Examinando a resposta sintetizadora de São Tomás sobre a possibilidade de aplicar-se propriamente a noção de “vida” a Deus, falávamos, no texto anterior, sobre a lição de São Tomás a respeito dos três graus de vida que encontramos na criação: a vida vegetativa, a vida sensitiva e a vida intelectual, a partir da razão humana. É este terceiro grau que passaremos a debater agora.
A razão, que é o instrumento do intelecto humano, permite-nos conhecer por abstração a partir dos dados sensíveis que nossos sentidos nos fornecem. Este conhecimento, abstrato e universal por essência, permite que os seres racionais conheçam, de modo consciente, os fins a que podem se ordenar e determinem os meios para alcançá-los. Neste sentido, somente os seres racionais podem ser éticos: não há, nem pode haver, uma ética animal.
Nos seres racionais, a capacidade intelectual tende a comandar mesmo os processos vegetativos e sensitivos: posso privar-me eventualmente de comida, posso reter a necessidade de evacuar por algum tempo, posso optar pelo celibato e negar meus impulsos reprodutivos corporais. Posso negar-me um bom prato de comida, em nome de um jejum religioso.
E é neste sentido que São Tomás diz que a vida racional é mais elevada que a vida sensitiva, e esta, mais do que a vida vegetativa. A capacidade intelectiva dirige e ordena as outras capacidades, e é neste sentido que São Tomás diz que a razão está para as demais capacidades dos seres racionais como um piloto de navio está para o navio: mesmo o engenheiro naval, que projeta e constrói o navio, dirige sua arte em vistas das necessidades e das capacidades do piloto.
E por que falamos em “natureza racional do ser humano”, a partir da sua condição intelectual? De fato, o intelecto se apresenta em nós, humanos, como razão, ou seja, como processo de conhecimento por abstração. Mas não precisaria ser assim: é possível conceber seres intelectuais que não conhecessem por meio do processo racional; basta pensar, por exemplo, nos filmes da série “Matrix”, em que terminais de conexão com computadores foram afixados nos cérebros de alguns personagens; neste caso, o filme descreve como meio de aprendizagem, para estes personagens, a transferência pura e simples das informações ao cérebro que aprende, sem o processo de raciocínio. Seria um processo similar ao do conhecimento angélico, que São Tomás descreve um pouco adiante aqui na Suma Teológica, e que, se Deus quiser, teremos possibilidade de examinar. Mas mesmo fora do reino da fantasia cinematográfica, São Tomás reconhece em nós certos conhecimentos a que não chegamos por meio de raciocínio, mas por intuição. É o caso dos primeiros princípios, como os princípios da identidade e da não-contradição. Exatamente por serem princípios, eles não podem ser deduzidos nem abstraídos, mas apenas reconhecidos e aceitos, e eventualmente demonstrados por seus efeitos. Os primeiros princípios são reconhecidos por nós, porque impõem-se a nós como pressupostos à nossa atividade racional. Não os escolhemos, não os criamos. Apenas os encontramos, reconhecemo-los e os aceitamos. Também é assim com relação ao fim último. Seja o fim último do ser humano o Criador, seu Deus, seja ele simplesmente a morte, ele não está sujeito a debate e eleição; apenas vem e se impõe por sobre a nossa vontade. Os primeiros princípios não podemos deixar de conhecer, e o fim último não podemos deixar de querer, diz São Tomás. Quanto aos primeiros princípios da inteligência e quanto aos fins últimos, portanto, estamos mais ou menos como as plantas estão para as suas mudanças: eles nos movem, e nós somos passivos com relação a eles. Assim, podemos dizer que, embora dentre os seres vivos materiais, tenhamos o grau mais perfeito de vida, ainda assim nossa vida encontra limites externos nos primeiros princípios e nos fins últimos. Ainda não se pode dizer que é uma vida plena, absoluta e perfeita em si mesma.
Para que fosse absoluta, completa e perfeita, a vida deveria caracterizar um ser capaz de perfeita intelecção de tudo, e que ademais fosse sem princípio e sem fim, sendo ele mesmo o princípio e o fim de tudo o mais. Ou seja, a vida absoluta e plena, no sentido próprio, manifestar-se-ia apenas em Deus. E é neste exato sentido que São Tomás conclui, demonstrando que não simplesmente Deus é vivo; ele é o próprio viver.
Agora São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor, que tenta negar a adequação da noção de “vida” com relação a Deus, parte da noção da imutabilidade divina. Se a vida é definida como a capacidade de ser princípio das próprias mudanças, diz o argumento, então não há como aplicar esta noção a Deus, já que Deus é imutável. Disto o argumento conclui que não se pode dizer propriamente que Deus é vivo.
São Tomás vai nos explicar, de modo bastante técnico, que há uma confusão aí entre a imutabilidade de Deus, que é real, e uma ideia falsa de que Deus é estático. A imutabilidade de Deus é uma imutabilidade na sua dinâmica, não uma espécie de rigidez invencível. Para aquilo que é dinâmico, a sua perfeição consiste em existir dinamicamente. Pensemos num coração: um coração que está parado é um coração imperfeito, mas um coração que batesse de modo eterno, e que fosse capaz de alterar suas batidas em conformidade com os bons estímulos que recebesse seria perfeito e imutável em sua perfeição. Assim é a imutabilidade divina: é uma imutabilidade dinâmica, não estática.
