Como vimos, a hipótese controvertida proposta por Tomás para começar a discutir a vida em Deus é a de que todas as coisas, mesmo as inanimadas, têm vida, porque têm em si próprias ao menos o princípio do movimento local, conforme a ciência física do tempo de Tomás. Em sentido contrário, ele ajunta uma citação de que as plantas apresentam o grau mais ínfimo de vida, mas os seres inanimados estão abaixo delas em perfeição, e por isto não podem apresentar vida em nenhum grau.

Como veremos da resposta de São Tomás, a falta da teria da gravidade, que fez colocar na própria forma dos seres a sua tendência ao movimento local (para cima para os corpos leves, para baixo para os corpos pesados) não foi capaz de confundir São Tomás quanto aos limites dos seres considerados vivos. As conclusões que ele adotou podem ser consideradas, portanto, grosso modo, válidas ainda hoje.

São Tomás vai iniciar sua resposta sugerindo um critério empírico para discernir sobre a vida dos seres em geral. A questão, diz ele, é observar os seres que “manifestamente” estão vivos. E os manifestamente vivos, diz ele, são os animais. Pode-se duvidar que um determinado vegetal seja um ser vivo, quando, por exemplo, não apresenta atividade discernível pelos sentidos humanos. Mas ninguém que observe um animal durante um tempo razoável terá dúvidas de que ele está vivo. É por isto, diz Tomás, que sempre se considerou que a vida, no seu sentido paradigmático, próprio, cabe aos animais. E aquilo que consideramos próprio da vida animal pode nos ajudar a distinguir os seres vivos daqueles não vivos.

E o que caracteriza a vida observável nos animais? Ela se caracteriza, fundamentalmente, segundo São Tomás, pela capacidade de mover-se, ou seja, de ter movimento próprio, de ser a causa das suas próprias transformações. Como já vimos diversas vezes, a noção de “movimento”, para São Tomás, é muito mais ampla do que a noção de movimento local, como deslocamento espacial, que temos desde Descartes. Envolve toda transformação que implique levar uma potência a ato. São Tomás, então, constata que nós consideramos que um animal começa a viver, empiricamente, quando começa a transformar-se, ou seja, a mover-se, a atualizar suas potências. E, graças ao princípio da vida, este movimento é um movimento próprio, ou seja, ele se move por um princípio que tem em si. Quando este princípio próprio de movimento cessa, e o animal só pode ser movido por outra coisa, constatamos que ele já não vive.

Destes fatos, São Tomás conclui que a vida se manifesta propriamente pelo movimento, especificamente pelo movimento que se origina em si mesmo. E Tomás nos lembra que há dois tipos de movimento que podem ter a origem no próprio ser: 1. O movimento que implica passar do imperfeito ao perfeito, ou seja, da potência ao ato, como o crescimento em estatura do animal jovem que amadurece, ou 2. O chamado “ato do perfeito”, ou seja, aquele animal que, tendo já bem desenvolvidos os sentidos e a memória, são capazes de receber estímulos sensíveis, processá-los e guardá-los – vale dizer, podem aprender. A aprendizagem pressupõe um sistema sensorial e nervoso suficientemente desenvolvido, ou seja, é um ato que nasce daquilo que já é em si mesmo perfeito.

Concluindo, São Tomás diz que considerará como vivente tudo aquilo que se move (passa das potências aos atos) e age (exercita as capacidades relativas às suas perfeições) por si mesmo, e não vivente tudo aquilo que não o faz; embora possam eventualmente apresentar algum tipo de atualização, ela se caracteriza pela passividade, por não ter origem em si próprio, e portanto, mesmo podendo ter alguma semelhança com a vida, vida não é.

Tendo estabelecido sua noção de vida, São Tomás passará a precisá-la, respondendo às objeções iniciais. A primeira objeção quer estender o movimento a todas as coisas, animadas e inanimadas, por uma citação aristotélica fora de contexto: “o movimento é como uma certa vida naturalmente existente em todas as coisas”. São Tomás contextualizará esta citação, sem sair dos paradigmas (hoje ultrapassados) da física aristotélica, mas dando uma explicação que é válida ainda hoje: há, de fato, nas coisas, algumas tendências naturais ao movimento, em razão da sua forma, como o movimento dos corpos celestes, ou, diríamos hoje, mesmo o fenômeno do magnetismo ou da eletricidade. Estas capacidades intrínsecas de produzir forças não representam vida, apesar de apresentar semelhança com a capacidade automotora em que a vida consiste. As forças que envolvem os seres inanimados são características constantes, mensuráveis desde fora, e não sofrem variação dinâmica em razão das interações com o meio ambiente. Na física aristotélica, era o movimento natural dos corpos celestes quem provocava todo o movimento dos seres sublunares; esta visão parece anacrônica, mas de certa forma a física contemporânea sabe que o delicado equilíbrio das forças do universo de fato é essencial para a existência de vida na terra, e portanto a física aristotélica não estava totalmente equivocada no particular. Em todo caso, São Tomás dirá que somente por uma semelhança muito remota é que se pode chamar estas forças de “vida”, num sentido muito mais metafórico do que propriamente analógico. É esta a questão colocada na segunda hipótese objetora: a semelhança entre o movimento de origem intrínseca que há em seres vivos como as plantas, por um lado, e nos seres inanimados, por outro. É experiência empírica que os seres inanimados também apresentam tendências, forças que se manifestam neles. No tempo de São Tomás, sem a teoria da gravidade, acreditava-se que os objetos pesados tendiam naturalmente para baixo e os leves, para cima. Hoje, São Tomás usaria talvez como exemplo o magnetismo natural de algumas rochas e mesmo os fenômenos elétricos da natureza, como raios, ou ainda o vulcanismo. Qual a diferença essencial entre estes fenômenos, que são próprios de seres inanimados, e a vida?

