Eis a hipótese controvertida proposta para debate, aqui. “Parece que a vida é uma operação”, propõe São Tomás, para provocar nosso debate. E vai nos trazer três argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento é de natureza lógica: as coisas somente se dividem por aquilo que é do mesmo gênero. Se divido frutas, posso separá-las em bananas e maçãs, mas não em bananas e passarinhos, digamos. E o argumento prossegue: segundo “O Filósofo” (já sabemos que é assim que São Tomás nomeia Aristóteles), a vida divide-se em operações, que são alimentar-se, sentir, mover-se localmente e conhecer. Assim, se pode dividir-se em operações, então a vida é, em si mesma, uma operação.
O segundo argumento parte da divisão dos modos de viver, conhecida desde os gregos, em ativa e contemplativa. O argumento prossegue, dizendo que a diferença entre as pessoas ativas e as contemplativas se estabelece em razão das operações próprias de cada um destes dois modos de viver. Ora, conclui o argumento, se os modos de viver se diferenciam em razão de suas operações, então a própria vida é, em si mesma, uma operação.
O terceiro argumento é bíblico. Cita o Evangelho de João (17, 3), no qual Jesus diz: “Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam, a ti, Deus verdadeiro”. E prossegue: conhecer é uma operação. Logo, o argumento conclui, se a vida consiste em conhecer, então ela consiste, essencialmente, numa operação.
O argumento sed contra, porém, cita “O Filósofo” de novo, que diz: “para os seres vivos, viver é ser”. Quer dizer, o viver não consiste simplesmente nas operações, mas num aspecto do próprio ser do ente vivo.
O problema está delimitado. São Tomás passará, então, à sua resposta sintetizadora.
O debate que São Tomás pretende introduzir aqui é de uma atualidade evidente: trata-se da possibilidade de conhecer, diríamos hoje, a essência através da aparência, ou, mais kantianamente, debater se é possível conhecer o númenon através do fenômeno. São Tomás sempre defendeu que o objeto próprio do nosso intelecto é a essência das coisas, mas o objeto próprio dos nossos sentidos é o que ele chama de “sensível próprio”, vale dizer, aquela parte da coisa que se dá sensivelmente a nós. E não há caminho para chegar às essências senão através do que é sensível, vale dizer, São Tomás defende que podemos, sim, conhecer a essência das coisas por meio do nosso conhecimento sensível – não há nada no intelecto, diz ele, que não tenha antes passado pelos sentidos. Mas ele acredita que é possível que as essências sejam realmente apreendidas intelectualmente, pela abstração do dado sensível que recebemos das coisas. Literalmente, ele diz que chegamos a conhecer a essência das coisas a partir das aparências que ela apresenta aos nossos sentidos.
A questão é, diz São Tomás, que muitas vezes confundimos os fenômenos com as próprias coisas. É por isto que, por exemplo, definimos o corpo como “extensão espacial”, e o definimos como “aquilo que tem três dimensões”, quando ele não se resume a isto, essencialmente. O corpo é o elemento tangível de um ente material, ou seja, ele é parte do próprio ser deste ente, e não apenas um acidente de quantidade expresso dimensionalmente, como pensa grande parte da filosofia pós cartesiana. O fato de que nós conseguimos conhecer os entes materiais a partir do contato com a extensão que seu corpo apresenta nos leva a tomar a extensão como essência da corporalidade, e imaginar, com isto, que a corporalidade é um acidente do ente, quando não é: é um elemento essencial da sua constituição substancial.
Aqui também a relação entre o fenômeno da vida e a sua natureza mais interior é posta em debate por São Tomás. De fato, no artigo anterior, nós havíamos identificado o que caracteriza um ser vivo, ou seja, quais operações nos fazem constatar, empiricamente, se algo é vivo ou inanimado. O debate agora é mais profundo: a própria vida, que consiste em operações que têm origem no próprio ente vivo, pode ser definida, ela própria, como uma operação? Ou fazer isto seria confundir o fenômeno “estar vivo” com a essência do próprio viver?
É isto que São Tomás nos adverte agora. Se nós chegamos a compreender o fenômeno da vida examinando as operações com que ela se torna perceptível para nós, não podemos confundir o que significa “viver” com o conjunto de operações que o ser vivo executa. São Tomás não é um mecanicista, mas um realista. Ele sabe que, se fizéssemos um robô capaz de se alimentar, de se mover localmente, e mesmo de perceber através de sensores eletrônicos e resolver problemas por inteligência artificial, ainda assim não estaríamos criando vida. A vida é um atributo da própria forma do ser vivo: é um atributo substancial, e não simplesmente mecânico. É por isto que a forma dos seres vivos tem um nome especial: anima, ou alma. Portanto, embora a palavra “vida” seja utilizada por nós para designar, abstratamente, aquelas coisas que apresentam certas operações perceptíveis aos nossos sentidos, a vida mesma não se limita a estas operações: viver, concretamente, significa ser dotado de uma forma viva, capaz de mover a si própria. Este é o significado próprio de viver: ser constituído de forma viva, substancialmente. Mas a noção de vida é às vezes tomada, menos propriamente, para designar as próprias operações vitais dos seres vivos. Este sentido, porém, diz Tomás, é menos preciso, menos completo. Derivado. É neste sentido derivado, portanto, que Aristóteles descreve a vida como sendo, principalmente, “sentir e conhecer”, no Livro IX da Ética a Nicômaco.