Mas na sua tecnicidade, São Tomás fará uma distinção, aqui, entre o que a escolástica chama de “ações transeuntes” e “ações imanentes”. As ações “transeuntes” são aquelas que passam à matéria exterior, tais como esquentar, cortar, manipular, enquanto as ações imanentes começam e terminam no próprio agente, como conhecer, sentir e querer.
É muito claro que, na sua dinâmica, a vida de Deus implica a capacidade inesgotável e perfeita para as ações transeuntes, vale dizer, para modificar tudo aquilo que está fora dele mesmo. Neste caso, o movimento é provocado por Deus nas coisas que não são divinas, e portanto a passagem de potência a ato se dá fora de Deus. E para agir de modo transeunte, levando as coisas em potência a atualizarem-se, o agente tem que estar em ato. Nenhum problema, portanto, em compreender em que sentido se diz que Deus é vivo quando ele age de maneira transeunte.
A questão se põe na chamada “ação imanente”. Elas pressupõem que haja, no ser que age imanentemente, alguma potência que deve ser conduzida ao ato? Pode-se falar em “vida interior”, em Deus?
Sim, diz São Tomás. Uma vez que a vida interior é ato do vivente, é preciso que ele esteja em ato para que ela aconteça. Embora em nós a vida interior manifeste a sua riqueza no processo de nos encaminhar desde nossas potências até nossos atos, quando, por exemplo, aprendemos e nos maravilhamos, emocionamo-nos com boas ou más notícias ou com encontros e despedidas, também em nós existe a vida interior como dinâmica de perfeição, quando, por exemplo, contemplamos e nos deleitamos com o convívio de uma pessoa amada ou de uma paisagem cheia de recordações da infância. É por isto, diz São Tomás, que se pode dizer que conhecer é movimento, mesmo para aquele que, como Deus, conhece tudo. Deus nunca se entedia daquilo que ele próprio é, daquilo que ele próprio conhece e daquilo que ele quer e ama. E São Tomás, citando Platão, conclui que Deus de fato move a si mesmo, não como o ato do imperfeito que atualiza suas potências, mas como o ato do perfeito que vive a dinâmica da alegria do autoconhecimento e do amor. E neste sentido a vida interior de Deus é plena, infinitamente feliz, infinitamente rica. E portanto a noção de vida se aplica a ele muito mais propriamente do que a qualquer outra coisa.
A segunda objeção diz simplesmente que em tudo o que percebemos ser vivo encontramos um “princípio de vida”; e, citando a obra “Sobre a Alma”, de Aristóteles, o argumento diz que o princípio da vida está sempre na alma, que é a forma do corpo vivo. E disso o argumento conclui que, uma vez que não se pode achar nenhum “princípio” em Deus (ele próprio é o princípio de tudo) então não se poderia aplicar a Deus a noção de vida.
São Tomás responderá de maneira muito dura e muito breve: se Deus é o princípio de tudo, e ele mesmo não tem princípios, então tudo o que atribuímos a Deus faz parte do próprio ser de Deus, como identidade, e não como “parte” ou “princípio”. Assim, Deus é seu próprio ser, e Deus é o seu próprio inteligir, e pelo mesmo motivo podemos dizer que Deus é o seu próprio viver. Ou,. Respondendo ainda de modo mais preciso: não se pode dizer propriamente que Deus tenha vida, ou que esteja vivo. De modo próprio, poderíamos dizer que Deus é a própria vida, ou o próprio viver. Assim, sendo o princípio da vida, Deus não “tem em si um princípio”, porque o princípio é ele mesmo.
O terceiro argumento objetor, que tenta negar a conveniência de aplicar a noção de “vida” a Deus, especifica que a vida vegetativa é o modo de vida mais fundamental de todos, porque diz respeito às capacidades de crescer e fenecer, e consequentemente de nutrir-se e reproduzir-se; estas capacidades vegetativas são pressupostas nas formas de vida superiores, como a vida sensitiva e a vida intelectual. Sendo a forma fundamental de vida, a vida vegetativa, segundo este argumento, deve ser considerada como “princípio da vida”, e portanto tudo aquilo que não apresentar vida vegetativa não poderia ser considerado como propriamente vivo. Mas a vida vegetativa só se encontra nas coisas corporais, diz o argumento. Se, portanto, Deus não é corporal, não se poderia dizer, segundo o argumento, que ele está propriamente “vivo”.
São Tomás responderá que é próprio da nossa vida criatural, tal como se apresenta nos seres vivos corpóreos, precisar de geração, para conservar a espécie, e de alimentação, para conservar o indivíduo. Mas os seres incorpóreos, tais como os anjos, não se dividem em espécimes da mesma espécie, porque não têm a materialidade como fator de individuação. Cada anjo é de uma espécie diferente. Além disso, uma vez que não estão sujeitos à morte (que é, exatamente, o rompimento da unidade substancial, com a perda da forma pela respectiva materia signata) um ser incorpóreo não precisa ter atividades vegetativas, como a nutrição e a reprodução. Nem seu ser está sujeito à morte, nem a sua espécie se perpetua pela multiplicação de espécimes. Assim, os seres imateriais vivos não apresentam as capacidades vegetativas, porque não lhe são necessárias. Daí que a “alma vegetativa” não pode ser considerada como “princípio de vida”, nem reputada como modo fundamental de viver; deve ser entendida como própria dos seres corporais. Daí que não se pode esperar que Deus tenha capacidades vegetativas, ou “alma vegetativa”, simplesmente porque Deus não é corporal.
E assim completamos o debate do artigo 3 desta questão, e atingimos o texto de número 200. Glória a Deus.
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