São Tomás responderá que, mesmo que haja tendências intrínsecas nos corpos inanimados, não é próprio deles moverem-se, salvo quando estão fora do seu “lugar” próprio. Esta é parte da física aristotélica, que, desconhecendo a teoria da gravitação, defendia que o lugar próprio das coisas pesadas era embaixo, e das coisas leves, em cima. Se as coisas pesadas estão embaixo, diz São Tomás, elas não se movem, entram em repouso. Também ocorre com as coisas leves, diz ele. Na verdade, o movimento dos corpos celestes, nesta física aristotélica, é causa eficiente dos movimentos sublunares; hoje, gostamos mais de pensar em termos de “correlação de forças” tais como as forças gravitacionais e as eletromagnéticas. Mas a forma de pensar de São Tomás continua válida: as forças não vivas são constantes, calculáveis e mensuráveis; os movimentos dos corpos vivos são, neste sentido, imprevisíveis, sujeitos a interações sensíveis e a decisões não previsíveis nem totalmente controláveis para a física. A vida, portanto, não se esgota na manifestação das forças físicas que regem as interações dos seres inanimados, embora as envolva e dependa delas. O movimento vital caracteriza-se, diz São Tomás, exatamente por poder contrariar as forças naturais em sua constância, e tomar direções imprevisíveis. Para as coisas vivas, não há repouso no equilíbrio, porque o movimento vital caracteriza-se pela espontaneidade e pela possibilidade de contrariar as tendências que seriam esperadas se apenas as forças que movem os seres inanimados estivessem em jogo. Estes geram o movimento esperado quando desimpedidos, lembra Tomás. Os seres vivos, no entanto, quando estimulados, podem gerar, por iniciativa própria, movimentos inesperados e mesmo contrários às forças naturais existentes.

A terceira objeção cita o senso comum que chama de “águas vivas” aquelas que estão em movimento constante, atribuindo-lhes a vida, numa tentativa de estender o conceito de vida a um elemento natural fundamental que é a água. O objetivo, aqui, é estabelecer uma diferença apenas de grau, mas não de natureza, entre os movimentos das coisas inanimadas e os movimentos das coisas propriamente animadas. Mas São Tomás manterá sua distinção, dizendo que, embora o senso comum chame de “vivas” as águas correntes e de “mortas” as águas paradas, esta denominação é metafórica, porque o movimento parece espontâneo e parece assemelhar-se ao movimento dos seres vivos. Mas, no caso das águas correntes, há apenas os movimentos próprios dos seres inanimados quando submetidos às forças físicas naturais, e não a espontaneidade e a possibilidade de contrariar as forças físicas naturais, que caracteriza propriamente o movimento da vida.

A linha de São Tomás é precisa. A vida se apresenta ali onde a causa do movimento é estritamente intrínseca, e o movimento é espontâneo e pode contrariar a tendência das forças naturais. A vida dura enquanto esta interioridade existir. A diferença entre as forças vitais e as naturais não é apenas de rau, portanto, mas de natureza. Nas coisas vivas, há causalidade eficiente intrínseca, ausente nas coisas inanimadas.

Tendo estabelecido o critério para identificar os seres vivos, no próximo artigo debateremos em que, propriamente, consiste a vida. Lembrando sempre da maneira analógica de pensar, que permite estabelecer um sentido principal para uma noção, e reconhecer diversos sentidos analógicos e até metafóricos. A busca da univocidade, que é a grande característica da linguagem científica contemporânea, é um elemento constrangedor, redutor do pensamento, limitador de inteligibilidade, quando se está ratando daquilo que ultrapassa as classificações de “espécie e gênero” para apresentar-se como elemento fundamental e estruturante da própria realidade – o ser e seus transcendentais.