Aqui começa a discussão sobre a vida. O que é a vida, a quem ela corresponde e o que significa estar vivo. É certo que toda a física e toda a biologia que lastreava este artigo foi ultrapassada. Isto é algo importante para lembrar. Mas a estrutura do real que São Tomás revela não está ultrapassada; suas categorias podem valer-se dos conceitos que eram consensos acadêmicos em sua era, e já não são mais; mas a verdade deles não depende da ciência de plantão. Os conceitos que São Tomás estabelece aqui são importantes hoje, tanto quanto eram m sua época, e a utilização, por São Tomás, de exemplos decorrentes da ciência que ele conheceu prova, por um lado, a abertura que ele tinha com relação à vanguarda científica do seu tempo e, por outro, o quanto São Tomás estava preocupado em expor com clareza, aos seus contemporâneos, os fundamentos do seu pensamento. Não precisamos, e nem devemos, nos agarrar à ciência ultrapassada que ele usou; ele não fez isto, e lá se vão 800 anos desde os seus dias até hoje. Mas não precisamos, tampouco, nos agarrar a falsos pressupostos filosóficos decorrentes da ciência que temos hoje, quando mal interpretada. Avanços científicos, de inegável importância, não se vinculam necessariamente a avanços filosóficos. Podemos tranquilamente conceder que São Tomás podia ter uma estrutura de descrição do real muito completa e verdadeira, naquele tempo, e estudá-la tranquilamente, sem medo de confrontá-la com na ciência de hoje. Estou certo de duas coisas: 1. O próprio Tomás, se estivesse entre nós hoje, o faria; 2. A estrutura do real que ele construiu não somente resiste, mas sobrevive com méritos e confirmada pela ciência contemporânea. Que se vale, muitas vezes não de modo expresso, dos conceitos que ele trabalhou, como a noção de “vida”, sem perceber de onde tira tais conceitos. Nós sabemos. Vamos ao debate.
A hipótese controvertida, aqui, é a hipótese do universo vivo, ou da “anima mundi”, que surgiu na filosofia helenística tardia, com os estoicos, e ainda repercute em muitos meios científicos de vanguarda. Será que a vida é uma característica de toda a criação? Todas as coisas estão vivas? O universo é vivo?
Precisamos nos lembrar, ainda aqui, da forma analógica de pensar. A pesquisa tomista nunca se encerra na univocidade, e é capaz de descobrir muitos sentidos latentes no mesmo conceito. Deus criou o universo de modo analógico, a estrutura do real é analógica e, portanto, para pensá-la temos que nos valer da analogia. É isto que São Tomás busca nesta questão: estabelecer qual o sentido próprio da noção de vida, quais seus sentidos participados ou analógicos e quais seus sentidos puramente metafóricos.
Não podemos nos esquecer, tampouco, de que São Tomás não conhecia a teoria da gravitação, e que, portanto, pensava em termos de física aristotélica: as coisas têm um lugar próprio (as pesadas embaixo, as leves em cima) que procuram naturalmente, e cada vez que não ocupam este lugar próprio é porque sofrem violência; cessada a violência ou retirado o obstáculo, as coisas tenderão naturalmente ao lugar que lhes compete no cosmos. Hoje já não pensamos assim, mas, como eu já disse acima, não podemos pensar que a mudança de paradigma científico na física tenha invalidado simplesmente a metafísica de Tomás. Cabe-nos testá-la.
Es a hipótese inicial: parece que a vida é comum a todas as coisas naturais. E São Tomás apresentará três argumentos em favor desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento parte de uma citação aristotélica, do livro da Física; “o movimento é como uma certa vida naturalmente existente em todas as coisas”.
Precisamos nos lembrar, é claro que a noção de movimento de Aristóteles não é a mera noção de movimento local que prevalece depois de Descartes; para Descartes, todo movimento se resolve em deslocamento espacial, mensurável geometricamente. Para Aristóteles, a palavra “movimento” descreve qualquer passagem de potência a ato, mesmo que não implique deslocamento local. Neste sentido, para Aristóteles, o ato de conhecer também constitui um movimento, como, por exemplo, o de envelhecer. Postos estes esclarecimentos, voltemos ao argumento, que segue assim: se todo movimento é como uma certa vida existente naturalmente nos seres, e se todos os seres naturais necessariamente passam de alguma potência a algum ato em sua existência (isto é, movem-se), então todos os seres criados, diz o argumento, participam de algum modo da vida. Logo, pode-se afirmar, diz o argumento, que a vida é algo naturalmente ínsito a toda e qualquer criatura.
O segundo argumento parte de uma comparação entre o movimento das plantas (movimento, aqui, no sentido aristotélico de passagem da potência ao ato) e o movimento local das coisas inanimadas. Como lembramos acima, nos dias de São Tomás, não havia a teoria gravitacional, então acreditava-se que as coisas pesadas procuravam “naturalmente” descer, e as coisas leves procuravam “naturalmente” subir – salvo se impedidas por algum obstáculo, e todo movimento que contrariasse estas tendências intrínsecas das coisas era considerado “violento”. O argumento parte desta consideração, de que o movimento local, para cima ou para baixo, está inscrito na própria natureza das coisas, como o movimento de nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir e morrer está inscrito na natureza das plantas – o chamado “movimento vegetativo”. E o argumento prossegue, afirmando (como se acreditava cientificamente então) que o movimento local de todos os seres, incluídos os inanimados) era um movimento mais fundamental do que as transformações vegetativas que ocorrem nas plantas, já que a maior parte das transformações de potência para ato, inclusive nos seres vivos, envolvem o movimento local. E o argumento conclui que, uma vez que o movimento mais fundamental de todos é intrínseco à natureza de todas as coisas, então o princípio do movimento local é intrínseco a todas as coisas; uma vez que “ter em si o princípio do próprio movimento” é a própria definição de “vida”, o argumento conclui que, de certo modo, todas as coisas estão vivas.
O terceiro argumento parte ainda da ciência da época. Quatro elementos eram conhecidos então: terra, ar, água e fogo. Os elementos, por serem formas básicas virtualmente contidas em todas as coisas criadas, eram consideradas as coisas mais simples e, portanto, mais imperfeitas que existiam. Mas o argumento lembra que o senso comum atribui a vida às águas, chamando os corpos de água corrente de “águas vivas”. Daí o argumento conclui: se a um elemento, que é o mais imperfeito dentre os seres, se atribui a vida, então com maior razão pode-se atribuir a vida a todas as coisas.
O argumento sed contra cita Dionísio [pseudo-]Areopagita, que afirma que as plantas apresentam o grau mais ínfimo de vida, e, uma vez que os seres inanimados são inferiores às plantas, a eles não se pode atribuir o viver.
São Tomás dará, então, sua resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.
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