Nos primeiros dois artigos desta questão, debatemos como identificamos, empiricamente, o que é a vida e, no segundo, como discernimos qual a essência da vida a partir dos fenômenos com ela relacionados, que nos chegam aos sentidos – as suas operações. Aqui, faremos um movimento ascendente, purificando o conceito para ver da sua pertinência, quanto a Deus.
Este artigo é importantíssimo: estabelecerá a verdadeira noção da hierarquia do ser, ao estabelecer a noção da hierarquia do viver. Conhecer o que é em nós a vida, e o que é a vida em Deus, nos permitirá trilhar mais facilmente o caminho da liberdade – tornarmo-nos o que devemos ser. Como diz o filósofo francês Remi Brague, não há antropologia que não culmine numa ética. Mas somente buscando a verdade antropológica podemos chegar numa ética virtuosa, que nos conduza não à escravidão das normas, mas à felicidade do ser. Descobrir e aceitar quem somos é o único caminho para descobrir e aceitar o que podemos e devemos ser. Ou, como dizem os jovens hoje: “aceita, que dói menos”!
Mais uma vez, lembramos duas coisas essenciais:
1) “A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas” (Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius, 24.04.1870, Cf. Catecismo da Igreja Católica, § 36, Carta aos Romanos 1, 19-20, Livro da Sabedoria, 13, 1). Sem esta capacidade, diz o Catecismo, “o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade porque foi criado à imagem de Deus (Gn 1, 27)” (§ 36).
2) Quanto ao uso da analogia para falar sobre Deus, não se pode reconhecer nenhuma semelhança entre Deus e a criatura “sem que a dissemelhança seja ainda maior” (Concílio Lateranense IV, cf. CIC § 43). Este é cuidado ao usar da analogia para falar de Deus: as semelhanças identificadas analogicamente sempre ocultam uma dessemelhança ainda maior. Este é um limite que se apresenta como um convite para a humildade da inteligência humana frente a Deus: se Deus é Deus, falar dele sempre envolve uma relação de permissão e amor. Deus se deixa encontrar por aqueles que o buscam de coração sincero (Jer. 29, 12-13), mas nunca se deixa dissecar por quem quer estender-se em vãs curiosidades ou no desejo desordenado de controle intelectual sobre Deus como “objeto de conhecimento”. Aliás, a verdadeira busca por Deus, mesmo que apenas pela “revelação natural” da criação, é sempre precedida pela própria graça. Sem ele próprio, ou contra ele, é impossível achá-lo de qualquer maneira. Ninguém vai a ele se ele próprio não o atrai primeiro (Jo 6, 44).
Posto isto, podemos nos aventurar pelo debate proposto por São Tomás, cientes de que, no caminho da verdade, não há como passar à frente de Deus – ele sempre e forçosamente nos precede.
A hipótese controvertida, aqui, nega a possibilidade de aplicar a noção de “vida” a Deus. Será que é adequado falar de “vida”, com referência a Deus? De fato, mesmo para nós hoje, não parece difícil falar em Deus como uma força impessoal, condutora ou originante, que explica e conduz o universo e a história. Seja o deus de Darwin, que é a seleção natural para a adaptação, seja o deus de Marx, que é a economia, seja o deus de Freud, que é a pulsão sexual, ou quantos deuses habitem as teorias científicas ou cientificistas contemporâneas, a maioria de nós aceita que possa existir uma força qualquer, impessoal e poderosa, que conduz a todas as coisas para um determinado fim, de um determinado modo. Ainda que seja apenas algo como uma hipóstase do “ser humano” absolutizado como medida de todas as coisas. Mas em que sentido se poderia defender que Deus vive? `para abrir o debate, portanto, São Tomás propõe a hipótese de que é inadequado atribuir a “vida” a Deus. E vai apresentar três argumentos neste sentido.
O primeiro argumento lembra que a definição de “vida” envolve a capacidade de mover a si mesmo – é preciso lembrar aqui que “mover” está sendo usado no sentido aristotélico de “transformar-se”, ou de passar da potência ao ato. Mas o argumento nos lembra que Deus é imóvel, no sentido de que nele não há potências que possam ser conduzidas ao ato. Assim, a noção de “mover-se”, segundo o argumento, não se aplica a Deus; portanto, tampouco a noção de vida.
O segundo argumento objetor vai na mesma linha; ele afirma logo que sempre é possível identificar um princípio para a vida, nos entes animados. E o argumento cita Aristóteles, para quem “a alma é a causa e o princípio do viver nos seres vivos corporais”. Mas em Deus não se pode identificar nenhum princípio, porque ele é, por definição, não-principiado. Assim, o argumento conclui que, não sendo possível identificar nenhum princípio de vida nele, seria então inadequado aplicar a noção de vida a Deus.
O terceiro argumento objetor lembra que a dimensão mais fundamental da vida, em tudo aquilo que empiricamente contemplamos como vivo, é a dimensão vegetativa, ou “alma vegetativa”, responsável pelas operações de nutrição e de reprodução. Mas estas operações existem apenas em seres corpóreos. Ora, o argumento conclui daí que é impróprio falar de “vida” em seres incorpóreos, como Deus, já que dele não se pode afirmar em nenhuma hipótese que se alimente ou ser reproduza. Assim, o argumento conclui que a noção de vida é inaplicável a Deus.
Mas o argumento sed contra cita as Escrituras, que se refere sempre a Deus como “Deus vivo” – por exemplo, o Salmo 83, 3: “meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo!”. Claramente, a palavra nos revela que a vida é uma noção própria de Deus.
Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.
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