Depois desta aula de estrutura metafísica, São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção é aquela que alega que, como se divide em operações como alimentar-se, mover-se localmente e aprender, a vida pertence ao gênero das operações, e não ao próprio modo de ser substancial do ente.
São Tomás nos responderá que Aristóteles, na citação transcrita aqui, está usando a noção imprópria de “vida”, no sentido de operação. E explica que estas operações, pelas quais o ser vivo manifesta-se com tal, podem ser tomadas como fenômenos reveladores de vida, ou como a manifestação fenomenológica da própria vida do ente – neste sentido, em vez de dizer que viver é alimenta-se, mover-se, sentir ou inteligir, diz São Tomás, seria mais adequado dizer que viver é ter uma natureza tal que seja capaz de realizar estas operações. Mas esta natureza, a vida, não se esgota nas operações mesmas: um robô, que mecanicamente (ou eletronicamente) realize operações como as que realiza um ser vivo não se transforma num ser vivo apenas por parecer realizá-las a partir de si mesmo. O mecanicismo, por desconhecer as noções de substância, essência e natureza, reduz a essência ao fenômeno – e é este erro que São Tomás quer evitar aqui.
No entanto, São Tomás não desconhece a importância do fenômeno para revelar a natureza do ente, e, com isto, a sua essência; é por isto que São Tomás nos dirá que as operações que são naturais a cada tipo de ser vivo nos ajudam a classificá-los nos quatro gêneros de seres vivos que existem no mundo natural, a partir das quatro operações que realizam; os que são apenas capazes das operações vegetativas, como alimentar-se, crescer e reproduzir-se; os que são, ademais destas, capazes de sentir, mas não de locomover-se, como os animais inferiores; os que, além disto, locomovem-se, como os animais superiores, e por fim os que são capazes de conhecimento intelectual, como os seres humanos. Neste sentido, as operações revelam a própria natureza do ser vivo, e nos permitem classificar sua essência de acordo com a sua complexidade. Sem jamais reduzir a vida do ente à respectiva operação.
A segunda objeção distingue a vida ativa da vida contemplativa a partir das respectivas operações; desta classificação, quer deduzir que a vida consiste nas próprias operações. São Tomás vai aproveitar a oportunidade para nos explicar melhor aquilo que entende por operações vitais, e quais os seus princípios.
São Tomás jamais fragmentará a realidade em duas dimensões, a fenomenológica e a essencial ou numênica, como fazemos nós hoje em dia. Estas dimensões são diversas, mas não são separadas. O fenômeno, que é a operação vital, tem sua raiz, seu princípio, no próprio ser do ente que a realiza. Ter a condição de ser vivo, segundo São Tomás, é ter em seu próprio ser os princípios que levam à realização, por si mesmo, das operações vitais. As coisas são, pois, profundamente conexas. Ser vivo é ter em si mesmo os princípios das operações vitais.
No caso dos seres humanos, prossegue São Tomás, estes princípios vitais naturais não são suficientes para permitir com facilidade e perfeição todas as operações próprias do ser humano. Há, no ser humano, como que uma segunda camada de princípios que, embora não sejam estritamente naturais, mas adquiridos, transformam-se numa segunda natureza capaz de inclinar o ser humano a determinadas operações e torná-las fáceis e prazerosas. A estes princípios adquiridos, que se instalam no ser humano como uma segunda natureza e permitem a liberdade de realizar as mais perfeitas operações propriamente humanas São Tomás dará o nome de “hábito”. O hábito, para Tomás, portanto, não tem aquele sentido de adestramento, de mecanicismo, que tem para nós hoje: chegamos a imaginar que realizar uma coisa por hábito nos torna menos responsáveis, menos livres, menos conscientes dela. Neste sentido, em certa medida até opomos os hábitos à liberdade, e louvamos a espontaneidade do gesto, no sentido da sua insubmissão ao que imaginamos ser uma força escravizadora do hábito, como expressão máxima de liberdade; aos que têm bons hábitos, bem cultivados e capazes de permitir a execução fácil e desimpedida das operações humanas, chegamos a considerar como menos humanos, menos valiosos, quase robóticos.
Nada mais longe do pensamento de Tomás. Para ele, os hábitos são a própria raiz da liberdade. São como que o recheio da perfeição; são aquele complemento experiencial que se incorpora a nós e nos torna aptos a sermos tudo aquilo que podemos ser. Sem as palavras e sem as estruturas gramaticais a nossa potência de falar permanecerá sempre como uma potência; mas a fala, a comunicação em ato, não se constitui de semântica e sintática, mas da informação que se quer transmitir. Neste sentido, a semântica e a sintática vêm se incorporar à nossa potência de falar como hábitos: enquanto elas permanecem nos livros, não nos ajudam. Mas quando se incorporam em nós, pela educação linguística, tornam-se hábitos, que são a base da perfeição do ato de falar.
Os gêneros de vida humanos podem, portanto, distinguir-se pelo tipo de hábito que incorporamos. Se temos apenas maus hábitos, ou se, por acédia ou negligência, ou por deficiência do meio social, não conseguimos adquirir bons hábitos, permanecemos apenas como seres patéticos, incompletos, errantes e falidos. Mas se adquirimos hábitos que nos permitem contemplar, ou mesmo agir, podemos exercer uma vida contemplativa ou ativa; estes gêneros de vida não se distinguem, portanto, pela diferença na operação, mas nos hábitos que inclinam a esta ou àquela. Enfim, se adquirimos em nós o hábito das coisas divinas, pela graça infundida, então recebemos a vida eterna. E é assim que São Tomás considera respondidas a segunda e a terceira objeções.
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