simplificação caricata, mas a ideia aqui é exatamente contrastar para melhor compreender. Se Deus é esta unidade infinita e amorosa de ciência e vontade ordenada, então o mundo é, no fundo, um presente compreensível e aberto à razão, feito sob medida para nós, que devemos receber com o coração ciente de que a natureza e a graça interpenetram-se docemente para compensar o nosso próprio pecado. Mas se Deus é apenas uma grande vontade incondicionada, absoluta, que criou um mundo arbitrário a partir de suas próprias decisões onipoderosas, resta-nos optar pela submissão total, por um lado, colocando-se do seu lado para impor esta submissão aos infiéis, exercendo o domínio político em nome desta mesma vontade total e supostamente revelada apenas e tão somente aos seguidores de determinado livro sagrado, ou pela rejeição heroica a Deus, por outro, como únicas atitudes pensáveis para seguir num mundo estranho e sem razoabilidade intrínseca.

Mas São Tomás nos mostra que não é assim. E é isto que debateremos com ele, agora. Como é a vontade de Deus? Como se exprime? Como reconhecê-la? Como harmonizar-se com ela, sem transformá-la em arma de escravização e domínio político? E como articular a vontade de Deus com a sua inteligibilidade, ou seja, como discernir um campo comum em que todas as pessoas, apenas por serem dotadas de razão, podem conviver, mesmo sem submeter-se a qualquer revelação religiosa, mas pela abertura à inteligibilidade intrínseca de um mundo criado por um Deus amoroso? De fato, somente admitindo que é possível saber algo de Deus, embora muito limitadamente, mas ainda assim de modo verdadeiro, pela contemplação da natureza, é que podemos acreditar que o diálogo entre pessoas com credos diversos, ou mesmo entre estas e aquelas que não têm credo nenhum, é possível. É isto que a Igreja ensina no seu catecismo, § 39; “Ao defender a capacidade da razão humana de conhecer a Deus, a Igreja exprime sua confiança na possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens. Esta convicção está na base do seu diálogo com outras religiões, com a filosofia e com as ciências, como também com os não crentes e ateus”. Isto é possível, se em Deus inteligência e vontade forem uma só coisa com o seu ser; mas se acreditarmos que no próprio Deus a vontade não se harmoniza com a inteligibilidade, manifestando-se como poder incondicionado e despótico, resta-nos o eterno conflito religioso.

Uma outra dimensão importante aqui é a questão dos universais. E fato, a visão de que a vontade de Deus não tem que se harmonizar com o seu logos, ou seja, com a sua inteligibilidade, implode a doutrina dos universais, e deixa-nos num mundo de individualidades absolutas, impossibilitando a abordagem realista à criação. Resta-nos o nominalismo, que tenta reconstruir racionalmente um mundo fragmentário e disperso, ou, pior ainda, o idealismo, que recria o mundo a partir do espírito humano. Somente a compreensão reta da unidade entre o ser, o inteligir e o querer em Deus nos devolverá uma criação que faça sentido. “No princípio era o logos”…

O esforço de debater com São Tomás compensa. Ele é relevante e essencial. Não consigo ver tarefa mais urgente do que fazê-lo acessível para nós hoje. Está acima de minhas forças. Mas como aquele pequeno beija-flor que leva uma gotinha de água no bico para apagar o incêndio na floresta enquanto os grandes animais sentam-se em desespero, eu quero caminhar assim. Deus nos abençoe e proteja.