Se a vida é princípio de movimento, e se Deus, por definição, é imóvel, no sentido de imutável, é fácil perceber a importância de debater se o conceito de “vida” pode aplicar-se a Deus. Em que sentido podemos dizer que Deus é um ser vivo? Há uma “biologia” de Deus? Há um “organismo” divino?

Certamente, se a noção de vida puder ser aplicada a Deus e às criaturas, não se deve perder de vista que esta aplicação se dá analogicamente, com todas as restrições e cuidados que a analogia requer. “Não se pode”, diz o IV Concílio de Latrão, “notar qualquer semelhança entre a criatura e o Criador sem que se note entre eles uma dessemelhança ainda maior”.

Já debatemos, no texto anterior, os argumentos objetores, no sentido de afirmar que a noção de vida seria inaplicável a Deus. Vimos também o argumento sed contra que, citando as Escrituras, declara que Deus é vivo.

São Tomás passará agora à sua resposta sintetizadora.

A primeira afirmação que ele faz é categórica: a noção de vida aplica-se de modo principal e categórico, em primeiro lugar e propriamente, a Deus. E para isto São Tomás fará um verdadeiro tratado filosófico sobre a vida em seis ou sete parágrafos. Começando logo pelo conceito de vida.

Um ser se diz vivo, segundo lembra São Tomás, quando o seu agir tem origem em si mesmo, ou seja, quando suas transformações, suas mudanças – o seu movimento, em sentido metafísico – têm em seu próprio ser, em sua própria forma de ser, o seu fundamento. Eles não são simplesmente transformados por outros, mas transformam a si mesmos. Ou seja, são sujeito ativo, e não apenas sujeito passivo, das próprias transformações. Assim, Quanto mais perfeitamente um ser puder ser sujeito ativo de mudanças e transformações, tão mais perfeitamente vivo ele será. Esta forma de pensar é muito própria da escolástica, e a nós soa, talvez, estranho ou mesmo anacrônico falar em “graus de perfeição” entre seres vivos. Mas há ecos desta forma de pensar mesmo na nossa linguagem moderna: ainda falamos em “pessoas em estado vegetativo” para nos referir a seres humanos com graves problemas de saúde que os impedem de deambular ou de usar a própria consciência externa; isto indica que temos, ainda hoje, a noção de que a vida apresenta-se em raus; talvez classificá-la de forma estanque seja mais difícil hoje, diante do acúmulo de conhecimentos biológicos que não estavam disponíveis no tempo de São Tomás (muito menos nos tempos de Aristóteles), mas a sua classificação, que veremos adiante, ainda guarda valor pedagógico.

Ele classificará, pois, numa ordem tríplice os graus de vida, a partir do que hoje chamaríamos de “autonomia do movimento com relação ao fim”. De fato, ele começa nos lembrando que todo movimento, toda mudança, aponta para um fim. Assim, pode-se considerar que o agente principal de qualquer mudança é aquele que conhece o fim e escolhe por si mesmo os meios para atingi-lo. Ou, usando a expressão escolástica, tão mais vivo é um ser quanto mais ele possa agir em função da forma que ele se dá, e menos em função da forma que tem por natureza. Assim, pode-se considerar tão mais perfeitamente vivo quanto mais a sua relação com o fim, bem como com os meios para atingi-lo, for a de agente, e não de paciente. Portanto, aquelas coisas que são movidas passivamente para o fim que não conhecem não são agentes, mas mero instrumento no poder do agente. Quanto mais ativo na busca do fim e na escolha dos meios, mais perfeitamente vivo. Quanto mais passivo, menos perfeitamente vivo.

A partir destes princípios São Tomás classificará os três graus de seres vivos que encontramos na natureza, a partir do mais imperfeito, que são os vegetais.

Ele começa, portanto, examinando aqueles seres que movem, de certo modo, a si próprios, mas adstritos à forma que possuem em si mesmos por natureza. E adstritos a buscar o fim que lhes é designado por natureza. O “mover a si mesmo”, neste caso, limita-se à atividade de crescer e fenecer. Tudo o mais, ou seja, o modo pelo qual crescerá e fenecerá, as mudanças que sofrerá e o fim que buscará, tudo isto está rigidamente determinado em si pela sua natureza, impressa em si essencialmente pela sua própria forma. Este é o caso, diz São Tomás, dos vegetais. Embora esteja neles o princípio do crescer e do fenecer, tudo o mais está determinado por natureza, ou seja, tanto seus fins quanto os meios de que necessita para atingi-los. A vida vegetativa, portanto, é o grau mais ínfimo de vida, por causa do grau de determinação a que estes seres vivos estão vinculados. São agentes do próprio crescimento e do próprio fenecer; quanto a tudo o mais, são pacientes.

No caso dos animais, há algo a mais; a vida, neles, não se limita à execução, por crescimento ou fenecimento, de uma natureza preestabelecida essencialmente em si pela sua própria forma, como os vegetais. Os animais, sendo dotados de sensibilidade, são também dotados da capacidade de aprender, ainda que seja aprender apenas de modo material, particular e concreto. E aprender, na filosofia escolástica, significa absorver em si uma forma alheia. Assim, é em razão das formas alheias, absorvidas no processo de aprendizagem sensível, que os animais se movem. É fácil compreender isto se pensamos num leão caçando: ele sente o aroma da presa, escuta seus passos, percebe visualmente sua silhueta e atira-se a ela, matando-a e comendo. É a forma da presa, absorvida pelo leão no processo de aprendizagem sensível, que o move à caçada.

É claro que o animal tem todas as funções ditas vegetativas: também cresce e fenece. Mas o que o especifica é esta capacidade de mover-se por uma forma apreendida. No entanto, ele não pode dar-se um fim diferente daquele que já tem por natureza; não conhecemos leões herbívoros, nem praticantes do jejum. Uma vez identificados a fome e a presa, o leão desencadeia seu processo instintivo de atingir seus fins carnívoros instintivos.

Acima dos seres estritamente animais, porém, encontramos outra categoria de seres vivos – os seres intelectuais, e especificamente estes seres, como os humanos, nos quais o intelecto se expressa como razão. Falaremos disto em nosso próximo texto.